As mulheres já possuem direitos iguais.

Senta aqui, vamos conversar.

Pense numa situação em que você foi ensinado a ver as coisas de uma maneira fixa. Esse exercício é bem difícil, na verdade, porque todo conceito fixo para nós hoje o é dessa maneira porque não quebramos um paradigma, sendo muito mais fácil olhar para o passado para ver paradigmas quebrados.

Mas tentemos, juntas, pensar num exemplo: Hoje ainda a maioria das pessoas crê que o gênero (feminino ou masculino) é algo intrinsecamente ligado aos nossos genitais, isto é, se você nasceu com pênis é homem e se você nasceu com vagina é mulher e pronto.

Imagine agora que uma lei estabelecendo a total liberdade de identidade de gênero seja aprovada hoje. A partir de exatamente amanhã todas as pessoas que nasceram com pênis e se identificam como mulheres deverão ser chamadas pelo nome feminino e suas alterações de documentos e transformações físicas serão responsabilidade do Estado pois esse direito acaba de ser garantido e reconhecido. O mesmo para quem nasceu com vagina e se identifica como homem.

Você realmente acha que toda a parte da população que não acredita nesse processo das pessoas trans vai, a partir exatamente de amanhã, tratá-las como elas deveriam ser tratadas nesse novo ‘estado de direito’? No caso, além de respeitar nomes (o que já seria difícil), deveriam considerá-las para vagas no mercado de trabalho formal, incluí-las no espaço coletivo, promover sua inclusão educacional, enfim diversas medidas que possam inserir essas pessoas em situações consideradas comuns pela sociedade.

Permita-me reformular até: Você realmente acredita que após toda a nossa história em sociedade ocidental com mais de 3.000 anos e, mais especificamente, a brasileira com mais de 500 anos de formação com papéis definidos de gênero, sem nenhuma informação ou mesmo ensino com uma ótica diferente da que está sendo reproduzida sobre o que são as pessoas trans (até você que pode estar lendo e não concordar com o direito à identidade desse grupo de pessoas), você acha que baixando uma lei sobre isso toda a vivência dessa pessoa trans será exatamente como a lei manda?

Você diria com 100% de certeza que não haverá funcionários do cartório se recusando a trocar o nome dessas pessoas trans, outras se recusando a chamá-las pelo novo nome, outras ainda se recusando a contratá-las (ainda que isso não apareça como requisito eliminatório no anúncio da vaga), ou ainda pessoas que simplesmente considerar imoral, um pecado, uma afronta a existência dessas pessoas e a livre participação dessas nos meios familiares?

Um minuto de reflexão para você.

Agora, você acredita que após milhares de anos de formação da civilização ocidental baseada no pressuposto de que mulheres nasceram para serem mães, para cuidar da outras pessoas, que são seres emocionais de intelecto inferior para o estudo, mas sim direcionado para família, que não foram feitas para trabalhar (fora de casa, porque trabalho doméstico também é trabalho, mas você entendeu), que não possuíam cérebro o suficiente para elaborar planos financeiros, políticos ou científicos, que depois de toda essa construção paulatina ao longo de mais de 3.000 anos de formação e consolidação de papéis definidos para homens e mulheres isso tudo acabaria no ato de aprovação do direito ao trabalho? Ou ainda no ato de aprovação do direito ao voto? Ou ainda no ato de aprovação do direito ao divórcio? Ou ainda no ato de aprovação do direito de denunciar estupro marital (sim, porque até determinada época não era considerado crime estuprar a esposa)?

Você diria com 100% de certeza que não há ninguém hoje em dia que acredite que as mulheres complementam os homens pois possuem naturalmente mais talento para funções domésticas, que ninguém duvidará da capacidade motora das mulheres para dirigir, que nenhuma pessoa pensa que mulheres são naturalmente melhores em humanas e homens melhores em exatas, que não existem pessoas que acreditem que ser mulher é um empecilho para determinadas áreas de trabalho, que não há a menor possibilidade de alguém hoje, em 2015, dizer que mulheres são complicadas demais e os homens simples e objetivos?

Todas as leis citadas acima possuem menos de 100 anos no Brasil. Todos os exemplos do parágrafo logo depois, dos quais eu tenho certeza que você não conseguiria afirmar com 100% de certeza que não existem, são resquícios de uma socialização patriarcal e sexista.

São três mil anos de formação da sociedade no formato patriarcal contra cem anos de leis emancipatórias. Pense nisso antes de dizer que não há nada mais para mudar.

Mas hey, “as mulheres já possuem direitos iguais”…


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