Crítica da cerveja pura

“ Beba por estar feliz, mas nunca por se sentir extremamente infeliz. ” — G.K. Chesterton


O homem é aquele ser viril que sempre está a espera de um desafio para poder dominá-lo e em seguida bater no peito e falar: “eu estive aqui”. Essa condição de desbravador de terras desconhecidas é intrínseco ontologicamente no masculino. E apesar de atualmente ser atacada pelo feminismo, produzindo coisas estranhas como o bizarro homem-feministo, essa natureza guerreira e aventureira do homem nunca será vencida por nenhuma engenharia social, o que implica, para suspiros femininos, que ainda teremos “cabras machos” até o fim dos tempos.

Dada essa pequena introdução, temos a seguinte questão: o cabra macho está em constante esforço para poder desbravar o mundo. E isso demanda muita energia vital, que vai consumi-lo física e psicologicamente, precisando, assim, de um pequeno descanso dessa tensão constante do ser viril. Os pequenos e bons prazeres da vida estão aí nesse mundão para nos dar aquele velho upgrade logo após essa energia vital entrar em baixa. É o pequeno prêmio pela tarefa cumprida de cada dia.

Aqui no nordeste costumam falar que as melhores coisas desse mundo não passam de duas: forró e mulher. Como nordestino e cabra da peste sou obrigado a concordar, mas para a nossa alegria os pequenos prazeres da vida não param por aí. Um deles é uma invenção que acompanha o ser humano ao longo dos séculos: a cerveja.

Grande invenção do homem…

Ao lado de seu irmão mais sagrado, o vinho, a cerveja é a bebida alcoólica mais ingerida no mundo, além de uma das mais antigas, datando cerca de 6.000 anos a.c. Com uma idade tão grande, não é de surpreender que a cerveja esteja enraizada até no imaginário popular e presente em histórias antigas e modernas, casualmente sendo associada aos povos bárbaros, que em suas festas enérgicas e rústicas se entupiam de barris de cerveja enquanto melavam suas longas barbas com dois dedos de espuma. Mas se nas histórias os vikings detém o monopólio no imaginário popular, seria injusto historicamente excluir a época em que a cerveja foi mais aprimorada: a Idade Média.

Foi com esse pensamento de “pequeno prazer da vida” que os monges da Igreja Católica aprimoraram não só a cerveja, mas também a fabricação de nossas loiras geladas, permitindo uma maior difusão da bebida nos feudos da sociedade proto-europeia[1]. A vida de monastério, seguindo as diretrizes de São Bento, é isolada, em constante penitência e oração, além da dedicação ao trabalho, artes e estudos. Mas aos monges também são permitidos alguns prazeres, como uma boa comida e, claro, uma boa bebida. Ainda hoje as melhores cervejas do mundo são produzidas por monges, como o caso dos monges beneditinos da Ordem Trapista, na Bélgica e Holanda, que produzem a bebida não só para consumo interno, mas também para a comercialização.

Monges trapistas produzindo uma iguaria. Olha a cara de felicidade.
Agradeça aos monges da Igreja. Agradeça bem muito…
Algumas cervejas trapistas. Já bebi a Leffe.

Para um jovem desavisado e com um escasso uso da razão, logo fará um raciocínio assim: “já que a Igreja contribuiu para a produção da cerveja, então significa que podemos beber à vontade!”. Ora, não é bem assim, meu jovem padawan. A Igreja, em sua santa prudência e sabedoria, sempre pregou o uso dos “pequenos prazeres da vida” de modo equilibrado e sem vícios, caso contrário, você não estará se divertindo, mas se aprisionando. Os aristotélicos-tomistas chamam isso de mediana e nossas mães traduzem para: “tudo o que é demais é veneno”.

