Militância de internet, umbigocentrismo e capacitismo

Descrição da Imagem: Entre duas estacas horizontais, de madeira, um fio de arame farpado, que é o foco da imagem.

Pessoas avessas à militância de internet, por vezes, se esquecem que existem pessoas que não possuem autonomia física, psicológica para sair de casa. Também ignoram o fato de que é na militância de internet que muita gente encontra acolhimento e entendimento de diversas questões, porque não é possível tratar desses assuntos no mundo real, no cotidiano. É na internet que militantes encontram espaço para desabafar, estudar e lidar com as questões que lhe são significativas. Negar a relevância da internet em detrimento de uma militância presencial, “militância de rua”, me parece de um umbigocentrismo sem precedentes. É acreditar que todas as pessoas tem condições físicas, sensoriais, cognitivas, psicológicas para acordar os gigantes nas ruas, sendo que não, não é assim.

Pessoas com deficiência existem. Pessoas com doenças existem. Pessoas com mobilidade reduzida, permanente ou temporária, existem. Pessoas neuroatípicas existem. E nem sempre, essas pessoas podem estar presencialmente em espaços de militância. Para elas, a internet se mostra, então, um espaço possível, no qual suas opiniões e posicionamentos podem repercutir, serem visibilizados e discutidos. É uma alternativa ao isolamento social, um modo de se comunicar e identificar com pessoas que estão além do ciclo de familiares, cuidadores, médicos, etc.

Às vezes a arquitetura é uma barreira. Às vezes o acesso à informação (ou a falta dele) é uma barreira. Às vezes a situação socioeconômica é uma barreira. E às vezes a atitude alheia em relação a barreiras é uma barreira.

Ainda que o mundo lá fora fosse acessível (o que não é, em muitos sentidos), é justo exigir das pessoas que elas se sintam confortáveis em espaços não virtuais? Muita gente vive em situações de total ausência de empatia, ou nas quais, muitas vezes, é impossível se expressar (seja por falta de afinidade, abertura, vontade, condição biológica). É justo fazer com que essas pessoas se sintam mal por compartilharem suas angústias e demandas na internet? É justo negar a uma pessoa um espaço em que ela se sinta segura ”porque internet não é militância de verdade”?

É bastante preocupante que militantes não notem que existe uma parcela da população para a qual o cyberativismo é uma prática dignificante, que pode contribuir, e muito, para a alívio e compartilhamento de experiências, demandas e informações.

Desqualificar a potência da internet como ferramenta de expressão e realização concreta de ativismos é tirar, de muita gente, o direito e a chance de exercer autonomia de pensamento e conhecimento. E, é, no mínimo, estranho que militantes deslegitimem uma ferramenta que pode tornar a comunicação de ideias mais rápida, de alcance global e acessível. Não podemos nos dar ao luxo de crer que informações alternativas à mídia hegemônica sejam menores. Não quando essa mídia prioriza as histórias do que está no padrão, do discurso vencedor.

Não podemos, simplesmente, invalidar as informações que tem mobilizado pessoas e discursos na construção de opinião e consciência social. Fazer da militância de internet um inimigo não torna a militância presencial mais forte, pelo contrário. E, sequer cogitar a existência de pessoas militantes que não tem autonomia física, sensorial, cognitiva e/ou psicológica para estar presentes em ambientes não virtuais, e que por isso exercem suas militâncias virtualmente, é de um capacitismo inegável e absurdo.

Texto legal sobre o assunto:

Observações importantes:

· Favor, não confundir livre expressão de opinião com disseminação de preconceito e discurso de ódio.

· MUITA gente não tem acesso à internet. E, MUITA gente tem acesso mas não domina os usos da internet, ter acesso não é, de modo algum, garantia de informação e fontes ética e intelectualmente honestas.

· Este texto está aberto a edições, e reelaborações. Parte, essencialmente, de reflexões e incômodos meus enquanto pessoa com deficiência e, orgulhosamente, militante de internet.