Crônicas do Espaço
Yana
Você acessou a décima primeira memória da comandante Yana.
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Por um tempo, o que eu apenas senti foi frio, muito frio. Ele durava cinco horas, e quando eu enxergava alguma claridade escapando por pequenos furos no teto, se concretizavam dezesseis horas de calor infernal. Fui treinada para a sobrevivência em condições extremas, e como meus sentidos ainda respondiam bem e claramente, pude deduzir que se passaram dois dias, e eu estava acordada.
Pelas dimensões que pude tatear, eu estava dentro e uma caixa, e pelo gosto das paredes, era feita de ferro misturado com algumas impurezas. Pelo gosto acentuado, talvez cobre.
Ela balançava muito em turnos muito bem demarcados. Na terceira hora de frio ela parava, e continuava por todas as horas de calor. A minha única companhia era o atrito que o que me transportava fazia com o solo, que sem dúvida, era bem irregular. Era um som de vento ricocheteando pequenas pedras e as afastando, talvez usasse o sistema planear.
Em alguns momentos, alguém colocava dentro da minha caixa uma garrafa rústica com um líquido transparente e límpido, junto de alguns pedaços vermelhos de carne. Não identifiquei se eram de humanos, minha fome era tão grande que devorava o pedaço em segundos. O cheiro era bem árido, seco, e os meus lábios estouraram várias vezes.
Depois de quatro dias percebi pelos furos que nosso céu não estava mais azulado e nem escuro. Ele estava verde, com alguns pontos azuis na claridade, e outros escuros na escuridão. O cheiro ficara mais agradável e mais respirável, a umidade aumentara bastante e, pelo que consigo lembrar, atingira quase setenta por cento.
-Então, nós precisamos deixar essa carga onde? — A voz era de um homem, meia idade, tinha problemas respiratórios.
-Na próxima parada. Vão mandar para o próximo planeta. — A voz era de um homem, mais velho, com garganta inflamada. Pela voz, deduzi que ele deveria também ter algum problema de fígado. — Que dia, hein.
-É. Achamos uma dando sopa por aí. Que sorte.
As vozes eram em sua língua, a que aprendeu quando criança, o esperanto. Mas eles possuíam algumas modificações em entonações, palavras e como as pronunciavam. Ouvi alguns pássaros cantando, umas sequências muito encaixadas para serem pássaros comuns. Mesmo dentro da caixa, percebi algumas movimentações acima, como se estivessem em cima de coisas.
-O que foi isso? — A voz mais nova disse. Depois ouvi dois barulhos, como se engasgassem.
-Argghhh! — A voz mais velha pulou com força do veículo que levava a caixa, supôs Yana, que deduziu pelo barulho e forma como levitava. Ouviu mais um grito do velho e mais nada.
Sentiu passos encima da sua caixa. Yana se arrastou para o canto e o que quer que fosse, pulou atrás da caixa e aos poucos foi arrombando a porta da caixa, que até então Yana não tinha a dimensão de sua existência.
-Comandante — A claridade fora muito forte quando entrou, impedindo que Yana visse quem era. Mas sua voz lhe permitiu saber.
-Comandante Sigmund. — Seus olhos se acostumaram aos poucos com a claridade, até visualizar a comandante do esquadrão das Agulhas Negras. — O que aconteceu? — Foi aos poucos engatinhando para fora, apesar de tudo. Seu traje espacial ainda estava inteiro, estava apenas sem seu leitor de pulso.
-Não sei exatamente. — Sigmund verificava no seu pulso uma tela holográfica que se levantava mostrando a trajetória de queda. Evidenciando danos, estatísticas etc.
-Que lugar é esse? — Yana viu muitas coisas verdes e marrons, algumas retorcidas. Talvez fossem árvores e grama, mas eram muito diferentes das que já havia visto.
-Pelo que percebo. Viajamos em uma velocidade assustadora na corrente nebulosa, e fomos jogados no… — Sigmund verificou o prognóstico do seu leitor. — Terra.
-Terra?
-Sim, o planeta em que estamos se chama Terra. — Yana olhava admirava o local, uma estrada de terra rumo adentrando a floresta densa, com vários galhos e pedregulhos que se espalhavam pelas laterais.
-E que planeta seria esse? Alguma informação? — Yana arguiu enquanto retirava o resto de amarras do seu pulso. Verificou o nível de oxigênio no leitor de Sigmund, estava perfeitamente estável.
-Nada. Meu leitor só funciona com informações próprias, estamos fora de qualquer linha eletromagnética de rede de informações. Ou seja, devemos estar há anos-luz da Base. — As duas, boquiabertas, olhavam o planeta, que parecia nunca ter sido tocado por raça alguma. Com muita vida selvagem crescendo para onde queria.