A síndrome de Páris

Quando o prof. Olavo falou que aqui no Brasil acontecia um fenômeno peculiar, onde o detrator confessava, perante o adversário, sua inferioridade com ares de superioridade, lembrei-me da passagem da Ilíada onde mostra o covardão Páris, escondido, atacando Diomedes, aquele que somente de Aquiles perde na coragem, acertando-lhe somente o pé. O cômico da situação toda é que, perante seu fracasso de ferir mortalmente o inimigo, Páris se rejubila de alegria por ter acertado o pé do grande guerreiro.
O melhor é a resposta de Diomedes, onde, ao meu ver, expressa muito bem a psicologia do covarde e do incompetente arrogante, como os detratores do professor Olavo e de inúmeros outros intelectuais genuínos que por essas terras tentem semear bons frutos:
“Fútil frecheiro, de cachos frisados, espião de mulheres,
se atrevesses, armado, a lutar, frente a frente, comigo,
nenhum amparo acharias nesse arco e nas setas inúmeras.
Só por me haveres riscado no pé fazes tanto barulho,
ao que dou tanto valor como a tiro de criança ou de moça.
Vã, sempre, é a flecha que um ser desprezível e imbele dispara.
Bem diferente se dá com meus tiros que, embora de leve
o dardo atinja o inimigo, sem mais, da existência o despoja;
as róseas faces não cessa, na dor, de arranhar a consorte;
órfãos os filhos lhe ficam, e, o solo tingindo de sangue,
a apodrecer, tão só abutres atrai, não mais belas mulheres.”[1]
Perceba, ainda, que Páris, o arquétipo do covarde, usa a flecha como arma não por acaso: é que ela lhe dá a segurança da distância, como acusou acertadamente Diomedes. O detrator é aquele que lança as calúnias à distância, pois não tem coragem suficiente para as lançar de perto e, assim, revelar toda a sua inferioridade.
Nota:
[1] V. Homero, Ilíada, Canto XI.
