O Cometa
“A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido.”
Eu nunca ligara muito para incríveis terrores vindos do espaço ou de como nossa vida é curta na qualidade de saber até que ponto nós estamos atrelados ao chão. Eu estava vendo um desenho de piadas “inteligentes” e ar “pesado” quando começou. Os relatos que me contariam depois da área da Depressão seriam incríveis, mas eu mesmo relutaria muito em chegar perto daquilo.
Não soube de imediato o que era ou o que pensar, só sei que foi quando o programa estava mais engraçado e percebi pela janela do quarto que um clarão invadia o céu, percorrendo toda uma extensão arqueada, e por fim se depositando à uns quilômetros da minha casa. As luzes da minha casa tremularam de forma quase imperceptível, meu corpo também sentiu um leve tremor, mas eu não liguei muito porque pensei que o clarão fosse algum poste de luz ali perto que tinha dado curto-circuito na instalação.
Eu ouvi a minha mãe gritando pelo meu nome, nada de desespero, era apenas um grito de “Fulano! Tu viste isso?”. Eu desci correndo porque em casa temos esse hábito suburbano maravilhoso de sermos especificamente bem curiosos, creio que isso não é de todos que moram li, mas da maioria é sem dúvida.
Eu cheguei embaixo e a minha mãe, com as mãos trêmulas, tentava ligar no noticiário. Sem muito sucesso, apertava os botões do controle remoto às pressas, o clarão parecia algo sério, mas que por hora eu me recusava a acreditar que era algo real, sabia que não era apenas um poste de luz com problemas.
Não aguentei mais aquela enrolação e tomei o controle da mão dela e liguei a TV, com mais alguns botões, localizei o noticiário que havia sido interrompido para um aviso repentino. A manchete era de que possivelmente um gerador de uma fábrica havia explodido e expelido alguns pedaços de aço e metal pelos ares, e recomendava que os cidadãos se escondessem tomando as devidas precauções para não serem atingidos por nada.
Achei bem estranho, sim, mas estranho foi que eu juro — até hoje — ter visto algo descer em forma de arco dos céus, e de relance, vi também o clarão se depositar calmamente, sem muito alarde, ou possível barulho que um gerador faria ao explodir ou qualquer coisa do tipo. Sem muito mais atenção, minha mãe ainda tagarelava com fluência sobre querer ir lá, ou para eu chamar meu pai. Fiz, mas subi para meu quarto.
Eu não estava muito a fim de ir fuxicar o que havia acontecido com uma merda de fábrica de cimento, e com uma merda de gerador. Esqueci-me de contar, mas minutos antes do clarão cair, senti uma leve pontada nas fontes, uma dor de cabeça bem leve, mas que, precedida de um clarão, tornava-se particularmente estranha.
Meus pais mais tarde contaram que isolaram todo o local. Quer dizer, um raio de vinte quilômetros; ninguém entrava, ninguém saía. Isso gerou uma confusão no dia seguinte, uma das brabas.
As pessoas ficavam alvoroçadas com tudo aquilo. Lembro bem e não tenho — mais — medo de relatar, que algumas pessoas chegavam a pisotear as outras para quererem entrar na área que estava sob contenção e isolamento militar. Era algo meio sanguinário, vi uma mulher esmagar o braço de uma criança de uns dez anos, pisotear mesmo com força e, o mais incrível, as pessoas envolta nem notaram a menina gritando, estavam compenetrados em seus gritos de “não escondam nada de nós!”, “o que está acontecendo?” e “tenho familiares lá! Vocês não podem nos separar de nossos amigos e familiares!”.
As coisas eram bem bizarras, mas eu nem conseguia me mover muito por as pessoas realmente estarem empurrando muito, como uma onda frenética que ora recuava e ora investia contra a parede apática de soldados do exército. Mais tarde naquele dia, a televisão noticiava que algumas pessoas acampavam ali perto, ou em frente à barreira mesmo. Era possível ver alguns corpos ensanguentados pelo chão, mas de alguma forma, ninguém notava ou ligava se alguns haviam sido esmagados pela euforia da multidão.
Sentia que as coisas estavam ficando mais fora do normal. Na minha casa só havia luz durante a tarde, das uma às exatamente seis horas. Fora isso, a luz ia embora e sempre na mesma sequência, primeiro as luzes da sala, depois as da cozinha, finalizando nas dos quartos e banheiros. Os muitos eventos que sucederam em minha casa foram aos poucos tomando proporções mais estranhas.
