Urna de ódio

Fine 9
Fine 9
Sep 3, 2018 · 3 min read

Chegamos, talvez, no momento mais delicado da nossa recém-nascida democracia. Após décadas de repressão e luta, em um regime militar que matou milhares de inocentes, a democracia foi retomada na década de 80 e conquistamos uma Constituição popular que nos confere uma série de direitos. Alguns anos depois, entretanto, o povo brasileiro aparenta ter problemas de memória. Mas só aparenta. O brasileiro não tem problema memória, tem problema de compaixão. Aqueles que defendem o mais hostil dos candidatos (que chama o golpe de ’64 de “revolução”) ou são ignorantes ao extremo, ou não têm coração. Aquele-que-não-deve-ser-nomeado é notadamente racista, homofóbico e misógino; até uma pedra é capaz de perceber isso. Mas é por isso que não devemos tentar destruir sua imagem mostrando os inúmeros vídeos em que ele agride moralmente mulheres, indígenas, negros e homossexuais, afinal o eleitor deste sujeito é, também, um fascista em potencial e até admira as opiniões fortes do candidato. No entanto, além de desrespeitar as mulheres, os negros, os pobres, os indígenas e os homossexuais, votar neste cara significa desrespeitar o Brasil: com ele a economia não vai melhorar; não teremos mais empregos; não teremos mais saúde; não teremos mais educação; não teremos mais respeito; e pouco a pouco só teremos aquilo que ele pode oferecer: ódio.

Hoje mesmo ouvi uma das pessoas mais importantes da minha vida falando que votará neste sujeito. O argumento dele foi: “voto de repúdio”. De fato, de repúdio. Não à corrupção, não à política velha, não ao PT. Mas de repúdio a mim e a todos os homossexuais. De repúdio à minha mãe, à minha irmã, e a todas as mulheres. De repúdio aos negros. De repúdio à chance de ter um país melhor nos próximos 4 anos. Não vou negar que senti vontade de chorar. Passamos do ponto em que discutir política era apenas falar de engravatados em Brasília, pois falar deste sujeito é falar de um discurso que me afeta como ser humano. Talvez vocês heterossexuais que votam nesse cara nunca entendam o que é andar com medo na rua; o que é fingir ser algo que não é; o que é sofrer transtornos psicológicos intensos por causa de uma característica que não se pode mudar. E aí eu rememoro o início do texto quando disse que o problema do brasileiro é a compaixão. Talvez se vocês tivessem um mínimo desse sentimento, entenderiam o absurdo que é um cara desse aparecer em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto. Há um pouco de sadismo nisso tudo; vocês colocam a máscara do “Bolsonaro2018” para esconder o monstro que há por trás de vocês. Um monstro que não se preocupa com as minorias, com as mulheres e com o fato do Brasil ser o país que mais mata população LGBT no mundo. Mas também um monstro que não se preocupa com os desempregados, com a educação, com a saúde e com a economia.

Sei que temos vivido momentos difíceis, mas, definitivamente, não é tempo de nos apegarmos aos extremos. Se você quer um voto de repúdio, então anule-o, ou vote num dos candidatos que aparece na lanterninha das pesquisas eleitorais e pouca chance tem de expor suas propostas. Mas fato é que as urnas deste ano não merecem seu ódio, elas precisam de sensatez e calma.