Mais uma coisa pega fogo.

Isis Cardoso
Sep 3, 2018 · 3 min read

Imagem: Facebook

Toda hora alguma coisa pega fogo, e eu queria que isso fosse só uma coincidência triste. Enquanto todos estávamos discutindo concepções intelectuais, as estruturas básicas do País estão jogadas ao descaso.
Hoje, foi o Museu Nacional. Há alguns anos atrás, foi o andar da Escola de Belas Artes (EBA) da UFRJ e também o Museu da Língua Portuguesa, na Estação da Luz, SP. Assim como a EBA, a Escola de Comunicação (ECO) da UFRJ também foi prejudicada por um incêndio. A história intelectual do nosso País está se esvaindo em chamas por descaso, e isso não parece coincidente.
A Educação já está jogada às traças no nosso País, não é de hoje. O fogo está aí, matando nossas crianças à queima-roupa em balas perdidas, ameaçando professores, incentivando uma guerra em que os únicos que ganham são os que ganham o tempo inteiro, os que detêm o poder. Poder este que não pode ser questionado, defendido por uma névoa misteriosa que nunca deixa muito claro o que ocorre aos que o contrariam - mas nós sabemos que é o fogo.

O descaso é uma realidade. Descaso com as instituições, com a história de nosso País. Um País que não conhece sua história é fadado a repeti-la, dizem nas universidades. E a história é cíclica se pararmos para pensar, só mudam os personagens. Não há o que repetir se não houver história, se não houver linguagem, se não houver comunicação, se não houver arte. O fogo é estranhamente conveniente, e não há uma preocupação com os patrimônios históricos e culturais que ainda temos. A Pedra do Sal foi abandonada pela Prefeitura, que também desmantelou o Centro de Tradições Nordestinas. Está tudo sendo desertado, nosso Carnaval (o Carnaval negro, o Carnaval verdadeiro) está sendo gourmetizado, desmembrado, vendido pros gringos assim como nosso petróleo e as termelétricas que foram leiloadas.

Todo esse caos ocorre e as pessoas lutam entre si defendendo seus messias políticos, que pouco se importam pelas nossas necessidades básicas e riem em suas casas confortáveis situadas em condomínios suntuosos onde nunca falta nada. Eles nos odeiam. Odeiam mulher, odeiam pretos, odeiam indígenas, odeiam pobres. Caçoam de pobres em suas ligações ultrassecretas vazadas pelo noticiário, depois se candidatam a um cargo mais alto, ficam no topo das intenções de voto e assim mantêm seus status quo. Crise pra quem? Crise pro pobre que sofre os reflexos da alta do dólar com o aumento do valor dos alimentos, crise pro estudante de família pobre que sustentava a casa com bolsa de mestrado da CAPES que foi cortada, crise pra quem depende das migalhas podres da saúde pública, onde os hospitais federais e estaduais apodrecem e os pacientes tem que sentar no chão e fugir de goteiras, crise pro monte de desempregados que espera para pegar os rendimentos do FGTS do restante de seus direitos trabalhistas que querem usurpar, pros indígenas que perderam suas terras por pura ganância do agronegócio...

O que importa para os poderosos se toda a nossa história se desmoronar em chamas e fracasso? Afinal, eles só ligam pra fogo se estiver num molotov e for atirado na vidraça de um banco.

Eu queria que eu só tivesse que falar sobre isso daqui a um tempo, de preferência sem ter uma perda GIGANTE dessas envolvida.

Isis Cardoso

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