O mais difícil é o SOL

Lembro como se fosse hoje: aquele violão enorme na minha mão e eu lutando para conseguir reproduzir a nota Sol. A curva do instrumento se sobressaía e eu, com a inocência de uma criança de 6 anos, imaginava que eram montanhas que eu teria de transpor para poder me apresentar numa audição na escola. Foi minha primeira apresentação da vida. E a nota Sol saiu meio torta.

Nasci entre acordes. Minha mãe, professora de música, tentava tocar entre uma troca de fralda ou outra. Depois que meus irmãos nasceram, o violão ficou pegando pó até que ela começasse a me mostrar os caminhos da melodia. Mas violão nunca foi minha praia — eu queria cantar! E assim segui, sem pretensão alguma de tomar isso como profissão.

Na escola, usava meus dons para atrair a atenção de um garoto ou outro. O violão a tira colo e uma música da Shakira eram a certeza do sucesso. Mas eu carregava na alma um repertório muito maior do que uma artista pop em ascenção: MP4, Quarteto em Cy, Chico Buarque, Gilberto Gil, Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Altamiro Carrilho, Elis Regina e outros gigantes. Mas meus olhos brilharam — e meu peito se encheu de coragem — quando ouvi Marisa Monte pela primeira vez. “Meu Deus, é isso que eu quero para vida!”.

Meus ensaios eram sempre em ambiente familiar — nunca achei que minha voz tinha molho o suficiente para encarar uma apresentação em público. Mas a vida é uma caixinha de surpresas e, numa excursão com a escola para o Programa H (aquele, do Luciano Huck), tive um empurrãozinho dos amigos e fui cantar no fatídico quadro Gogó do H. O produtor do programa encheu minha bola. Elogiou minha voz até não poder mais. Liguei para família toda avisando que eu ia cantar ao vivo, em horário nobre, em rede nacional. Entrei no palco me achando a Mariah Carey brasileira. Fiz piada com o apresentador. Mas, dessa vez, minha inocência me cegou e eu não percebi que as montanhas que teria de transpor dessa vez eram muito maiores do que as curvas de um violão. Envolviam acordos publicitários — e meu orgulho, minha coragem. Não tive tempo de abrir a boca: Fui vaiada como nunca imaginei que seria e meu choro correu solto como na música The Flight of the bumble bee.

Me transformei numa abelha medrosa, me escondendo de flor em flor, sem coragem de sair em busca do Sol novamente. Mas a vida é uma caixinha de surpresas e agora sou mãe de 3. E eles trouxeram as mais lindas melodias de volta a minha vida. Guardei meu medo no bolso e agora saio em busca do Sol. Aquele, que já se mostrava difícil desde o começo.



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