Mesmo morando há 20 anos no mesmo lugar, eu ainda não sei onde moro.

Sobre falta de memória e necessidade de ocupação. Relatos (nem tão) aleatórios.

De uns tempos para cá comecei a seriamente pensar sobre onde eu moro, e não tem muito um porque. Na verdade, o mais próximo de um porque foi uma matéria que vi em um programa na televisão que falava sobre a organização de alguns moradores de uma cidade brasileira em fazer de um casarão velho um espaço aberto onde pessoas do bairro pudessem ir lá, sentar no sofá, conversar, fazer um piquenique ou simplesmente somente “estar lá”. Aquilo me deixou seriamente pensativo, porque eu nunca tinha nem se quer pensado alguma vez sobre o lugar onde vivo, e há mais de anos.

Recentemente, em uma aula de tópicos temáticos em antropologia, a professora pediu que fizéssemos uma redação sobre o que entendiamos por africanidade no espaço em que moramos. Quando me pus a pensar o choque veio de imediato: eu não sabia nada, ou praticamente nada. Eu só lembrava de uma loja de artigos da Umbanda em uma feira perto de casa, de um terreiro perto de uma praça que costumo frequentar. E seria uma ingenuidade absurda afirmar que não tem nada de africanidade na Cidade Nova: o que tava em jogo é que eu percebi que não sabia nada sobre onde eu morava, muito menos quando se tratava de africanidade.

Sim, eu moro na Cidade Nova, um bairro de Ananindeua, município vizinho de Belém, esse último que vem a ser a capital paraense. Aquele que, quando qualquer pessoa que não mora aqui, vem, sente-se perdida com tantas Cidade Nova fora do lugar (e acredite, nem eu sei porque foi numerado desse jeito). Nesse momento seria a hora que eu engato uma longa história sobre a formação do bairro, mas infelizmente o que eu sei, consta somente no papel. Não sei histórias das pessoas, suas crônicas, os seus “ali era diferente, existia outra coisa”, o que eu sei é bem pouco.

Mas o que consta como oficial é que o bairro surgiu na década de 70, a partir de um projeto de ocupação habitacional realizado pela COHAB que consistia em um conglomerado de diversos conjuntos habitacionais (aí entra outra confusão, porque eu ao menos cresci com sempre dizerem que a cidade nova inteira era um conjunto habitacional e não um bairro, mas isso é papo para outro momento…).

http://au.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/183/feira-da-cidade-tem-cobertura-de-tensoestrutura-meia-dois-nove-141164-1.aspx

Quando percebi que eu nunca pensava na Cidade Nova como um lugar de vivências múltiplas e ocupações desconhecidas, eu comecei a ligar os pontos, digamos assim. Belém exerce uma força enorme de atração de mão de obra, investimentos e demais serviços. Eu pessoalmente não conheço uma pessoa que não precise ir a Belém para fazer algo, e isso considera uma viagem de no mínimo 40 minutos dependendo para qual parte da cidade vizinha você tá indo.

E eu percebi que eu nunca pensei na Cidade Nova, eu nunca olhei para ela, porque eu simplesmente não vivia nela. Eu, e muitos outros, vivemos em Belém. O bairro de Ananindeua apesar de seus suspiros de autossuficiência, com revitalizações na cidade, promessas de shopping centers, mais consultórios, mais franquias de lanchonetes famosas se instalando aqui, ainda não é pensado como espaço nosso, onde vivemos, e que por isso deve ser fomentado, justamente pelo fato de simbolicamente vivermos em Belém e não termos “tempo” ou “possibilidade” de pensar no bairro da Cidade Nova.

E olha que nem vou entrar no mérito de outros bairros de Ananindeua, que são muito mais negligenciados que a Cidade Nova, muito devido a um histórico de gestões estapafúrdias.


Os meus questionamentos sobre onde eu moro não cessaram desde então, e conversando com algumas amigas comecei a constatar com ela como era triste não termos no bairro espaços “para se estar”, ou eventos culturais. Ou até como sempre que decidíamos fazer algo, sair, ou apenas ir em algum lugar, sempre tínhamos que nos deslocar para Belém, levando assim duas horas de preparação para sair, e voltar com antecedência, porque além de ficar extremamente perigoso, começa a passar pouco ônibus. Eu até me questionei se realmente não havia nada disso no bairro ou eu que não sabia dos que existiam. Eu realmente não sei, mas sigamos.

Nas últimas duas semanas (duas últimas de março de 2016) minha mãe chegou com um convite para mim: haveria um arrastão cultural na cidade nova, partindo do ginásio “abacatão”, como é popularmente conhecido, e finalizando na praça do complexo do 8, com um show. Qualquer pessoa que acompanha minha vida nem que seja um pouco de perto sabe de meus posicionamentos políticos.

No espectro político, eu sou claramente e decididamente alinhado com a esquerda. Meus posicionamentos são todos baseados nesse posicionamento prévio que acabei de declarar. O município de Ananindeua teve gestões absurdas, todas de partidos de direita, e naquele formato clássico de governo de que mostrar trabalho é inaugurar obra (sem contar que muitas delas inacabadas, ou bem precárias… Mas né, é aquele ditado…). E o governo atual não foi diferente, na verdade, foi um dos governos mais relapsos que já vi nos últimos anos.

Voltando ao arrastão que fui convidado: ele fazia parte de um projeto da atual prefeitura chamado PROMUSES, que “é uma ação da Semed e tem como coordenador o professor, cantor e compositor Mário Mouzinho. O projeto foi criado a partir da necessidade de propor ao aluno uma atividade prazerosa e formativa, inserindo ritmos de carimbó, xote, boi-bumbá e quadrilhas em um contexto musical.”. E eu não poderia deixar de reconhecer a importância disso assim que minha mãe me convidou.

Estive presente na III edição do arrastão cultural, sábado (12/06/2016), promovido por esse projeto, onde alunos tocam e cantam durante o arrastão como fruto do projeto. Não tinha como eu não ficar muito animado com tudo isso.

Eu estive presente lá, e pude perceber a importância desse projeto que tenta dar novas atividades a alunos de escola pública, uma oportunidade de contato com a música, e não somente isso, trazer isso para a comunidade local, que culmina no arrastão. Esse, que por sua vez, chegou na praça onde teve um show, com comidas típicas, e inclusive, a presença do movimento negro, com uma barraquinha com venda de artes e afins. Tudo isso na Cidade Nova. Teve muita dança, teve muito som, muita batucada, muita gente feliz, e apesar de não ter sido um grande evento, foi algo extremamente significativo pra mim.

Quem via de fora poderia até considerar algo ínfimo. Mas para alguém que quer deixar de morar em Belém e morar mais na Cidade Nova, foi algo que me fez acreditar no meu bairro, nem que seja uma ilusão, e nem que seja um pouquinho. Quero que isso seja somente um início, que o arrastão cresça com pessoas de escolas públicas, cresça com a comunidade que vive em todas as cidades nova desde a I até a VIII, que se construa como espaço de todos ainda mais em um bairro que é tão diverso, de espaços de contrastes sociais fortes às vezes, como todo bairro.

O próximo Arrastão Cultural vai acontecer no próximo domingo, pela parte da manhã, concentração às 8h da manhã no abacatão. E eu com certeza vou estar lá, porque quero viver mais onde sempre morei e, sem sombra de dúvida, tentar quem sabe um dia, conhecer mais as crônicas do passado da Cidade Nova, saber dos “aqui era outra coisa”, saber das histórias passadas de boca a boca, e saber onde eu moro.

praça do complexo do 8
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