Cartas para Maria
“Cartas para Maria” é a história fictícia de um amor como muitos da real. Essa é a primeira de uma série de 15 cartas.
11 de agosto — 2019
A gente nunca conversou sobre as noites nubladas em que ficávamos trancados no quarto, ouvindo a chuva bater na janela. Depois de tantos anos, eu ainda lembro. O que tinha alí? Você sabe dar um nome? Uma vez eu cogitei ser apenas tédio - só que um dia, observando os casais na rua quase deserta lá de casa, eu notei algo invisível nos olhos deles. Há um laço incolor que os liga, algo além dos dedos entrelaçados. Há amor.
Naqueles dias nublados havia amor, embora nunca falássemos sobre isso. Por que algo tão simples se tornava tão difícil?
Hoje, enquanto eu encosto a cabeça no vidro vazio, chove lá fora. A noite é cinza. Não há estrelas visíveis no céu. As pessoas na rua fazem muito barulho, as solitárias caminham apressadas pra fugir das gotas, os casais andam calmamente. E, mesmo com as mãos e corpos molhados, não se desgrudam. Nós nunca tivemos isso. Eu nunca soube o que é andar na rua com você. Na verdade, acho que te lembrei porque Adele está cantando no rádio “I can´t make you love me”. Sempre molhava o travesseiro ouvindo essa música. Embora eu tenha recordado daquele tempo, a letra da canção não faz mais sentido. Agora eu sei que havia amor. De alguma forma, em algum lugar, você entendia a força do meu abraço e a ânsia do meu beijo.
Espero que você tenha construído aquela casa no campo que você tanto sonhava. E que as ruas não sejam mais tão engarrafadas. Aqui, do outro lado do mundo, as coisas vão bem. Mas eu nunca gravei o álbum de folk e, muito menos, vivo de mandalas. Ainda escrevo e sonho. Talvez nisso sejamos iguais. Não sei.
Espero que não seja tarde para que eu me desculpe pela forma que eu bati a porta da sua casa. Por não ter voltado mais. Eu precisava de um tempo para cuidar dos meus ferimentos e vê-los cicatrizar.
Não sei qual seu endereço atual, então envio uma cópia dessa carta a cada casinha em uma estrada de chão que houver.
