O vazio interior da modernidade: só Cristo preenche esse vácuo

Ítalo Maia
Jul 22, 2017 · 8 min read
R.I.P. Chester Bennington

Nessa semana fomos surpreendidos com mais um suicídio para a conta do rock: o vocalista da banda Linkin Park, Chester Bennington, enforcou-se nesta quinta-feira, no dia do aniversário do amigo Chris Cornell, que também cometeu suicídio e sim, também era rockeiro. O luto está sendo geral, mesmo porque a banda Linkin Park fez parte da pré-adolescência de todo mundo. Ainda lembro das minhas aventuras ao som das músicas do álbum Meteora e do Hybrid Theory, dos treinos pesados na academia ao som do Live In Texas e dos “rolés” com as garotas ao som, adivinhem, DO LINKIN PARK (uhul!). Mas a situação está agora preocupante. Não é o primeiro e nem será o último rockeiro doidão que cometerá suicídio. Temos uma vasta lista, só para citar alguns: Kurt Cobain, Layne Staley, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Janis Joplin, Chorão e Champignon. Quando não são suicídios diretos, são mortes causadas pela vida desregrada como nos casos do Bon Scott e do John Bonham que morreram de tanto ingerir álcool (em um dia só!).

A situação piora se abrirmos o escopo do problema para toda a classe musical, e depois para toda a classe artística, e depois para toda a sociedade. Sim, meus amigos, é um problema endêmico no mundo moderno. Não posso cometer a injustiça de dizer que a depressão é frescura: é uma doença que deve ser tratada com toda a seriedade. O cérebro de quem padece desse mal não trabalha como deveria, pois carece da produção de serotonina e outros neurotransmissores, causando no indivíduo uma distorção da percepção da realidade deixando-os em um estado de muitas dúvidas, juízos temerários e tristeza profunda. Entretanto, não podemos deixar de observar uma verdade que a cada dia está ficando mais evidente: muitos casos de suicídio tem sido o ponto final de uma vida sem sentido existencial. O mundo moderno está sem alma e no lugar dela está um completo vácuo.

Vazio e revolta

Quem melhor trabalhou o problema da falta de sentido foi o psiquiatra Viktor Frankl, criador da logoterapia. O método terapêutico de Frankl consiste em fazer o paciente encontrar um sentido existencial para sua vida, de modo que consiga superar o sofrimento dessa atual existência, que convenhamos, é realidade a todos. Ele chega a esse insight quando estava tentando sobreviver ao campo de concentração nazista Auschwitz. Nesse inferno terrestre, Frankl notou que os judeus que conseguiam resistir aos sofrimentos mais absurdos eram os que tinham algum propósito de vida forte, ou seja, uma vocação bem definida que impedia-os de desistir da sua vida, como faziam os que simplesmente tinham um vazio existencial. A frase mais utilizada pelo psiquiatra, e que sem dúvidas resume bem sua logoterapia, é “quem tem um ‘por que’ suporta qualquer ‘como’ ”. Tudo isso é relatado no livro Em Busca de Um Sentido, em que é esboçada as bases de seu método terapêutico.

Como se sabe, o termo latino finis tem dois significados: fim e meta. A pessoa cuja situação não permite prever o final de uma forma provisória de existência também não consegue viver em função de um alvo. Ela também não consegue mais existir voltada para o futuro, como o faz a pessoa numa existência normal. Concomitantemente altera-se toda a estrutura de sua vida interior. Começam a aparecer sinais de decaimento interior como conhecemos também de outras áreas de vivência. Numa situação psicológica idêntica encontra-se, por exemplo, o desempregado; também a sua existência se tornou provisória e também ele, de certo modo, não pode viver voltado para o futuro , em função de um alvo neste futuro.

Os jovens de hoje vivem em um mundo herdeiro do iluminismo, que rejeitou Deus e julgou a si mesmo como a régua da realidade. Como mostrou Eric Voegelin em Science, Politics and Gnosticism e A Nova Ciência Política, essa tentativa de suplantar o transcendente para imanentizar o eschaton(paraíso) é uma gnose que infestou a política moderna e é a criadora das ideologias. A ideologia é uma religião invertida, que procura tomar o lugar de Deus como o fim da humanidade, para assim poder fazer o paraíso na terra com as próprias mãos. Troca-se a salvação eterna para um pseudo-paraíso terrestre, negando e se revoltando para com Deus. Essa tentativa idiota de mudar a realidade e a natureza humana pode ser vista nas ideologias do progressismo, comunismo, socialismo, liberalismo, ideologia de gênero, feminismo, etc. A tendência do mundo moderno é cada vez menos deixar de buscar o transcendente e procurar a felicidade e o sentido da vida nas coisas terrenas com esperanças vãs de construir um paraíso terreno onde “tudo será mais belo”.

Não imanentizem o eschaton, ora porra!

É a idiotice desses tempos achar que podemos ser felizes apenas com os prazeres terrenos, muitas vezes apenas os sensíveis. Vivendo por aí à deriva, como átomos soltos sem qualquer fim ou propósito de vida, somos sujeitos a qualquer coisa. É o que têm acontecido muito com os jovens de hoje: se perdem nas drogas, no álcool, em ideologias idiotas, na libertinagem sexual, no crime, etc. E para terminar com a trágica ópera, entendendo que essas formas de viver não preenchem seu vazio interior, se perdem numa melancolia sem fim, culminando com um suicídio ou em alguma morte violenta. Como afirma Frankl ainda no livro Em Busca de Um Sentido:

A depreciação total da realidade oriunda da forma provisória de existência do recluso acaba seduzindo a pessoa a entregar os pontos completamente, a abandonar-se a si mesma, visto que de qualquer forma ‘tudo está perdido’. Essas pessoas estão se esquecendo de que muitas vezes é justamente uma situação exterior extremamente difícil que dá à pessoa a oportunidade de crescer interiormente para além de si mesma. Em vez de transformar as dificuldades externas da vida no campo de concentração numa prova de sua força interna, elas não levam a sério a existência atual, e depreciam-na para algo sem real valor. Preferem fechar-se a esta realidade ocupando-se ainda apenas com a vida passada.