Certo dia — acho que era duas ou uma semana depois de aparecer a Depressão — as paredes da minha casa começaram a ter um problema gravíssimo de infiltração, as paredes, logo pela manhã quando eu ou meu pai saíamos à escola, estavam manchadas com caminhos escuros que sempre convergiam para o banheiro. Uma noite dessas, varando a madrugada no computador, saí para urinar e antes de entrar no banheiro senti uma dor de barriga absurda, seguido de uma movimentação na cortina de dentro do Box do chuveiro.
Eu entrei rapidamente lá, pensando que era um ladrão ou algo, mas não havia nada, a não ser as paredes totalmente infiltradas, e uma poça de água escura no teto que pingava algo que não sei definir se era líquido ou pastoso, parecia bem intermediário. Eu achei bem bizarro aquela poça gotejando em um ritmo torturante, mas deixei de lado. Em dois dias ela sumiu, dando espaço a eventos mais esquisitos, agora fora de casa.
Algumas pessoas da escola, depois do clarão e da Depressão, que deve ter ficado isolado por um mês ou dois — disso tenho pouca certeza –, começaram a exibir um comportamento esquisito: sempre que o intervalo chegava, algumas simplesmente ficavam paradas na direção oeste — que é (ou era) a direção a qual a Depressão ficava. Em seguida, desenhavam um círculo à sua frente, circunscrevendo um ponto no meio.
Os professores acharam esquisito quando um grupo considerável de alunos realizava o mesmo ritual. Até um dia que uma aluna parecera acordar do transe do ritual, e iniciar vários gritos e berros de horror, segurava as mãos no rosto como se houvesse visto a mais horrenda criatura. Vomitava todo o seu lanche, café e incrivelmente: bolas de aço. Pequenas bolas de aço saíam no meio do vômito. A aluna foi afastada da escola, não soube mais dela, mas os eventos prosseguiram com mais alunos vomitando, gritando e berrando.
A cidade, contudo, não se surpreendeu com os fatos da escola, ou até a situação do supermercado que ficava em uma esquina próxima à área isolada. Alguns dias da semana –não lembro quais — alguns produtos da loja apodreciam repentinamente, e em questão de minutos eles sumiam. Mesmo que você ficasse observando o processo.
Fui lá dois dias antes de fecharem de vez o supermercado e testemunhei um pedaço de carne, quinze na verdade, começarem a ficar esverdeados, seguindo de vários bolores surgindo em velocidade incrível. Se a carne não sumisse — sim, sumisse, começasse a diminuir de tamanho até desaparecer — alguém vinha e comprava a carne. Eu, pasmo, olhava aquelas pessoas comprando a carne toda suja e bolorenta. Outras cumprimentavam os caixas com uma alegria insana por ter comprado aquela carne em específico, uns abriam a carne ali mesmo e faziam questão de passar a língua onde estivesse mais sujo, mais esverdeado, onde estivesse mais escorrendo uma massa branca pútrida.
Respiravam aliviados. Até tentei alertar uma senhora do estado da carne, mas ela me disse com os lábios trêmulos, e apertando com as mãos magrelas o meu ombro que essa carne era divina, que eu precisava provar qualquer dia. Óbvio que não provei.
Até o dia da claridão, foi o dia mais desesperador para mim. Eu estava na sessão de detergentes e coisas assim; minha mãe havia pedido que eu comprasse alguns itens de limpeza, e muito rapidamente minha visão embranqueceu, eu não podia ver nada, a não ser tudo branco. Algumas pessoas pareciam ter sentido o mesmo e começaram a gritar, outras batiam nas prateleiras ferindo a cabeça. Um homem ficou cego ao correr desesperado contra uma estante de faqueiros e umas facas voarem em seu rosto, acertando abaixo do olho, mas o cegando.
A cidade se soubesse o que aconteceria depois, comemoraria o fato de o dia da claridão não ter se finalizado no mesmo dia em que começara. Eu tive muita dificuldade em sair dali — do supermercado –, eu atingi a porta com muito sacrifício e tive a impressão em ter pisado em algo pastoso e mole, talvez fosse algo que tinham derrubado ali. Porém as coisas foram ficando pior quando começaram a gritar e correr pelo local, mesmo todos estando cegos ali. Eu abaixei a ponta do dedo pra pegar no que eu havia esmagado e parecia sangue, tinha aquele cheiro metálico.
