O design da informação aplicado à infografia — parte 1 de 3


Esta série de textos faz parte do meu Trabalho de Conclusão de Curso, apresentado em dezembro de 2010 na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Para acessá-lo na íntegra, me mande um e-mail: italomen@gmail.com.

Referência para citação:
MENDONÇA, Ítalo de Oliveira. O design da informação aplicado à infografia. 2010. Monografia (Graduação em Design — Habilitação Gráfico) — Universidade Federal de Santa Catarina — UFSC.

1. Introdução | 2. Definições | 3. Abordagem histórica

1. Introdução

Em meados da década de 70, o filósofo Vilém Flusser [1] (1920–1991) escreveu em seus textos alguns dos desafios da comunicação moderna. Se naquela época seus pensamentos estavam registrados nas entrelinhas de seus textos, hoje, quase quatro décadas depois, se manifestam de forma perceptível para todos aqueles que fazem parte da Era da Informação[2]. Já sabemos como acessar a informação, agora precisamos aprender a administrar o seu excesso para nos comunicarmos de forma mais efetiva. Conforme o pensador:

O que as pessoas pensam certamente não é que sofram de falta de comunicação. Nunca antes na história, a comunicação foi tão boa e funcionou de forma tão intensiva como hoje. O que as pessoas pensam é na dificuldade de produzir diálogos efetivos, isto é, de trocar informações com o objetivo de adquirir novas informações. (FLUSSER, 2007, p.98)

Quase uma década mais tarde, precisamente em 1983, Philip B. Meggs[3] publicou o livro História do design gráfico, uma das contribuições mais significativas à evolução da comunicação visual. No encerramento de sua obra, MEGGS (2009) também menciona a importância crescente de tornar a comunicação visual mais clara e relevante. Segundo o autor:

As ferramentas — como já aconteceu tantas vezes — estão se transformando com o avanço inexorável da tecnologia, mas a essência do design gráfico permanece inalterada. Essa essência consiste em dar ordem às informações, forma às idéias e expressão e emoção aos artefatos que documentam a experiência humana. 
 A necessidade de comunicação visual clara e inventiva para relacionar as pessoas a sua vida cultural, econômica e social nunca foi tão grande. (MEGGS, 2009, p. 676)

Neste cenário, com a importância dos significados ganhando, gradativamente, relevância no desenvolvimento de projetos que envolvem sistemas de informação, o designer passou a ser personagem responsável pela organização, adequação e visualização da informação. (NIERMEYER, 2007 p. 18).

A escritora Lucy Niermeyer, em seu livro Elementos de semiótica aplicados ao design (2007) aponta a preocupação que os designers devem ter com relação à mensagem que pretendem transmitir:

(…) não basta algo ser formalmente agradável, ser funcional, prover uma boa interface. É mister também o produto[4] portar a mensagem adequada, “dizer” o que se pretende para quem interessa. (NIERMEYER, 2007 p.18)

Com o passar do tempo, a busca por métodos e práticas que melhor explorassem as diversas manifestações da mensagem, seja na forma de textos, números, gráficos, tabelas, evidenciou a necessidade de formação de um especialista para apresentar a informação fornecida pelo autor da maneira mais adequada possível ao leitor (HASLAM, 2006, p.110). Dentre as diversas habilidades desenvolvidas por este especialista está a capacidade de representar conjuntos de informações técnicas, complexas na maioria das vezes, de forma compreensível e para um público predeterminado.

Este especialista, popularizado como designer da informação, se faz presente em diversos campos do conhecimento humano. No design gráfico é responsável por lidar com a parte gráfica da informação; no jornalismo, sob a alcunha de jornalista visual[5], é responsável pela elaboração de narrativas visuais; no meio organizacional, monta apresentações e organiza os fluxos de trabalho; na computação, arquiteta a navegação em programas e sistemas, dentre outras áreas. Uma de suas características que melhor o define é a habilidade de síntese, que lhe dá a “capacidade de reunir a informação adequada no momento adequado, pensar de forma crítica sobre ela” (WILSON, 1998), possibilitando que outras pessoas tomem importantes decisões de maneira sábia.

A busca de informações que possa esclarecer os princípios que orientam a atuação desta atividade cada vez mais requisitada será a espinha dorsal deste trabalho, que é dividido em 4 partes.

A primeira tem como objetivo definir os principais termos referentes à prática da infografia, assim como apresentar suas correntes teóricas mais influentes, bem como suas divergências e complementaridades.

Na segunda parte serão expostos, de forma sintética, os acontecimentos históricos importantes que contribuíram para a formação do design da informação, facilitando o entendimento de como a infografia atual foi influenciada pelos acontecimentos do século XIX e XX. Dessa forma, estudou-se um período que é pouco mencionado na literatura da área que vai do primeiro infográfico jornalístico registrado, publicado em 1806 pelo jornal inglês The Times, até a revolução dos anos 80, impulsionada pelo jornal USA Today, período em que a mídia impressa começou a dar mais destaque aos recursos gráficos.

Na terceira parte serão apresentados alguns princípios gerais da visualização da informação que ajudem a identificar e explicar a razão pela qual algumas representações visuais são melhores do que outras.

