Kurt Cobain, Laney Staley e nosso analfabetismo sentimental

Ilustra por Natilles (http://bit.ly/2nYPlag)

Sou da geração criada pela MTV em UHF. Pela empresa americana de calçados All Star. Pela revista Showbizz. Pelas primeiras levas de famílias desajustadas em grande escala. E pela banda Nirvana.

Na ponta do lápis eu já pertencia a geração sucessora de Kurt Cobain e por isso peguei o Nirvana bem no fim. Mas até eu me dar conta disso, parece que foram 50 anos de pura devoção. Não foi nem um terço disso e, com ele vivo, talvez, 365 dias. Da minha geração mesmo, o Foo Fighters é o originário. Lembro que ganhei o 1º CD deles e vi que no encarte estava a foto do baterista do Nirvana!

Eu gastava todo o dinheiro dos meus pais em pôsteres, CDs, camisetas, livros, adesivos, álbum de figurinha, bandeira e qualquer diacho do Nirvana.

Adolescente quer pertencer (e adulto não?). A música e o modo com que aquela celebridade se punha diante dos outros para jogo me ajudava quando ninguém queria ajudar e o Nirvana cumpria bem esse papel na época. Que era o que mesmo? Nem sei ao certo. Era legal ser triste. Isso eu lembro.

Fui aprender que “emburrada”, que é quase o mesmo que triste, é a pessoa emburrecida, burra. Fui ler o manual de instruções sobre amor faz pouco tempo, eu acho. E brasileiro odeia ler instrução! A verdade é que analfabetismo sentimental atrasa a vida.

Hoje considero Nirvana uma banda okeyzinha. Nada de extraordinário. Mas qualquer olho azul emoldurado por um palco e uma guitarra garantem resultado nas planilhas de lucros. E em tese, deveriam garantir uma vida de facilidades na cabeça da maioria.

Kurt Cobain, que se matou em 5 de abril de 1994, há 23 anos, me faz lembrar das minhas mais carregadas crises de depressão. O consolo que recebia parecia ser combinado em conluio pelos consoladores: você é bonita e inteligente, não tem motivo pra ficar assim. “Você é bonito, rico, famoso, talentoso, as pessoas te idolatram, não tem motivo para ficar assim. Tens uma filha!”. Quantas vezes teria escutado esse discurso?

Para todos consoladores — sei que fazem o que podem dentro do que podem — digo que alma e mente não têm forma, não têm cor, não leem livro, não decoram tabela periódica. Há um estranho que habita em nós e com ele precisamos nos entender. Claro, não eximo assim todos vocês e suas péssimas contribuições sobre gente que é assim, a flor a pele.

Eu não me matei. Cheguei aos 34. Mesma idade de Laney Staley, vocalista loiro do Alice in Chains. Uma banda já bem melhor do que Nirvana, que também se matou em um 5 de março. Era bonito e inteligente.