Celebração

Todos os convidados já chegaram, até alguns que não convidei, mas isso não importa. Quem eu preciso que participe dessa celebração veio. Família. Todos os vivos estão se movimentando por minha casa, mexendo em minhas coisas, sujando meu chão, poluindo meu ar. Comem a comida que eu comprei, bebem a bebida que eu comprei. Vejo minhas primas mais velhas escondendo a expressão de desdém pelos saborosos salgados que tanto gosto, mostrando os dentes entre si para fingir satisfação. Vejo os filhos destas mancharem o forro branco de minha mesa, maculando o tecido que me custou tanto suor. Mas isso não importa, e preciso andar e conversar com meus adoráveis convidados.

Saúdo o primo que já me foi próximo, este com nome de anjo. Ele fala qualquer coisa que não preciso escutar, só quero olhar e memorizar a face desse infeliz. “Você foi o primeiro que me prometeu amizade. Também foi o primeiro a me virar as costas.” A conversa se esvai em certo momento e quase me esqueço de voltar a fingir atenção. Peço-lhe para aproveitar a festa e comer o tanto que puder, comida não faltará, aproveite a condicional.

Vou conversar com aquela outra que me fez homem, encostada na parede observando três crianças de pais desconhecidos. Ela fala com orgulho desses três abortos malsucedidos e eu sorrio o tempo todo durante o monólogo. Lembro-me daquela noite suada e tensa, de corpos grudados e quentes. “Você me ofereceu amor, mas fez a mesma coisa com todos que conheço.” A conversa é interrompida quando um dos filhotes dela começa a chorar e gritar. Não faço ideia de onde a conversa foi interrompida.

O primo estrangeiro me esbarra em algum momento, como se eu fosse um desconhecido em sua casa. Ele me abraça e comenta sobre como estou diferente. Preciso admitir que, de todos, deste possuo algum apreço. Ou melhor, este eu não desprezo. E o motivo é simples e verdadeiro, a distância nos fez estranhos, em nenhum momento esse me fez promessas vazias. Somos estranhos e isso basta.

Tem muita gente nessa festa, não vou conseguir cumprimentar a todos individualmente. Observo ao redor e acho o que preciso, um grupo. E o melhor grupo da família, os evangélicos.

Só de me aproximar, já ouço as conversas. Tem o enrustido justificando a cura gay, tem o desempregado justificando o machismo, tem a gorda justificando as penitências. É toda uma sorte de hipocrisias que paro a dois passos do grupo para me divertir pela ultima vez. O primo loiro de olhos claros me percebe e me chama, a roda se abre e eu me adentro. Não há vinho, somente cerveja e refrigerante, no lugar do pão, há coxinhas e empadas. Este que me chamou é o único vestido com roupas para tempos frios, as mangas compridas da camisa clara que estampa qualquer homem barbudo que esse grupo idolatra, mas eu sei porque ele cobre a pele. A família toda sabe. Mas ele se abriu para mim e morrerei com seu segredo.

A peregrinação é longa. A família está aqui para a celebração. Antes do brinde, preciso ver minha mãe e sei exatamente aonde encontrá-la.

-E aí, tudo sobre controle?

-Ah, sim, você comprou tanta comida e bebida que acho que poderemos dar mais três festas.

-Queria que você perfeita, você sabe…

-Eu sei é que você gastou muito com isso. Mas não sei o motivo disso tudo.

-Após o brinde… Escuta, no final, é só olhar naquele livro que te dei, beleza?

-O quê?

-Nada não, vamos ao brinde?

-Vou chamar o pessoal.

O pessoal se aproxima da mesa. Há um bolo no centro. Subo num banquinho para falar. Eles demoram a calar a boca. Quando o silêncio está aceitável, eu começo.

-Eu chamei vocês aqui para mostrar uma coisa…, mas não me lembro mais o que era…- Algumas risadas desconfortáveis, tudo está escuro, somente a vela emite alguma luz. E os celulares de alguns.

Olho para todos e para nenhum.

Eu nunca gostei de vocês. Vocês nunca gostaram de mim. Hoje eu realizo um sonho, meu sonho é de que vocês jamais me esquecerão.

Tiro a arma de trás da cintura e.

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