O nosso querido G.K. Chesterton, em seu livro Hereges, comentou sobre o modo certo de beber uma bebida alcoólica, criando uma filosofia da cerveja que tem dado muito certo para mim até então. Eis a dica de ouro:

A regra sadia nessa questão parece ser a mesma de muitas outras regras saudáveis — um paradoxo. Beba por estar feliz, mas nunca por se sentir extremamente infeliz. Nunca beba quando estiver infeliz por não ter uma bebida, ou irá parecer um triste alcoólatra caído na calçada. Mas beba quando, mesmo sem a bebida, estaria feliz, e isso o tornará parecido com um risonho camponês italiano. Nunca beba por precisar disso, pois tal ato racional é o caminho para a morte e o inferno. Mas beba por não precisar disso, pois beber irracionalmente é a antiga fonte de saúde do mundo.

Em resumo: beba a cerveja não para curar-se de suas amarguras, seu mau-humor, seu fracasso ou esquecer de sua cara feia; beba apenas para brindar a vida, com aquela velha cara de bobão enquanto eleva o caneco até a sua boca. Encare a cerveja como um alimento, com direito a degustação e tudo. Mas pelo amor de Deus, não seja fracassado o bastante em beber para “pegar mulher”.

Ajustando essa idéia torta, podemos desfrutar saudavelmente de uma boa cerveja e ajudar a por um fim na danosa e efeminada cultura do “beber até se acabar”. Não há situação mais ridícula, pouco viril e cômica do que um cidadão que, exagerando no beber, perde as estribeiras da mente.

Faça como o Papa Emérito Bento XVI: beba por estar feliz e não para ficar feliz.

Além da imprudência no beber, outra grande inimiga do cabra macho apreciador de cerveja são as grandes empresas, que estão praticamente destruindo nossas queridas companheiras com essa prática de transferência de custos. Se o gosto de uma boa cerveja seja só superada pelo gosto dos lábios da nossa amada, nada podemos dizer dessas cervejas aguadas produzidas pelas grandes corporações, como a Ambev, que ao tentar diminuir custos na produção, acabam com o sabor delas, deixando a bebida mais água do que cevada.

Mas o mercado também tem o seu lado bom da força. Com o interesse por cerveja de qualidade em crescente, tem aumentado o número de micro e macro-empresas de cervejas artesanais no Brasil, além do aumento das cervejas superpremium que chegou a ocupar 1% do mercado brasileiro com tendência crescente. A não ser que nenhum burocrata venha meter mais ainda seus pentelhos estatistas nesse mercado, o caminho das cervejas de verdade estará mais livre para crescer no país, bastando apenas para o consumidor um pouco de amor-próprio e bom gosto[2].

Uma boa paisagem combina com uma boa cerveja

Por fim, o pequeno prazer que a cerveja pode gerar no homem que bebe-a é potencializado pelas circunstâncias que acompanham o sujeito. É com um caneco de chope na mão que varões se reúnem para discutir filosofia e política; é brindando com cerveja que nos reencontramos com velhos amigos e familiares; é com uma cerveja ao lado que comemos aquela costela de porco divinamente assada; é bebendo cerveja que assistimos aquele jogo de futebol ou aquela luta esperada de MMA; foram com festas regada a cerveja que os homens medievais comemoravam aquela vitória honrada contra seu inimigo; é com uma imensa pastagem verde em sua frente que o europeu do campo bebe a sua cerveja; é deitado numa rede e ao lado de um açude que o nordestino toma sua “breja” nos finais de semana a fim de se recompor para mais sete dias de trabalho; e são nos grande goles da vida que ganhamos os “pequenos e bons prazeres”.

Notas:

[1] Para mais informações acerca da importância dos monges para a civilização ocidental consultar Thomas Woods, Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental; ver também Christopher Dawson, Criação do Ocidente. As ordens monásticas foram de suma importância para a reconstrução do ocidente após o colapso do Império Romano, contribuindo para a Igreja, a cultura da cristandade, além do desenvolvimento tecnológico da sociedade feudal.

[2] Para mais informações sobre o mercado, ação humana e a tendência atual de burocratização e centralização do Estado consultar Ludwig Von Mises, Ação Humana — Um Tratado de Economia; ver também Friedrich Hayek, O Caminho da Servidão. Para uma visão mais católica e medieval da sociedade, consultar G.K. Chesterton, Um Esboço da Sanidade.