Em 3 de agosto, a Abril ainda era a maior editora de revistas do Brasil. A Folha de S.Paulo continuava sendo dirigida por Otávio Frias Filho, como havia sido nos últimos 34 anos. Depois de ter completado seu bicentenário, o Museu Nacional resistia na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, aos cortes de verba e falta de manutenção.
Depois de um mês, a Abril demitiu 800 pessoas, entrou com um pedido de recuperação judicial e ainda não pagou os demitidos. Aos 61, Frias sucumbiu a um câncer no pâncreas. O museu incendiou e, em poucas horas, uma história de 200 anos foi perdida. Este não é um obituário, mas poderia sê-lo. Na crendice popular, agosto é o “mês do desgosto” — e com razão. Episódios marcantes e trágicos da história brasileira ocorreram em agosto — de cabeça, lembro de dois: o suicídio de Getúlio Vargas, em 1954; e a renúncia de Jânio Quadros, em 1961. Devem haver mais. Em 30 dias, o Brasil perdeu referências na história, na memória, no jornalismo, na dramaturgia e na música. Justamente no ano mais crucial para a democracia e para a cultura desde o final do regime militar. Acredito que a tragédia será retratada pelos historiadores como símbolo de um momento obscuro na história brasileira. O “Baile da Ilha Fiscal” do século 21.
Depois de ter lido “1808”, de Laurentino Gomes, não sosseguei até visitar o Museu Nacional em uma de minhas idas ao Rio. Queria conhecer o local onde se passaram muitas histórias de D. João VI e da família real. No livro, Gomes salientara que o museu tinha problemas de todo tipo, porém, isso não diminuiu meu entusiasmo.
O museu recém havia sido reaberto quando o conheci, no primeiro semestre de 2015. Parecia um patrimônio histórico esquecido propositalmente, como afirmara o autor. O calor carioca de 40ºC tornava o ambiente insuportável em São Cristóvão. As paredes exibiam reboco aparente e a fiação exposta se entrelaçava. Envelhecido, o piso estalava a cada passo dado. Mesmo naquelas condições, o conteúdo do passeio valia a pena: foi a primeira — e última — vez que pude ver coleções de borboleta, fósseis e Luzia, o fóssil humano mais antigo do país. Porém, senti falta da história imperial no palácio. Nem parecia que ali havia sido residência da família real durante todo o Império. Saí também um pouco preocupado com o destino daquela construção maltratada e, a cada notícia que lia sobre o assunto, pensava na situação semelhante que viviam e vivem alguns museus de Porto Alegre.
O presidente Michel Temer, em nota, classificou a perda como ‘incalculável’. O lamento soa demagógico e cínico, uma vez que o governo seguiu a política adotada pelo governo Dilma em não repassar as verbas necessárias para o funcionamento do museu. Em seus discursos e falas públicas, Temer gosta de ressaltar as mesóclises para impor uma pretensa superioridade intelectual e orgulha-se de suas poesias, mas não prestigiou o evento que celebrava os 200 anos do museu, completados em junho. Não que a responsabilidade do ocorrido seja apenas desse governo, pois o descaso do governo brasileiro com a memória é secular. Mas o Ministério da Cultura nada fez para evitar o desastre.
Apesar da marca importante, não havia muito o que comemorar no bicentenário. O incêndio era desastre anunciado, apenas sem data marcada. No ano em que a cultura é fuzilada pela perda de referências e pelos discursos histriônicos de alguns presidenciáveis, a tragédia do Museu Nacional representa o colapso do Brasil enquanto nação: incapaz de prover recursos para preservar sua história e cultura. Estamos quase caindo no precipício — mas nem por isso precisamos nos atirar na escuridão. Nem mesmo à bala.