Mais gritos e correrias sucederam até a policial chegar, conter todos e iniciar as investigações. Assim que eu pisei fora do supermercado eu senti como se alguém houvesse pressionando meus olhos com o polegar e agora estava soltando: a visão foi ganhando todas as suas tonalidades de volta, e não só o branco. A essa altura, eu estava só com metade das coisas que minha mãe havia me mandado comprar.
Sem muita cerimonia, eu comecei a ir embora e passar perto da grande Depressão onde mais pessoas faziam oferendas ao local, não era algo como se estivessem rogando pelas pessoas que morreram, mas estavam rogando como se o evento fosse um Deus, ou agisse como um. Acima do supermercado eu notei que algumas nuvens roxas se reuniam e dançavam movimentos indescritíveis: sem rodopios, e sem giros.
Depois de algumas semanas, minha mãe me dissera — se me lembro muito bem — que alguns helicópteros começavam a se agrupar acima da Depressão. Uns homens todos de branco, com máscaras de oxigênio, isolavam o local de vez. E isso provocou, sem dúvida alguma, reações bem adversas.
Algumas pessoas começavam a se tornar muito agressivas, principalmente as que moravam ali perto, e especialmente as que idolatravam a Depressão. Uma mulher insistia em gritar de cima de sua casa que a Depressão houvera trazido claridade ao mundo, que ela carregava consigo A Mensagem, que carregava consigo a nossa redenção.
Pasmem, muitas e muitas pessoas passaram a acreditar fielmente, e quando a Depressão começara a ser isolada mais fortemente, essas mesmas pessoas começavam a ficar insanas, atentavam com facas e pedras, mas sendo contidas pelo exército. O estopim foi quando duas pessoas morreram: um soldado, e um fiel da Depressão — tomei a liberdade de classificá-los assim.
O fiel morreu quando um soldado atirou nele, que atirou pelo fiel ter lhe fincado uma faca na garganta aos brados de “Você não pode nos separar da mensagem! A nossa salvação chegou!”, faca na garganta. Dedo no gatilho. Bala no peito. E assim foi um grande e tremendo alvoroço o qual assisti de camarote do apartamento de um colega.
Ele queria evitar ficar perto daquele local, e eu até entendo o motivo. Desde quando ele tocou em algo que saía de dentro da Depressão, algo como um pequeno pássaro laranja, segundo sua descrição; a qual o mesmo duvidava. Ele adquiriu uma mancha avermelhada e áspera ao lado do pescoço, ela doía à noite, e esquentava muito pela manhã, chegou a ir ao médico, mas o mesmo não conseguiu diagnosticar a mancha.
Se servir de fato, meu colega recebera a notícia tempos depois de que o médico houvera se suicidado com duas cordas de piano. Amarrara no teto, envolvera o pescoço e pronto. Tínhamos um alergista enforcado na sua sala com duas cordas de piano, isso provocou espanto, claro, meu colega ficara atormentado com a cômica possibilidade de sua mancha ter matado o seu médico. Incrível mais ainda é ele pensar o porque de sua mancha teria matado ele.
A realidade é que quando avistávamos, dois dias depois, uma fumaça roxa sair lentamente da Depressão, o meu amigo teve uma convulsão um pouco forte. Suas mãos se retorciam e os olhos giravam freneticamente nas órbitas. Seu corpo parecia querer expelir um verme ou parasita pela forma que se arqueava para cima. Balbuciava palavras indecifráveis, aquele idioma não era o nosso, e nenhum na terra, a entonação da voz também havia assumido outra forma.
O alvoroço da crise do meu amigo perdurou quase uma semana, depois de vários exames e sem muitas soluções e diagnósticos, ele me chamou em sua casa. Parecia muito atormentado e dizia que o pássaro laranja havia lhe deixado uma mensagem, a de que ele, incluindo eu, deveríamos ir até a Depressão, éramos escolhidos da Mensagem. Óbvio que isso era apenas um delírio do meu pobre companheiro de muito tempo, mas deixei que falasse.
