Aos olhos do pai

Isis Mastromano
Aug 9, 2017 · 4 min read

Conflitos, fragilidade, culpa e tristeza assombram homens que abriram mão da paternidade e passaram pela experiência de um aborto induzido. Visto geralmente sob a ótica feminina, as consequências psicológicas também existem para eles.

O sentimento masculino em relação ao aborto tem sido relegado a um segundo plano de importância (Foto: internet)

Texto original publicado na Revista República (2014)

Na sala cheia de um consultório médico aparentemente comum em um bairro
nobre da Capital paulista, nove homens aguardavam. Estranhos entre si, eles
mantinham um acordo tácito que incluía a esquiva de olhares e um emudecer
sobre o motivo que os levou até ali, mas que silenciosamente todos conheciam: iriam acompanhar o aborto de seus filhos.

Rafael*, 34 anos, um fotógrafo de Santo André, foi parar na pomposa clínica
ginecológica no Itaim Bibi, bairro nobre da capital paulista, cuja fachada resguarda o que a maioria vai fazer ali pela indicação ilícita de um médico do sistema público de saúde da cidade que atendeu Luana*, 41, amiga que engravidou dele após um relacionamento-relâmpago.

Um casamento problemático de uma década culminou no caso extraconjugal e Rafael se viu às voltas de ter de administrar uma nova criança para além de seu filho, de 4 anos. Luana, solteira e mãe de um garoto de 11 , conforme ele descreve, não quis o bebê. “A decisão foi tomada por ela, que apenas me comunicou. A mim restou o papel de acompanhante, porque, apoiar, no fundo, eu não apoiei. A sensação é a de que eu senti mais a perda e o peso da decisão do que ela”, conta.

Assim como no universo feminino, os motivos que levam homens a abrirem mão da paternidade por meio do aborto percorrem os mais diversos caminhos: a indisposição de ser pai, falta de condições financeiras e turbulências familiares estão entre os principais. E, ao contrario do que aponta o senso comum, nem todos passam imunes à experiência: eles sentem o impacto do aborto tanto quanto as mulheres, alertam os médicos. O fato é que o sentimento masculino em relação ao aborto tem sido relegado a um segundo plano de importância, pois, as consequências não são tão explícitas como para as mulheres.

“É um problema ‘invisível’, até agora menosprezado”, afirma o psicólogo clínico Rodrigo Campos, de Santo André. “Os sentimentos de dor profunda, tristeza, incapacidade, culpa, inferioridade, ansiedade e depressão são realidade para aqueles que por algum motivo passam pela experiência do aborto, principalmente o induzido, que geralmente mina a autoestima do homem que se sente incapaz dali para frente de cumprir com as responsabilidades de um relacionamento, ele sente que vai falhar eternamente”, explica. Para Campos, os homens não são encorajados a compartilhar essa experiência, ao contrário das mulheres, que têm
diversas redes constituídas de apoio.

E esses sentimentos de chateação, frustração, solidão, mágoa, culpa, desgaste,
arrependimento, mesmo passados um ano da experiência, perseguem Rafael.
“Não procurei auxílio psicológico e consegui me abrir apenas com uma amiga”, conta. “A culpa é grande e parece que vai seguir comigo por tempo
indeterminado. Sinto que falhei como homem, que me retirei de uma
responsabilidade. Nessa época de Dia dos Pais, olho para meu filho e fico
imaginando que esse outro bebê poderia estar brincando e vivendo assim como ele já há um ano”, diz Rafael.

Rafael conta que nunca havia pensando em aborto de forma tão próxima e que desconhece se amigos passaram pelo mesmo. Pela ótica masculina, ele descreve que ficou sozinho na sala de espera, sem jeito, tenso, enquanto a companheira foi levada por uma enfermeira “mal humorada” para a sala do médico, sozinha. Conta que se sentiu excluído do processo e que queria estar com a companheira durante o procedimento. “O homem está ali para pagar os custos”, diz. Custos esses que, segundo Rafael, foram R$ 3 mil.

Culpa e angústia
Pesquisa da Universidade de Wiscosin, nos Estados Unidos, tocada pela Doutora Catherine Coyle, do departamento de enfermagem psiquiátrica e tida como uma das maiores autoridades mundiais no estudo dos impactos do aborto sobre os homens, revelou que a maioria deles, 86% de 150 entrevistados, não escolheria o aborto em outra gravidez não planejada no futuro. Outro dado aponta que 68% dos homens confidenciaram a um amigo o aborto enquanto 18% não falaram com ninguém. O que deixa evidente de que a experiência é traumática para eles se mostra no fato de que 90% relataram sentimentos de tristeza após o aborto.

Embora a incorporação da perspectiva masculina na assistência em saúde
reprodutiva seja recomendada em nível mundial, no Brasil, os estudos que
considerem o impacto emocional do aborto em homens são escassos. É da USP (Universidade de São Paulo) um dos mais consistentes e que visou conhecer os sentimentos vivenciados por homens que compartilham a experiência do aborto com suas parceiras, tocado pela mestre em Enfermagem, Márcia Melo Laet Rodrigues, e Luiza Akiko Komura Hoga, professora do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Psiquiátrica da Escola de Enfermagem da USP.

Segundo as pesquisadoras, homens que compartilham da experiência do aborto requerem envolvimento e sensibilidade dos profissionais da saúde sendo que suas principais demandas estavam relacionadas ao desejo de acolhimento, obtenção de suporte emocional e informações sobre todo o processo.

A pesquisa analisou a narrativa das experiências de 17 homens que passaram por aborto a fim de identificar os principais sentimentos relacionados à vivência deles. Nos casos de aborto espontâneo, os principais sentimentos estavam relacionados à angústia da perda enquanto que no aborto provocado surgiram a culpabilidade diante do ocorrido e suas consequências.

Isis Mastromano
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