Na Encosta

Você sabe o que é bonito?


2 de fevereiro. Mais tarde.

Ploc!

Com a língua enrolada puxava o chiclete para dentro.

Ploc!

Segurava o chiclete com o indicador e o polegar, dispensava-o à lixeira. Enrolava os encaracolados e curtos cabelos com o indicador. Não o do chiclete.

Meia noite. Saio andando pela sala, sento-me na varanda. Esticar as pernas na varanda e receber a brisa congelante, mas antes preciso limpar minha roupa.

25 de janeiro.

-Vilma! — Que voz doce, possuidora — Ajuda-me a tirar as malas. — O cheiro do lago me dá alergia, usualmente. Mas nesse inverno sinto que as flores estão fracas. — Acomode-as no nosso quarto. — Ando até ele, com uma bolsa e mais duas pequenas malas. — O que foi querida? — Os lábios colidem aos meus, e deixam um aroma de perfume masculino urbano na minha nuca. — Tudo bem? Combinamos que viríamos para melhorar as coisas, certo? — Suas sobrancelhas arqueiam e me dão o sinal necessário para ir depositar as malas.

-Claro querido. Vamos à margem noroeste pescar?

-Tenho algo especial hoje.

Calamidade. Meu inverno sempre fora em Napoli, mas esse eu precisava estar na casa da encosta.

27 de janeiro.

Um vinho? Quem sabe. Na noite fria da encosta, preferimos ficar ao pé da lareira. Vinícius tocava o antigo magno instrumento grego. Dedilhar das notas eriçavam os pelos dos braços, não contava com o ácaro da poltrona; por sorte minha rinite havia sido curada na adolescência. Senti seus dedos pararem com meus olhos abrindo em lentidão.

-Já está com sono?

-Não. Somente estava pensando que… Precisarei ir à cidade daqui a cinco dias.

-À cidade? Fazer o que? — Seus dedos levemente apertaram a poltrona que não se deixava iluminar a fosca cor dos felpos vermelhos. Corria seus olhos por mim, sem desejo. -.

-Carl precisa da minha ajuda. Processos judiciais urgentes. Mas… — Alcancei a mesinha que nos separa e tirei um cigarro da carteira. — Se não achares melhor, não preciso ir. — A fumaça percorrendo minhas vias. Um turíbulo fumacento que me purifica; o meu padre em tabaco dedilha seu instrumento. -.

30 de janeiro.

Crepita as minhas pernas. Sou jogada pelos lados na imensidão dos lençóis, passo por cima, por baixo. Possuída por um louco frenesi; sou devastada. Giros por entre seus braços, minha mente cambaleia para os lados. Deixo que suas mãos tateiem meu espírito, que pressionem meus instintos, e os libere vorazmente.

Caio acabada. Não me sinto derrotada, não como da primeira vez, saí vitoriosa. Mas ele logo dormiu. Um filho da puta, que dedilha as secretas artes da concupiscência canônica.

Passa as horas. Um café é bom, quando não se sabe dormir.

-Acordada?

-Não consegui dormir. — Revezavam minha alma: café e o cigarro. -.

-Fiz algo errado? — Suas calorosas e grossas mãos acompanhavam a curva da minha cintura, e o molejar dos meus ombros. -.

-Não, imagina. Foi a melhor de todas. — Virei para frente, segurei seu rosto; soltei uma risada enganada e calei sua difidência e o seu querer em decifrar minha cabeça. -.

-Que tal então — um ânimo fogoso saiu dos olhos azulados — nós irmos nadar.

-Mas agora, querido? — As minhas unhas escorregavam pelo seu busto. — Não está um pouco tarde?

-Não mesmo, venha.

Em natural forma corremos pela descida da encosta até o lago, onde um porto modesto de madeira estava vazio. Pulou para depois eu pular, rodamos pela água, como criança nos espirramos as escuras e turvas águas do lago da encosta. Minha risada era frouxa demais, e suas pernas quentes como quanto.

1 de fevereiro. Mais cedo.

-Vi Calíope de novo na vizinhança próxima. — Soltei desconexamente no almoço. Aquela carne fedia. -.

-Vilma. Já conversamos sobre isso. — Parou de comer com os cotovelos e os braços rudes à mesa. -.

-Sim, eu sei. — Olhei com curto olho, e com a cabeça quase baixa para abocanhar a comida. — Só comentei. Vai me levar à estação?

-Achas que deixaria essas belas pernas caminharem sozinha até aquele soturno lugar? — Ri. Mas de sua palhaçada; um palhaço adorável. -.

Comemos. Garfadas arfadas, silêncio em mascar, o copo bate a mesa. O lenço cai ao chão.

-Vou arrumar minhas coisas. Quer alguma coisa da cidade?

26 de janeiro.

Vamos a noroeste? Ajeitei o barco.

-Teremos que passar pela margem norte.

-O que falamos sobre isso, Darling? — As costas de sua mão roçavam meus cacheados e curtos cabelos. Sentados na varanda da casa a brisa lhe cobria as intensidades, os braços passam pelas minhas costas e o úmido e calorento respirar destrói minha visão. Não enxergo nada além do último dezembro no meu aniversário. — Não precisamos necessariamente passar pelo norte. — Cala sua voz, e cala consigo os seus braços. — O que é bonito para você?

