A morte me cai bem

Carro fúnebre aguarda no Cemitério Vale dos Pinheirais, 2017 (Isis Correia)

Puta idiota se explicar quando nada se é e ninguém quer saber. Mas quem disse que eu sou esperta? Então é isso, eu tenho essa coisa de fotografar a morte. Eu acho a morte muito mal entendida e relegada. As pessoas têm muita má vontade com a morte.

Mas assim é com tudo o que não entendemos. A gente nega. Nosso mundo se limita justamente por nossos saberes e o que se sabe sobre a morte ainda é bem pouco. Para uma jornalista-investigativa que trabalha na editoria de Existência, não haveria pauta melhor. Então fico na cola dela. Ando por valas. Sento na grama para observar o inobservável.

Até ontem às 21h, antes de passar pelo National Geographic, a formação geográfica do continente neo-zelandês não existia para mim. E é isso: eu acho ruim viver — e morrer — sem exercer meu personagem detetivesco das coisas e dos fenômenos da natureza até que as possibilidades de respostas se esgotem. Ou me esgotem. Acho ruim viver — e morrer — em negação, causando a alienação de si próprio quando a sociedade e a família já fazem isso com tanta maestria.

Observo a morte e digo que várias vidas vivemos numa só encarnação. E uma vida que eu acho que vale a pena de ser vivida é a de detetive de deus, que é a natureza, que é a força inegável que nos sustenta a tudo e a todos. Improvável sim. Inegável, não.

Encaro cemitérios como lugares de reflexão, locais que desinflam o meu ego. Rio. Ando pelos túmulos com um sorriso de canto de boca, desacreditada de que tudo o que eu faço vai terminar assim, pfff. É comicidade pura. Quanto mais adornado é um túmulo mais eu acho graça.

Ando pelas quadras e penso em como morrerei. Rio novamente. Penso no tempo que passamos atormentados para no fim… no fim, pfff. Relembro as pessoas imorríveis. Quanta gente eu achei que nunca fosse morrer! Vejo a cumplicidade entre os pássaros e os coveiros: enquanto os homens remexem a terra, as minhocas submergem e garantem a existência dos plumados. Vejo as baratas passarem. Os gatos tomarem sol nas lápides. Gente chorando. Gente rezando. Gente.

Esse é um esboço que tenta me explicar mas não afirmo condizer com algum tipo de verdade interior subconsciente maior que possa haver dentro de mim. Explico a parte do iceberg que já emergiu. Minha relação com a morte nada mais significa do que meu profundo interesse pela vida. Merece ser registrada como qualquer outro acontecimento. E isso não tem nada de profundo. É o que.

“Todo o interesse na morte é, em verdade, apenas uma outra expressão de nosso interesse na vida”— Thomas Mann explica-me melhor que a mim.