
O dia de Júlia
Todos nós temos nossa rotina, as ações do cotidiano. Alguns tentam se livrar delas, outras as aceitam com resignação.
Assim era Júlia. Todos os dias acordava as cinco da manhã, tomava seu café preto com pão e geleia de morango (hábito herdado de sua mãe), tomava seu banho e, quase sempre na correria, descia a escadaria de seu apartamento que dava direto para a uma portinha discreta bem ao lado da Padaria Sucesso, na avenida Campos Sales. Caminhando apressada, olhando para o relógio, chegava ofegante ao ponto de ônibus, e esperava pouco até chegar sua condução. Seu trabalho não era longe, dava para ir a pé, mas preferia ir de ônibus para ganhar alguns minutos de leitura fantástica antes de bater o ponto.

Era uma pessoa bastante organizada, e nos seus afazeres profissionais era impecável. Assim que terminava de ler o mais novo lançamento de literatura fantástica, procurava entre o amontoado de papéis, que surgiam todas as manhãs em sua mesa, quais eram as correspondências mais importantes para que pudesse lhes dar prioridade.
Cumpria seus afazeres, sempre com muita atenção, e ao meio dia em ponto, corria para um restaurantezinho, onde fazia uma refeição rápida e saudável, sempre com muito verde, salada era seu forte. Ela se considerava quase uma vegetariana. Quase… por que assim que sentia o cheiro da carne assada que sua mãe preparava nas poucas vezes que podia ir visitá-la, não resistia, e repetia pelo menos uma vez.
Júlia, ao terminar sua refeição, retornava quase imediatamente para seu posto de assistente na empresa de contabilidade, não gostava de perder muito tempo conversando trivialidades com seus colegas que permaneciam sentados a mesa jogando papo fora após as refeições. Ela preferia chegar logo e adiantar todo o trabalho da tarde, pois sabia que esse turno costumava ser sempre mais lotado. Porém, ela considerava que por se concentrar mais no trabalho no período vespertino, o tempo corria muito mais rápido, por isso trabalhava incansável indefectivelmente até as dezessete horas. Aí então batia seu ponto e voltava para casa.
Naquele dia no entanto, Júlia estava ansiosa para terminar seu trabalho, pois não seguiria sua rotina. Naquele dia, iria se encontrar com um rapaz, Manoel. Com quem já namorava faziam três meses. Ele a convidara na semana anterior para assistir uma apresentação de teatro no Clube dos Diários, no qual todas as quartas-feiras se apresentavam algum grupo de teatro local. Como os dois gostavam muito de leitura e sentiam uma empatia muito grande com peças teatrais, viam naquele momento uma oportunidade de esquecer suas obrigações e se conhecerem melhor.

Júlia correu para a o ponto de ônibus, com a pressa típica de quem não quer se atrasar pra encontrar alguém especial, mas mal acabara de cruzar as duas largas pista da Avenida Frei Serafim e o ônibus da linha 556 já estava arrancando, gritou para um homem de paletó que aguardava na parada, pedindo que ele detivesse a saída da condução, mas ele nada fez, ignorando-a, virou-se e foi em bora. Júlia esperou e tomou a próxima condução, que passou cerca de cinco minutos depois, e em pouco tempo alcançou seu destino, desceu quase correndo, ansiosa pra chegar logo ao seu destino, andou um quarteirão e virou a direita na Rua Álvaro Mendes, ao longe avistou Manoel e acenou com uma das mãos, mantendo na outra um calhamaço de arquivos que costumava levar para casa para organizar durante a noite. Ele a avistou e retribuiu o aceno com um largo sorriso e começou a vir em sua direção.

Gritos surgiram de uma papelaria a sua direita, do outro lado da rua, e de repente Júlia sentiu um impacto em sua nuca, o que a fez desabar na calçada espalhando o amontoado de prospectos financeiros pelo chão. Ela, com a face fitando a copa das árvores tentou virar a cabeça para acompanhar os gritos, mas nada aconteceu. A luz, que as cinco e pouco ainda é forte, começou a se apagar por entre as folhas da alta Aroeira, e um frio devastador tomou conta de seu corpo. Júlia ouviu a voz de Manoel a chamar seu nome, o som era como o de gritos distantes, porém seu rosto logo se projetou logo acima dela e mesmo assim sua voz parecia sumir.

Não foi preciso muito para Júlia entender o que estava acontecendo, quando viu os olhos incrédulos e a boca sem voz de Manoel, percebeu que sua rotina acabara definitivamente.
Poucos minutos após um homem sair correndo de dentro da papelaria, sob uma saraivada de balas, o corpo de Júlia jazia sob uma cama de papéis brancos com a cabeça coroada por uma auréola rubra, e ao seu redor, transeuntes a velavam em seu leito sólido.