Zé Mayer e a nossa distração na vida

Estamos aqui reproduzindo o mito da maldição de Sísifo: de dia carregamos uma rocha pesadíssima morro acima. A noite ela cai para que no outro dia recomecemos todo o trabalho infinitamente

Zé Mayer me traz a bosta de sensação de estar sempre começando todos os assuntos do zero. Nós já não falamos ainda ontem disso? “Chega de abuso”, “não à violência contra a mulher”, “mexeu com uma, mexeu com todas” (menos se você for naturalmente radiante ao lado do marido de alguém, nesse caso você será uma puta mesmo e bye bye sororidade). A humanidade me comove! Ser humano me intriga. Não o Ser Humano e sim, ser humano.

Nós somos muito chatos. Sofremos de uma desatenção caralhística em níveis acima do recomendado pela OMS. A gente se distrai muito fácil porque até ontem os sites pediam para orarmos pela Síria e discutíamos formas de receber os refugiados. Corremos, fazemos matérias disso, estudamos, lemos, tentamos mudar a vida. E agora… agora… o que é agora mesmo?

Digo, que bom que a gente tá falando de um assunto tão sério mais uma vez, mas a gente erra no modus operandi. Falamos do fim do assédio sem transformar nossa possessividade. Falamos em união sem transformar nossas disputas. Em inocência sem transformar a malícia. Falamos de abundância de direitos sem transformar a avareza. Queremos equilíbrio sem transformar obsessão.

Se não transformarmos as coisas por de trás das coisas, tudo vai dar errado e daqui um mês estaremos subindo uma nova hashtag antimachista ou somostodosparis.

Ignoramos nosso mundo interno e a discussão honesta disso. Esse tem sido o atalho para o abismo. Estamos aqui reproduzindo o mito da maldição de Sísifo: condenado a repetir sempre a mesma tarefa de empurrar uma pedra pela montanha, sendo que, toda vez que estava quase alcançando o topo, a pedra rolava abaixo por meio de uma força irresistível, invalidando completamente o duro esforço despendido anteriormente.