Sobre o dia que eu instaurei a democracia num formigueiro

Faz uma semana que deixamos 45m² pra trás com o objetivo de encardir os pés das crianças em um quintal cheio de espaço para ser ocupado por brinquedos. A casa térrea estava em nossos sonhos há muito tempo, mas cansamos de esperar o FGTS engordar — se ele fosse um peru, nosso natal seria bem triste — e resolvemos encarar o aluguel. E vou dizer, a felicidade do sol batendo nas janelas e as crianças dormindo às 20h por exaustão fazem valer cada centavo gasto.

“Mãe! Vem ver o tamanho dessa formiga!!” , gritou a Amélie lá do quintal, no sábado. Largando o pano de prato sobre a mesa — e com um sorriso orgulhoso no rosto — caminhei, pensando: “Taí. Outra coisa maravilhosa do quintal: as crianças poderão ver diferentes bichinhos, ter contato com a fauna local. Maravilha”.

E aí eu fui tomada pelo choque. Não era daquele tipo de formiga que às vezes a gente acha no açúcar e nossa avó diz para comer mesmo assim porque faz bem para os olhos. Aquela formiga tinha quantidade proteica suficiente para alimentar qualquer bombadinho de academia. Tinha tamanho suficiente para ser confundida com uma barata daquelas de verão. Tinha potencial para arrancar um braço dos meninos numa única picada. “Puta que pariu, que merda que é ter um quintal desse tamanho”. E foi a piaçava da vassoura a última visão da formigona. Pronto. Assunto resolvido.

10 minutos depois, Amélie entra em casa correndo: “mãe, agora tem formiga com asas!!!

Minha nossa senhora. Fiquei tentando imaginar o tamanho da asa da bichona. Já pensei que teria penas ou escamas, como um dragão. Criei um bicho horroroso na cabeça nos 3 segundos que se passaram até eu chegar à formiga alada. Ufa! Essa era bem menor, mas estava em turma. Tinham umas 20 sobre o chão do quintal e, antes que o Antônio resolvesse experimentar uma delas, coloquei todo mundo pra dentro de casa e fui avaliar a miríade. Achei mais umas 5 formigonas gigantes e mais umas 50 aladas. Foi a maior formigocina no meu quintal. Eu, louca, suada, descabelada, brandando a vassoura de um lado ao outro. Ninguém mais brincou no quintal naquele dia.

De noite, resolvi consultar o oráculo (google) para ver se estávamos realmente falando de formigas. Podiam ser vespas. Ou qualquer outro espécime selvagem desconhecido pela garota de cidade grande.

“Formigas macho ganham asas para acasalar com as rainhas”

Pronto. A formigocina em casa foi bem mais grave do que eu imaginava. Matei a realeza. Adeus monarquia do formigueiro. Elas terão de se organizar em uma democracia. Terão horário eleitoral. Voto obrigatório.

De noite, sonhei com uma formiga rainha, de coroa e tudo, brandando seu cetro real e gritando a plenos pulmões: “CORTEM-LHE A CABEÇA!”.