Como a música tem ajudado a dar finalidade correta à minha ‘loucura’

Uma das 14 ilustrações esquisitíssimas de entender do livro Aurora Consurgens (séc. VX. Tomás de Aquino)
“Uso o termo “esquizofrenia” para descrever um fenômeno que me acompanha desde muito cedo — o excesso de criatividade que, por muitas vezes, manifesta-se de maneira descontrolada. Acredito que a mente criativa ‘superativada’ pode gerar sintomas de esquizofrenia patológica tais como alucinações auditivas, visuais, a paranoia, etc. Sempre gostei de sonhar acordado e nunca tive medo de não encontrar o caminho de volta. Apesar de assustado com as vozes e de ter uma sensação de estar sendo observado, sempre me fascinei com esse aspecto misterioso do meio ambiente ao meu redor”.

Extraí o trecho de “Deixe a ‘loucura’ correr solta — Esquizofrenia luciférica” (Revista Sitra Ahra #2, 2012). O autor é Rafael Bittencourt, para a maioria, o guitarrista do Angra que não é o Kiko Loureiro.

Rafael, o artista que mais foi comigo secretamente à sessões de terapia. É possível contar nos dedos os que conseguem traduzir a gente na arte. E na arte buscamos muito dessas vozes que possam falar o que não temos competência de colocar pra fora. Após ler esse artigo, há cinco anos, todo meu ‘fanatismo’ pelo Angra, que começou na adolescência por motivos bastante inocentes fez sentido.

Mais sentido fez quando André Matos saiu da banda. Guardo os três discos de seu mandato como a coisa magnífica que são. Mas um dia eu não queria mais falar de índio, nem de metal com música raiz. O Angra que admiro e que me fez continuar no posto de fã não começa nem no Rebirth (que adoro “pelos motivos errados”). Começa no Temple of Shadows e se estende ao último, Secret Garden batendo ponto no predileto e incompreendido Aurora Consurgens (disparadamente o mais querido). Ah, teve o Aqua. É, teve sim.

Freud tentou. Lacan. Jung. Spinoza. Platão. Cortella. Laboratórios Aché. O amor da minha família. Ninguém tinha guitarra na mão pra ultrapassar certas camadas da razão pra me ajudar.

Até aqui tudo parece a declaração preocupante de um fanático por um artista e então meu superego queria achar um excelente motivo socialmente adequado para arrematar a função do texto mas não encontrei. Talvez trate disso mesmo: estou cansada de buscar as respostas socialmente aceitas para me encaixar em grupos de gente que não gosto, agradar pessoas que falam o que não me interessa, conseguir emprego em corporações que não admiro, conquistar o amor de gente que não enxerga nada além da minha carcaça e até acha inadequado ‘sentir demais’, que acredita que ‘loucura’ pega.

Fica por conta de que chegou o tempo de dar voz ao si mesmo. Mesmo. Ainda que o prejuízo social e sentimental seja, foi, é e tem sido grande, penoso, dolorido, como soube Jó testado até o último fio da sua túnica, em nenhum lugar — a não ser na auto-ajuda — li que seria fácil. A diferença é que Jó brigou pouco. Eu brigo muito. Guento não coisa invisível se achando maior que eu. Infelizmente meu ego inflado atrapalha a visão feito barriga de cerveja. Ele aguentou. Ganhou pirulito no final e tudo. Chego lá.

Há pouquíssimo tempo decidi que não ia mais me esconder no escuro da floresta com Pã e que a palavra loucura faria parte do meu vocabulário de uma forma bem mais carinhosa. Minha estratégia ao longo de 34 anos foi velar o máximo possível todas as questões que me ensinaram serem inconvenientes da minha personalidade. Só que a maior parte de mim não convém mesmo. Não é uma pequena parcela. Estou falando de muita coisa, de um tapete estufado que revela no meio da sala que a paisagem não está normal.

Lembro das inúmeras vezes em que chorei no ombro de namorados, soluçando: “eu só queria ser igual a elas”, enquanto apontava para um grupo de garotas sorridentes comendo McDonalds no shopping”.

Começar a falar mais abertamente desse tipo de assunto e me conectar com pessoas que estão cagando pra isso (-“oi, eu sou louca. -Ah é? Me passa o sal?”), com quem nem entende o que digo, com quem entende, com os que gostam de mim e os que não gostam, os que sentam em anonimato ao meu lado no trem, tem sido como resgatar um morto que estava morando dentro do meu corpo.

Não considero terapêutico e nem levarei como conduta conversar com qualquer tipo daqui pra frente. Mas diminuir o monstro, óbvio, retira-lhe poderes. Deixar o livro aberto para consulta pública não é tão assustador como eu sempre achei que fosse.

Só levo a sério a coisa da exclusão que ronda os ‘loucos’ pela história afora. Essa eu sinto na pele. O que tem em manicômios não são loucos, são gente abandonada. Posso duvidar bem muito de Deus, mas não das coisas que os Homens fazem. E fazem mesmo. O remédio é dinheiro. Eu trabalho para, se chegar sozinha à velhice tendo como causa mortis ter passado a vida sendo eu mesma, me internar no retiro dos Jornalistas (espero que fundem um logo!). Não escrevo em tom de vitimismo. Pelo contrário, escrevo com o peito ardido, moidinho de dor da mesma forma que você sente quando pensa em terminar só. Mas quer saber, hoje, tanto faz desde que eu continue selada comigo mesma, e amanhã, amanhã será o novo hoje.