Esse niilismo não é visto apenas nos rockeiros doidões e jovens revoltados: a literatura está cheia dela. Temos o jovem Raskolnikov, do romance Crime e Castigo, que após matar uma agiota para provar uma teoria estúpida, fecha-se em si mesmo, num completo breu interno; temos também o romance A Náusea, que a julgar pelo título e o autor do romance(Sartre), não podemos esperar mais do que uma história mostrando que viver não é nada mais e nada menos do que uma grande náusea. Ainda temos personagens famosos de séries de televisão, como o Don Draper, de Mad Men, que é um verdadeiro exemplo dos workaholics do American Way of Life: bem sucedido, sedutor, mulherengo e invejado, mas triste, sem sentido de vida, com problemas familiares e com sérias crises existenciais. Todos esses exemplos mostram como uma vida sem uma verdadeira vocação termina apenas em tristeza e vazio.

Raskolnikov em seu niilismo pós-crime
Donald Draper: o polêmico empresário de Mad Man

Cristo e Vida

Com o advento do cristianismo, houve no mundo a introdução, como Chesterton falava, das virtudes alegres: Esperança, Caridade e Fé. Não vivia-se mais somente com as virtudes sérias e civis dos gregos, como podemos ver na Ética de Aristóteles, mas agora tinha uma nova realidade bem definida: a realidade transcendental, do paraíso celeste. A Nova Jerusalém seria alcançada vivendo e morrendo em Cristo, seguindo-O, imitando-O e alimentando-se d’Ele. Foi vivendo assim, com a verdadeira vocação do homem, que construímos nossa civilização ocidental e produzimos tantos santos e santas, com muitas famílias sobrevivendo nos meios mais adversos após o colapso do poderoso Império Romano, período de muitos sacrifícios para reconstruir tudo das ruínas.

Quando Nosso Senhor Jesus Cristo diz “Eu sou a Verdade e a Vida”, está nos comunicando que somente n’Ele podemos realmente ser verdadeiramente humano e verdadeiramente felizes. O desastre do modernismo está em esquecer-se dessa verdade prima. Aqui certamente temos a plenitude do conceito de Viktor Frankl de ‘sentido da vida’. A vocação verdadeira do homem está em buscar e repousar em Deus, nada mais. E não esqueça, caro leitor, sempre, sempre que rompemos com o transcendente (Deus), nossa vida descamba num processo de auto-aniquilamento. Todos que padecem desse grande problema moderno tiveram um histórico de negação às verdades e leis eternas dadas por Nosso Senhor. Não vive-se mais por uma realidade eterna, um propósito nobre, uma vida de heroísmo, de sacrifício e de amor; vive-se apenas para si e contra si.

Anjo sorridente

Então, do outro lado da moeda, temos a face reluzente em que se encontra o ápice do amor e sacrifício pelo próximo: o martírio. Como explana Chesterton em Ortodoxia, apesar de aparentemente parecer muito com o suicídio, nada tem a ver com esse, mas nem de longe:

Mais ou menos na mesma época li uma solene bobagem de algum livre-pensador. Dizia ele que um suicida era simplesmente o mesmo que um mártir. A patente falácia desse texto ajudou-me a esclarecer a questão. Obviamente um suicida é o oposto de um mártir. Um mártir é um homem que se preocupa tanto com alguma coisa fora dele que se esquece de sua vida pessoal. Um suicida é um homem que se preocupa tão pouco com tudo o que está fora dele que ele quer ver o fim de tudo. Um quer que alguma coisa comece; o outro, que tudo acabe.

Em outras palavras, o mártir é nobre, exatamente porque (embora renuncie ao mundo ou execre toda a humanidade) ele confessa esse supremo laço com a vida; coloca o coração fora de si mesmo: morre para que alguma coisa viva. O suicida é ignóbil porque mão tem esse vínculo com a existência: ele é meramente um destruidor. Espiritualmente, ele destrói o universo. E depois me lembrei da estaca e da encruzilhada, e o estranho fato de que o cristianismo mostrara esse rigor incomum para com o suicida. Pois o cristianismo mostrara um ardente incentivo ao martírio.

O cristianismo primitivo foi uma época de grandes martírios

De fato, o suicídio é um insulto, pois desistindo de sua vida, ele insulta todos os outros que ainda lutam e sacrificam-se pelo próximo. Como ainda fala G.K. Chesterton: “ Quando alguém se enforca numa árvore, as folhas poderiam cair de raiva e os pássaros fugir em fúria, pois cada um deles recebeu uma afronta direta ”. Ao contrário, o mártir tem tanta certeza no seu sentido de vida — sua fé em Deus e nas delícias do paraíso — que nem a morte lhe faz mais medo. Como mostra Santa Felicidade antes de seu martírio, ao estar sofrendo com o seu parto, um soldado romano lhe diz: “ Se te queixas agora, o que será quando estiveres diante das feras?”. Ao que ela respondeu:

Agora sou eu que sofro, mas lá fora, um Outro estará em mim, e Ele sofrerá em mim e eu sofrerei por Ele.

Ítalo Maia

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Eu sou eu e minhas circunstâncias. E se não as salvo, não salvo a mim - Ortega y Gasset

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