Crônicas do Espaço

Azlu


Você acessou a oitava memória do comandante Azlu.

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A patrulha mensal da estrela Geles começava com esquadras de rapina vasculhando todo o perímetro. Distribuíamo-nos em várias rãs — apelido que deram às naves pequenas e rápidas para expiação e vasculha. –, cada esquadra contava com cinco ou até dez rãs, eu pertenço à terceira esquadra.

-Vamos Azlu, o tenente está nos requisitando na baía de embarque. — Uma jovem morena com dreadlocks amarrados em um rabo de cavalo, convocava o comandante Azlu. — Vamos ao norte da Geles, provavelmente ele pedirá que a gente dê uma checada na Geles-Canis. — Segurava seu capacete em forma de gota nos braços arqueados.
-Bom, podemos usar as naves Tibério? — Azlu se levantava e agora caminhava em direção à porta do seu dormitório. Sua roupa e a de Yana eram prateadas, ajustáveis ao corpo e com detalhes da cor azul.
-Acho que sim. — Caminhavam pelo corredor metálico que indicava com luzes vermelha o caminho até a baía. “PONTA DE FLECHA, REPITO, PONTA DE FLECHA, DIRIJA-SE À BAÍA DE EMBARQUE DELTA SEIS.”. — Bom, acho que é nosso ultimato — Sorriu fracamente. — Uma corrida?
-Você sabe que vai perder. — Yana se virou para ele com as mãos na cintura.
-Francamente, comandante. — Os dois riram e antes de correrem, Yana se abaixou e lhe aplicou uma rasteira. As luzes vermelhas piscavam com vários esquadrões passando, inclusive as Adagas Sutis.
-Isso não vale! — Levantou-se quando Yana já dobrava perto da baía de desembarque. Onde vários comandantes esperavam. Quando chegou perto de dobrar ouviu uma grande explosão e instantaneamente seu capacete cobriu sua face com um vidro. Correu atento até a baía e ela estava sob ataque.
-Yana! Yana! — Os comandantes, apesar de calmos, corriam como formigas, as quais seu formigueiro havia sido atiçado e atacado. Olhou pela baía e alguns vidros haviam quebrado e alguns comandantes flutuavam no espaço, já mortos. Os teryulians atacavam. — Alguns haviam escapado dos tiros das naves redondas dos teryulians e já montava em naves Tibério. — Ah, que merda! — As naves inimigas içavam mais lasers contra os vidros de proteção da baía de desembarque, que eram como pontes suspensas para além da nave, mas protegidas por vidros muito bem reforçados.

Correu o máximo que pôde até os Tibério do seu esquadrão, alguns haviam sido pegos já, e outros soltavam fumaças, danificados. Ativou as alavancas de propulsão, esquentou no modo manual as turbinas de lasers, e agora a distorção gravitacional tendia ao menos infinito. Hora perfeita para destruir alguns teryulians.

Olhou pelo vidro da nave Tibério, que imitava uma mão em concha, virada para cima. A diferença era que ela era mais reta para frente, e com um vidro à frente. A nave comportava apenas uma pessoa e era a sincronia perfeita entre rapidez e mortalidade. Viu metade das Adagas Sutis sair em Tibérios. Quando deu a partida e ignição plasmática. Na tela que funcionava como visor, apareceu uma jovem loira, de cabelos curtos, cortados à Chanel.

Seus olhos eram frios e firmes, já havia visto ela, e lembrava muito bem quem era.

-Comandante Sibila. — As turbinas emitiram o barulhento som de ignição e agora Azlu voava na imensidão do espaço, vazio e escuro. Apenas acompanhado de três planetas, dois satélites naturais e a estrela luminosa daquela galáxia. A Eriol. — Qual o prognóstico do seu esquadrão.
-Comandante Azlu, tenho apenas metade dos meus. — A conversa foi rapidamente interrompida por uma manobra evasiva genial da comandante loira, girou sobre o próprio eixo enquanto ascendia, largando uma granada térmica que dizimou dez naves inimigas. — Estamos tentando atacar a frota principal, os Porretes estão formando a frente ofensiva.
-Usaremos quais táticas. — Enquanto falavam, Azlu via na imensidão do espaço três naves redondas se aproximar e começar a atirarem. Girou duas vezes para o lado, dando um solavanco para baixo. Subiu e virou 360º para cima ficando de costas para as três naves que passaram reto. Cravou a mira dos mísseis rapidamente e lançou três apertando um botão vermelho acima da alavanca de troca de rodas de marcha.
Três naves teryulians explodidas com sucesso, mas nada se ouvia. Apenas se via as naves se despedaçando. — Eles formaram a frente do tanque. Nós seremos a cobertura celeste, os demais esquadrões serão o elemento surpresa e as retaguardas. — Agora todos os comandantes dos esquadrões apareceram em seus visores. Afastavam-se da torre da escola de comandantes, que assumira o casco blindado, estava impenetrável pelas próximas três horas. Todos assentiram e assim fizeram.
-Comandante Azlu. — Na tela era Sigmund, a comandante do esquadrão das Agulhas Negras. — Encontramos a frota principal. — Na tela de Azlu apareceu vários discos teryulians enfileirados com uma nave mãe atrás.
-Isso vai dar um trabalho. — Torceu o rosto em desaprovo. — Que sugere, sig? — A comandante olhou assustada pelo apelido em plena batalha. Vários Tibérios haviam sido acertados e seus destroços flutuavam perto da Eriol, com sua órbita monstruosa, atraía e liquidava qualquer coisa. Enquanto isso, os esquadrões menores enfrentavam com veemência as naves remanescentes ali nas redondezas da estrela Geles que abrigava a torre, e o planeta Aulural B1.
-Podemos usar a Eriol. — Sugeriu enquanto usava a camuflagem da Tibério. Todo seu esquadrão era especialista em vigiar, e atacar. Eram perfeitos espias. Alguns dizem que eles podiam até mesmo vigiar com naves de tamanho enorme, de tão fugazes que eram.
-Usaremos a mesma formação? — Sibila perguntou. Enquanto sua atenção foi tirada de alguns destroços que viajavam com velocidade perto de Aulural B2, o planeta o qual sobrevoava. As turbinas das Tibério não provocavam som no espaço, mas as cores eram visíveis, um verde plasmático com um vermelho no centro. — Az, você tem quantos do seu esquadrão?

