Qual a jornada de um blogueiro?

É clichê, mas vamos lá: as mídias sociais digitais permitem que nós, anônimos, tenhamos voz. O autor Clay Shirky, por exemplo, acredita que vivemos na era da participação em que amadores e produtores ocupam os mesmos lugares e ninguém precisa pedir permissão para dizer alguma coisa.
Mas como um internauta comum se torna um blogueiro, um influenciador? Qual a sua jornada? Como os influenciadores, blogueiros, produtores de conteúdo alcançam esse status em um ambiente, teoricamente, de igualdade e horizontalidade? Por que eles e não eu e você!?
O segredo está na reputação.
Diversos autores da Comunicação estudam a construção de reputação no ambiente digital, mas há um autor “clássico” que gosto de usar para refletir sobre o assunto. Se você já ouviu um desses termos; capital social, capital cultural ou capital simbólico, saiba que já tem alguma familiaridade com os conceitos do sociólogo francês, Pierre Bourdieu.
Você lê um blog porque confia nele. As grandes blogueiras de moda do Brasil construíram seus impérios midiáticos por conta de um grupo de leitores fieis. Essa confiança e lealdade está ligada diretamente à legitimação dos blogs, legitimação geralmente outorgada pelos pares sociais, proveniente de reconhecimento e consagração.
E esse reconhecimento vem de uma tríade dos capitais social, cultural e econômico que geram o capital simbólico. O pesquisador italiano Marco Pedroni identificou, na blogosfera de moda italiana, os capitais de Bourdieu. Muito do que o autor encontrou lá, pode ser aplicado à blogosfera daqui (e não apenas de moda!). Vejamos:
Capital cultural é acumulado pela educação formal e por aquilo que as blogueiras de moda aprendem sozinhas. Um blogueiro de literatura pode ser alguém formado em Letras ou um leitor voraz. Nos dois casos ele detêm capital cultural, ou seja, ele pode produzir um conteúdo que agregue conhecimento, valor social para a rede. Ele tem um conhecimento que eu, seu leitor, procuro.
Capital social fortalece o poder de alguém em um determinado campo e tem a ver com os relacionamentos com o grupo social (com os leitores, por exemplo). Uma blogueira de moda que responde aos comentários de seus leitores consegue criar legitimidade e prestígio no ambiente digital mais rápido que a outra que é apenas um canal emissor de mensagens.
Eu acrescentaria [eu não, a minha tese de doutorado] outro tópico ao capital social, além do que Pedroni coloca. A proximidade, o “ser amigo” também é importante para construir reputação na rede. Você está lendo um blog e não uma revista especializada e, por isso, espera um tipo de conteúdo e um tipo de linguagem. Quando há proximidade, baseada na escrita íntima, no uso da primeira pessoa e na pessoalidade, há confiança, credibilidade e legitimação no ambiente digital.
Capital econômico está no fato do blogueiro conseguir se sustentar com o blog ou não. Isso também é um símbolo de prestígio que ajuda a construir reputação e prestígio na rede. Minha pesquisa de doutorado coloca em xeque essa noção de capital econômico… Pelo menos aqui no Brasil, há muitos blogueiros influentes em seus nichos que não se sustentam com os ganhos do blog, que não são blogueiros em tempo integral… Talvez capital econômico não seja um diferencial no ambiente digital em que, teoricamente, há relações mais horizontais. Ao mesmo tempo, algumas das principais blogueiras de moda do país construíram reputação e distinção na rede por conta de seus closets recheados de marcas caras. [A se pensar…]
Quando um blogueiro consegue reunir esses capitais ele cria um meta-capital que é o simbólico. É aí que está a legitimação, a distinção, o prestígio, segundo a teoria de Bourdieu.
Sugiro um exercício: pense nos blogueiros que você acompanha e veja quais são os capitais que ele reúne. Mas, nesse primeiro momento, pense apenas nos blogueiros temáticos — aqueles que fazem parte de nichos ligados ao entretenimento: games, viagens, casamento, literatura, moda, etc. Esse esquema de capitais influencia na reputação que ele tem em rede?
E se quiser me ouvir falando exatamente sobre esse assunto, basta acessar esse vídeo aqui e assistir minha palestra sobre Profissionalização dos blogs de moda no Brasil, no II Encontro de Pesquisa do COM+.
Até o próximo texto!
Me conte o que achou do texto e clique no ❤ para ele rodar o mundo. Não sabe da minha pesquisa na USP? Então conheça minha história, aqui.