-O que é bonito para mim? — Não entendi sua pergunta. Sim, ela fazia sentido, mas estava solta de mim, não fazia parte de eu saber o que era bonito. — A casa da encosta? Há muito tempo nós não vimos aqui.

Seus olhos de piscina encaixaram no céu aberto por instantes que destruíram as escassas nuvens do firmamento. Olhou reluzente para meus seios, depois par meu rosto. Riu.

-É. A encosta é sempre linda. Mas… — Desceu a escada da varanda trajando um short de tactel — Não vamos nos tornar encostos dessa casa velha. Venha, vamos antes que escureça.

28 de janeiro.

-Vinícius?

-Sim. — A voz surgia da sala. -.

-Onde está a roupa de banho que usastes hoje?

-Roupa de banho? — A voz duvidava, mas parecia estar lendo ou fazendo outra atividade. — Não lembro querida. Você ficou um tempo falando com os Tredhsons e eu fiquei na margem. Foi só isso depois que banhamos.

-Ah… — Sentei tateando meus óculos, pus na cara. — Vou fazer a janta.

29 de janeiro.

-Sente?

-O que?

-A chuva. Tá gelada — Os dedos escorregavam para fora da janela. -.

-Ela sempre está, querido.

-Não, hoje ela está… Bonita.

-Bonita? — Folheei o livro mofado que achei no porão. — Não ficaremos aqui para sempre.

Como pedra forte, crucifiquei nossas atenções nas lareiras da nossa inconstância. Reclinei-me na poltrona. Girou os dedos e arfou no sofá do outro lado.

-Vai dormir?

-Não querida. Porque não vem deitar comigo? — A charmosa e trapaceira sonoridade das suas cordas me amarravam; como eu havia sido estuprada e, agora, estava sendo levada para ser jogado ao mato, deixada ao relento. -.

Deitei na sua frente, seus braços apertaram meus seios contra mim, sua barba bem nova coçava minha nuca e me deixava em êxtase.

-Querida.

-Sim?

-Quando você ri. — O calor do peito nu me aproximou. — O mundo ri com você.

1 de fevereiro. Mais tarde.

O celular não é atendido. Ninguém me atende quando a alma pende, secretamente, ligo desesperadas pontas que nunca existiram. Mas. No momento ligo para Vinícius.

-Alô? Querida? Quando você volta?

-Sobre isso. Só poderei voltar dia dois de fevereiro. Pela noite, Carl irá me deixar ai na encosta. Tudo bem? — Silêncio. Quebrado por uma voz manhosa. -.

-Sem problemas, meu amor. Vamos convidar Carl para jantar. — A voz empolgada. Filho da puta. -.

-Sim meu amor. Ele manda lembranças. Beijos.

2 de fevereiro. Mais cedo.

Uma música animada — e tímida –, com metais em excesso, vinha da casa. Típico de seus CD’s favoritos, vinis na verdade. Balançava o sereno ao som de… Louis Prima;

When you’re smilin’… Keep on smilin’.

The whole world, smiles with you.

Entrei pela casa. Vazia a sala, uma voz frenética gritava do quarto. Mas o grito era de dor e prazer.

And when you’re laughin’… Keep on laughin’.

The sun comes shinin’ through.

-Oh! Oh! Como você é ótimo! Sim! Sim! — A voz feminina gritava do quarto, exalava seu desespero por mais. Andei até a cozinha, abri o armário de armas.

-Sentiu saudades de mim? Teve alguém melhor? — A voz de Vinícius era escabrosamente tentadora, era pesada e atrevida. — Hein?

-Impossível! Como fiquei tanto tempo sem? Mais! Mais! — A feminina voz delirava em seus espasmos demoníacos, sua súplica era cabal. -.

But when you’re cryin’… You bring on the rain.

So stop your frownin’… Be happy again.

O barulho da porta quebra o lugar. Os dois, atracados nos lençóis onde outrora eu estivera. Estava agora a primeira ninfa, que de nada tinha culpa. Aquele filho da puta tinha toda a culpa.

Cause when you’re smilin’… Keep on smilin’.

The whole world smiles with you.

-Querida? — O espanto foi tanto que caiu ao lado dela. Que se encolhia amedrontada. — Você não… Ei! Espera! O que é isso? Não! Não seja louca! Vamos conver-

-Você partiu meu coração pela última vez.

Gatilho soa. Bala destoa. Rebola o ar. A segunda bala se revela. Desdobra o ar. Escorre na cama, o líquido viçoso, brilhante reluzia com a lua que testemunhava os amantes indo estar eternamente juntos. Manchada da cor do pecado, manchei-me mais ainda dela.

Sento-me, colocando a cabeça fria e morta dele em meu colo.

-Sabe o que é bonito, Darling? Seu sangue. Uma cor carmesim tão bonita.

A dançante música de cabaré seguiu em um solo preciosíssimo.

Na bomboniere da sala peguei um chiclete. Estava manchada agora do crepúsculo poente da encosta. Acho que vou à varanda.