Kafka e os textos que queremos matar

A apuração de quem sou está mais avançada do que a dos outros. Os outros só podem me imaginar.

Esse é meu primeiro texto no Medium, então, começa agora a contagem regressiva para que a ideia de escrever por aqui morra.

‘Você deveria ter um blog’ é algo que escuto com constância. Tenho certeza de que abandonaria. Assim como larguei o jornal e tenho vontades diárias de fechar todas minhas contas em rede social.

É um paradoxo: preciso dos meios porque escrever é uma das poucas coisas que gosto. E pra piorar há uma relação promíscua entre meu prazer e meu ganha-pão acontecendo bem debaixo das minhas ventas.

Escrever é das coisas que me trazem a confusão que só as identificações conseguem. Chego a acreditar que dou um destino digno ao alfabeto a reboque do que dizem pessoas importantes.

Já tive um blog na internet discada. Rendeu um séquito de baba-ovos, um amigo que encontro e perco entre falências e nascimentos de redes sociais e na vida real, um problema do tamanho de um stalker.

Comecei a reconsiderar escrever em primeira pessoa há uns 3 anos. Meu psicólogo à época dizia ser “um material muito bom” aqueles papeis que eu chamava de desespero e pagava para ele ler toda terça às 16h.

Minha atual psicóloga trabalha na mesma linha. Não psicanalítica. Ela Junguiana, ele Ericksoniano. Ele um ateu, cético, crítico ferrenho dos filósofos midiáticos pós-modernos. Ela, transcendental e hostess de um mundo interno rico e ignorado pela maioria. O que os une é a torcida pare que eu coloque pra jogo os 95 quilômetros de linhas.

Fazer da vida um bem comum é um lema que adotei há alguns anos (não que eu consiga levar isso a cabo integralmente). E eles acham que o que eu digo pela caneta ajudaria pessoas.

Penso que pago a terapia para tomar uma surra de verdades e talvez quando escuto uma, tiro o crédito. É certo que gosto de escrever. Agora, que seja relevante para alguém, é outro departamento.

Talvez na próxima sessão a gente converse sobre baixa auto estima e inflação. Pois de certo sou só mais uma no meio de milhares que estão pensando agora mesmo em abrir um blog. Para que? “Para colocar para fora seus sentimentos”. E?

A vida é uma experiência pessoal e intransferível e, seduzida pela ideia de Kafka: que queimem meus textos assim que eu morrer, pois eles só têm validade para mim.

Pra nossa sorte o amigo do cara por trás de ‘A Metamorfose’ era bem desobediente!