Memórias redescobertas

10 de março de 1982. Mais um capítulo da reprise da novela Pecado Capital chegava ao fim naquele final de noite na Rede Globo. Em seguida, com oferecimento do antigo Banespa, entrava no ar a segunda edição do Jornal Nacional, que ocupava o espaço do atual Jornal da Globo. A primeira manchete lida pelo apresentador Marcos Hummel diz que o presidente João Figueiredo chega ao Rio Grande do Sul naquela noite para visitar cidades do interior do Estado. Mais informações com o repórter Geraldo Canali, da TV Gaúcha (hoje RBS TV).

Não fosse o jornalista Danilo Rodrigues, talvez a fita, com essas imagens e a notícia — irrelevante hoje, continuasse na gaveta. O paulistano de 28 anos mantém há uma década um canal no YouTube que resgata imagens antigas da televisão brasileira. Porém, o hobby começou bem antes, ainda na infância, quando Danilo observava seu pai manuseando o aparelho de videocassete. “Sempre botava uma ou duas fitas virgens no carrinho quando minha mãe ia ao supermercado”, relembra. O jornalista começou gravando programas infantis exibidos pela TV Cultura. Tempos depois, passou a gravar episódios do seriado Sai de Baixo — exibido pela Globo entre 1996 e 2001 no final das noites de domingo –, para ver no dia seguinte. Desde então, Rodrigues não parou mais de gravar. Hoje contabiliza mais de seis mil fitas videocassete e 10 mil DVDs em seu acervo.

O paulistano começou a postar suas gravações no YouTube para compartilhar vídeos raros com a comunidade Anti Vídeo Show, do Orkut, dedicada a buscar imagens que as emissoras de TV jamais seriam reprisadas. “Coisas que hoje são banais, mas que eram muito difíceis de achar na época”, afirma. Um de seus vídeos mais acessados foi a discussão entre o político Orestes Quércia (ex-governador de São Paulo que nesta época era candidato à presidente da República) e o jornalista Rui Xavier no programa Roda Viva, da TV Cultura, em 1994.

Após alguns anos de hobby, Rodrigues começou a buscar material de terceiros. “Passei a ‘caçar’ fitas caseiras em todos os lugares possíveis: dos bazares e sebos a famílias de amigos”, diz. No ano passado, o jornalista recebeu como doação mais de 5.000 fitas de uma senhora recém-falecida, cuja família não sabia o que fazer com o material. Ainda assim, ele se interessa apenas pelo conteúdo. “Eu detesto fitas. Não tenho nenhum apreço por elas como objeto”, diz. Para digitalizá-las, Rodrigues possui três gravadores de DVD de mesa e vários aparelhos de videocassete de segunda mão. “Videocassetes são muito baratos, pois muita gente os descarta”, afirma. Muitas das fitas que o jornalista compra ou troca tem gravações pessoais. “Já peguei mais de uma vez pornô caseiro”.

Outro colecionador de fitas com canal no YouTube é o analista de mídia Fabio Marckezini que começou sua coleção com um momento trágico para a história do país, a morte do piloto Ayrton Senna, ocorrida em 1º de maio de 1994. “Foi quando percebi a importância de registrar os momentos importantes de nossa história”, afirma o paulistano de 31 anos. Para Marckezini, o anúncio da morte de Senna, feito pelo jornalista Roberto Cabrini, é o momento mais raro que possui em seu acervo. “Nem a própria Globo exibe em suas retrospectivas ou especiais”, explica. Dias após a postagem do vídeo, o próprio Cabrini divulgou as imagens em seu perfil no Twitter.

Até o começo deste ano, o analista era mais um espectador dos canais do YouTube dedicados a resgatar a história da televisão brasileira. Em junho, começou a postar parte de seu acervo, que tem 300 fitas e quase 100 DVDs, mas muitas imagens ainda não estão no site. “São muitas horas e fitas para digitalizar”, conta. Marckezini estima que 80% de suas gravações sejam próprias e 20% venham de sebos, amigos e trocas com outros colecionadores. “Guardo as fitas com muito carinho, por mais que ocupem espaço”, ressalta.

No feriado de 7 de setembro de 2003, o Domingo Legal, apresentado por Gugu Liberato no SBT, exibiu uma entrevista com dois supostos integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa que aterrorizava a população de São Paulo na época. Encapuzados, os supostos integrantes fizeram ameaças ao vice-prefeito de São Paulo, Hélio Bicudo, e três apresentadores de programas policiais: José Luiz Datena, Marcelo Rezende e Oscar Roberto Godói.