Azlu olhou triste para o visor, não havia localizado ninguém do esquadrão Ponta de Flecha. Seu radar piscou violentamente avisando que sete naves teryulians haviam saído por detrás da Geles-Canis e agora vinham com direção violenta atrás dele. Antes de ser atacado, sete naves emergiram por detrás das naves inimigas, abriram-se na formação lótus, viraram os bicos das Tibérios para frente e liquidaram com o laser de curto alcance as sete naves. Recebeu sete chamadas em seu visor.

-Comandante Yana se apresentando. — Sorriu, enquanto os outros comandantes do esquadrão se apresentavam. Apesar de todos serem comandantes ali, havia sempre um que era o líder do esquadrão.
-Vocês me deram um susto, hein. — Azlu sorriu. — Quando voltarmos para a Torre vou querer dez flexões de cada, viram? — Todos sorriam.
-Hora de chutar umas bundas teryulians! — Yana firmou, e foi quando as sete naves correram à frente da nave de Azlu, se abriram em círculo, permitindo que o comandante líder do esquadrão entrasse no meio. Era a formação roda solar, conhecida por maior poder destrutivo, mas com baixa defesa. A manobra mais avançada da roda solar era quando as naves do círculo exterior e a nave central giravam atirando, funcionando idêntico a uma metralhadora giratória. Era um poder massivo enorme.
-Onde eles estão, comandante?
-Perto da corrente nebulosa. — Afirmou agora que atingiam as Adagas Sutis, que se aninhavam acima do Aulural B2.
-Sibile — Azlu disse sorrindo.
-Az, não me chame desse jeito, seu estúpido. — A comandante falou sem olhar o visor, observava além do Aulural B2 que ficava protegido visualmente pelo Aulural B3, por quem olhasse da nebulosa.
-Qual será? Os Porretes? — Falou e agora preparavam seus esquadrões na forma celestial, que funcionavam com todas as naves se espalhando por cima do elemento surpresa, como se fossem uma revoada de valquírias.
-Estão embaixo do B3, vão sair ao nosso sinal.
-Comandante. — Um comandante de um esquadrão menor que fariam as retaguardas apareceu no visor. — Possuo um plano. — Relatou sua estratégia e todos concordaram. Repassaram as novas informações aos Porretes e as Agulhas e seguiram.

Sinal dado, todos voaram o mais rápido possível através do espaço escuro e frio, com uma faixa extremamente luminosa longe, era a corrente nebulosa. Funcionava como uma corrente marítima, ela trazia e levava coisas, por vezes indesejadas. Quando chegaram perto, as naves teryulians se espertaram, estavam todas enfileiradas e assim saíram para o ataque atirando nas Agulhas que formavam o elemento surpresa, junto de outro esquadrão. Alguns Agulhas foram atingidos, mas logo interceptados pelos Porretes que subiram violentamente com suas naves Gastricht, bolas de demolição maciça que possuíam metralhadoras e lasers de alta frequência. Eliminando boa parte da frota principal deles.

A nave mãe continuava inerte e agora, as Adagas e as Pontas de Flecha espalhavam-se pelo escuro, acima deles, como petecas quando são derrubadas de um pote, no chão. Atiravam com suas armas mais fracas que ficavam embaixo das Tibérios, por enquanto, tudo estava bem, algumas naves atingidas, tanto das Adagas quanto as Pontas. Percalços da guerra.

Agora sua formação seguia por cima e em direção aos lados da nave mãe. Giraram duas vezes para o lado e ficaram de frente para o lado da nave mãe que arriscava alguns tiros, mas errava as pequenas naves Tibério. Todos, incluindo as Agulhas que eliminavam mais algumas naves teryulians, entraram na formação roda solar.

Iniciaram a manobra mais difícil e o que se via era um show de tiros e destroços, as naves giravam ferozmente em suas formações e atiravam dois esquadrões nos lados, e agora alguns Agulhas que haviam trespassado a barreira de teryulians. Em segundos a nave mãe explodiu totalmente, destroçou-se para os lados.

-Manobra evasiva! — Azlu ordenou ao seu grupo que saíssem de lá, antes que os destroços entrassem em uma inércia violenta, e colidissem com eles. Uma merda seria perder para destroços, em vez de tiros. — Vamos para casa, pessoal!
-AZLU! — Sibila apareceu em seu visor assustada. Eles, as Pontas, estavam de costas voando com intensidade, mas alguns Tibérios e uns Gastricht estavam ainda perto da nave que revelara algo brilhoso dentre os destroços. — ERA UMA ARMADILHA! UMA BOMBA!

A espinha de Azlu gelou, e a última coisa que viu foi o rosto de Yana apavorado e triturado pelo medo. Logo sem seguida tudo o que viu foi um clarão e sua nave sendo empurrada com extrema força para todos os lados, bateu com a cabeça no vidro da frente, e desmaiou.

Fim da transmissão.