Tentou por dois dias me convencer. Seus olhos agora estavam fundos, com olheiras negras, e o corpo parecia mais magro do que antes. Sucedeu então, que um dia estávamos passando a duas quadras da área isolada pelos militares, e ele foi me arrastando com muita ladainha até um ponto da Depressão que eu nunca havia visto; nem no noticiário, nem nas vezes que cheguei perto do grande buraco que já estava ali há quase um mês.
O local era uma farmácia antiga da cidade que havia sido desativada, ela estava exatamente de costas à Depressão, e quando chegamos ao final dela, a porta dos fundos dava acesso a um caminho subterrâneo pela Depressão. Quando exatamente pisamos na área do incidente tivemos uma reação terrível: vomitamos por alguns minutos, depois de recompostos. Continuamos.
Eu não sentia mais vontade de voltar, algo me puxava para dentro daquele local, como um vórtice girando na água e arrastando para si todas as vidas. Caminhamos e sentimos que a temperatura mudava ao longo do nosso caminho, onde minha memória sensitiva alcança, recordo-me de sairmos de um calor infernal, dois passos à frente, um frio glacial. As sensações visuais, olfativas e auditivas também mudavam grotescamente. Em algumas situações eu pensei estar fumando maconha, ou usando LSD.
As alucinações não foram fortes o suficiente para nos fazer parar. Alguma coisa nos chamava, e eu sentia por começar a ver um pássaro laranja falando na Língua dos Homens. A sua mensagem era muito clara, ele falava de sentimentos esquisitos e fontes de energia. Eu não entendia muito bem, mas a minha cidade abriga — ou abrigava — três fontes de energia nuclear, e não sei até hoje se isso tem muito a ver.
Andamos mais e passamos por alguns corredores alucinógenos com muitas pessoas da cidade grudada nas paredes cantando levemente uma música em língua esquisita, e todos recheavam as suas faces com uma expressão que as palavras aqui transcritas, não são capazes de abarcar.
Antes de sairmos do túnel o qual havíamos embarcado, um homem barbudo e com os olhos em chama direcionou sua mão a mim e me entregou um gravador. Eu sabia exatamente o que deveria ser feito, mas isso de alguma forma roía e batucava os meus neurônios. Eu sentia uma angústia, a mesma de que sabe do seu destino, mas também sabe que é inevitável.
O que segue aqui são os meus últimos registros que fiz no gravador que o homem barbudo me oferecera, e eu sei que a Depressão queria exatamente que eu fizesse isso. São os últimos que você terá notícia. Não sabemos o que aconteceu, e até hoje o governo não nos disse nada, e nem pretende revelar nada. Tudo dito aqui precisa ser encontrado por pessoas comuns, e ainda não conectadas com a Mensagem.
00h00min ~ 00h05min
Chegamos a uma sala esverdeada, tem várias cadeiras e muitos gases são expelidos. Não sei exatamente o que é isso, mas posso dizer que parece mais um pátio. Eu mesmo não creio que isso estivesse aqui antes do Cometa cair e a Depressão se estabelecer, contudo, tenho a impressão de que estamos sendo vigiados.
00h00min ~ 00h20min
Meu amigo parece estar um pouco abatido, ele emagreceu muito e parece que a qualquer hora vai vomitar suas tripas. Tentamos atravessar uma gosma que se espalhava por um corredor, mas não conseguimos, quando tocamos na mesma ela pareceu emitir murmúrios e gemidos. Minha visão começa a ficar turva e sonolenta, e ainda sinto algo me impelindo a continuar.
00h00min ~ 00h46min
Sobrepujamos uma coluna de pessoas que adoravam uma estátua medonha, assemelhava-se a algo como um touro com corpo de águia, agora penso se não sei se é isso mesmo. Mas a única comparação que consigo achar é essa. Sinto que estamos chegando perto da Mensagem, minhas têmporas doem muito, e meu amigo reclamou veemente que a Rua estava chegando, que a Rua nos receberia.
00h00min ~01h00min
Temo que esta seja a última vez que eu vá falar. Chegamos em um lugar incrível, fascinante e maravilhoso, todos que habitavam antes do cometa cair, estão prostrados adorando uma coluna cheia de pedaços de seres humanos. Uma montanha humana a qual todos dedicam murmúrios que tem uma sonoridade fora do nosso mundo, e uma língua que agride a minha sanidade. No topo, não consigo ver, mas tem algo. Algo que me chama, e não posso mais falar. Desligo aqui, e espero que um dia a Mensagem lhe atinja também.