A gravação jamais chegou ao YouTube, mas Marckezini tem uma raridade em seu acervo, a entrevista que Gugu Liberato deu à Hebe Camargo na semana seguinte. No vídeo, o apresentador pede desculpas pelo acontecido, mas continua sustentando que a entrevista era verídica. Dias depois, provou-se que tudo não passou de uma farsa.

Memórias desautorizadas

Um grande inimigo dos colecionadores é a política de direitos autorais do YouTube, visto que estão postando conteúdo de terceiros. Se o canal tiver três vídeos sinalizados com direitos autorais, ele é deletado. Uma das principais empresas que trabalham contra a disponibilização de seu conteúdo no site é a Globo, que tem um site próprio para preservação de sua história, o Memória Globo.

O primeiro canal de Rodrigues — o Danilorodrigues — foi deletado pelo site em 2012, após seis anos no ar e mais de cinco milhões de visualizações. O jornalista tinha um canal reserva, que passou a ser o principal. Hoje com 2,4 milhões de visualizações, o canal Pedro Janov ainda não bateu o recorde do canal anterior, cujo vídeo mais assistido era Atenção, Sandra!, que obteve mais de 1,5 milhão de visualizações. O vídeo mais visto do canal atual não chega nem perto em popularidade, é uma aula de defumação exibida pelo Globo Rural em 1992, com quase 190 mil visualizações.

Marckezini toma cuidado para não sofrer sanções do site. “Eu simplesmente edito a parte que tem restrições para que o vídeo fique no ar”. Mesmo assim, o analista lembra que sofreu uma sanção da Globo após postar o vídeo E se o Jornal Nacional fosse o Aqui Agora?, que foi removido.

Memórias apagadas

Muito do que foi produzido nos 66 anos de televisão brasileira acabou sendo perdido, por diversas razões. A história da televisão no Brasil é marcada por emissoras que encerraram suas atividades, como é o caso da pioneira Rede Tupi e da Rede Manchete. Boa parte do arquivo desta última se perdeu com a falência da emissora, em meados de 1999. Episódio semelhante ocorreu após o fechamento da Tupi, em 1980, quando parte de seu arquivo permaneceu armazenado durante alguns anos em um depósito de Cotia (SP), até ser transferido para a Cinemateca Brasileira, detentora das fitas até hoje.

Da antiga TV Excelsior, fechada no começo dos anos 70, restaram poucas imagens, espalhadas em várias emissoras. De emissoras regionais extintas há décadas como TV Continental, TV Paulista e TV Rio, pouco restou. Outro fator determinante para o desaparecimento de várias imagens foi a prática de reaproveitamento das fitas de videotape, adotada por quase todas as emissoras.

“Cedo ou tarde, o descaso que as emissoras tiveram com seus arquivos volta-se contra elas. Se mais material tivesse sido preservado, as próprias emissoras poderiam lucrar mais com reprises, lançamentos em DVD ou ainda nos portais de vídeo. Mas, como não preservaram, perderam a chance”, avalia Rodrigues. “O Brasil é um país sem memória, pois não temos a cultura que muitos países têm em preservar a memória e colocar tudo ao alcance do povo. Resgatar significa atingir as pessoas de vários modos: seja na memória afetiva, seja por trabalho ou por pura diversão”, completa Marckezini.

O analista de mídia observa a importância do resgate da memória. “Seja com fatos pessoais ou a programação de uma emissora de rádio e TV, esse resgate é importante porque vai além de entretenimento, é algo que ajuda na educação e no conhecimento de uma sociedade, que necessita observar seu passado para entender o presente e assim, melhorar o seu futuro”, analisa.

O escritor Nelson Rodrigues era taxativo ao dizer que a televisão matou a janela. De certa forma, isso realmente aconteceu, o show da vida real passou a ser traduzido em milhares de pedacinhos que formam a imagem na tela do televisor. O que poucos viam passou a ser observado por milhões de telespectadores. Mas, com o passar o tempo eles tendem a esquecer o que viram. E, se essas memórias não forem preservadas, elas seguirão o que diz o último diálogo do filme Blade Runner: “se perderão no tempo como lágrimas na chuva”.

Publicado originalmente no Editorial J em 18/10/2016.

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