A quarta e última parte proporcionará uma base empírica aos temas abordados nos capítulos anteriores, por meio de uma análise dos infográficos publicados pela Revista Época, no período de maio a agosto de 2010. Esse periódico é um dos veículos de informação no Brasil que, ao nosso entender, melhor exploram os recursos gráficos como ferramenta analítica, e que, em 2010, passou a contar com o trabalho do infografista Alberto Cairo[6], profissional que alia teoria à prática de forma exemplar, considerado uma das grandes referências na área.

1.1 Tema

1.1.1 Problemática

A produção de um infográfico supõe uma participação ativa de quem apura, edita e redige seu texto, bem como de quem concebe e ilustra sua imagem. Por essas características intrínsecas à atividade, os jornalistas e os designers são os profissionais mais capacitados para compor essa equipe. No entanto, poucos cursos de graduação de Jornalismo e de Design no Brasil oferecem disciplina de infografia em seu currículo; outros, quando muito, disponibilizam matérias parcialmente integradas às de edição gráfica — no caso do Jornalismo — ou as de técnicas de apresentação de projeto, no que se refere ao curso de design (MORAES, 1998).

Neste contexto de deficiência na formação do estudante que pretende trabalhar com a infografia, e considerando a crescente demanda por profissionais capazes de projetar a informação de forma mais clara e objetiva, evidencia-se o problema a ser estudado: Quais conhecimentos do design da informação são necessários para uma prática eficiente infografia?

1.1.2 Delimitação do tema

Utilização dos preceitos do design da informação no processo de produção da infografia jornalística.

1.1.3 Justificativa do tema

A escolha desse tema foi influenciada pelo meu interesse pessoal no estudo e prática do design de informação e na percepção do crescimento da demanda de trabalhos que exigem habilidades de representação visual da informação, como, por exemplo, infográficos, storyboards, e etc. A escolha da Revista Época como caso de estudo se justifica por dois motivos. O primeiro é o fato de ser uma das revistas de grande circulação no Brasil, que, por meio de seu blog (http://colunas.epoca.globo.com/fazcaber/), disponibiliza gratuitamente as etapas de criação de seus infográficos. O segundo é a integração do profissional Alberto Cairo à sua equipe de infografia, assumindo assim um papel de vanguarda na produção de infográficos mais científicos.

1.2 Objetivos

1.2.1 — Objetivo Geral:

Aplicar os conceitos de design da informação no processo de produção de infográficos.

1.2.2 — Objetivos específicos:

- Apresentar as correntes teóricas do design da informação que servem como referência para a prática da infografia.

- Traçar um caminho teórico que relacione os problemas oriundos da Era da Informação às soluções visuais do design da informação.

- Descrever os processos de visualização e representação da imagem.

- Relacionar a prática do design da informação ao processo de produção dos infográficos produzidos pela Revista Época.

1.2.3 Metodologia

A pesquisa utilizada para este trabalho caracteriza-se como bibliográfica, classificação proposta por GIL (2006), pois tem o intuito de realizar estudos com base em diferentes fontes (livros, sites, revistas, etc). Para oferecer uma base empírica à pesquisa, foi realizada, também, uma análise de caso.

Na primeira etapa, objetiva-se delimitar os parâmetros dos termos mais recorrentes neste trabalho, assim como expor as contradições teóricas que permeiam o tema infografia.

Em um segundo momento, pretende-se identificar alguns marcos importantes no processo histórico do design da informação, para então compreender sua relação com a infografia moderna.

Depois disso, será dado um enfoque mais técnico à visualização da informação, com base nos textos considerados referência pela comunidade acadêmica da área.

Com base nos conhecimentos levantados nos primeiros capítulos, será aplicada uma análise a alguns infográficos produzidos pela Revista Época — notável por sua equipe de infografistas — que foram publicados no seu site (http://colunas.epoca.globo.com/fazcaber/) durante o período em que este trabalho foi produzido (maio de 2010 a agosto de 2010).


[1] Vilém Flusser (2007), filósofo tcheco, dedicou grande parte do seu trabalho à reflexão sobre imagens e artefatos, elaborando as bases para a filosofia do design e da comunicação visual. Em 2007 teve alguns de seus textos reunidos por Rafael Cardoso, publicado pela editora Cosac Naify, originando o livro O Mundo Codificado.

[2] Alvin Toffler (1980), cientista estadunidense, em seu livro A Terceira Onda, define a Era da Informação como um período posterior ao da transição da sociedade industrial para a sociedade da informação, período este marcado pela ênfase na comunicação e na adaptação.

[3] Philip B. Meggs Designer gráfico norte-americano, docente, historiador e autor de livros sobre design gráfico.

[4] A autora aplicou o termo produto com o significado de resultado de um projeto de design, seja ele um objeto de uso, máquina, mobiliário, joia, seja uma peça de comunicação visual, material impresso, página na internet, embalagem.

[5] O jornalista Alberto Cairo, em seu texto de apresentação para a 3a Mostra Nacional de Infografia, defende o uso do termo “jornalista visual” ao invés do termo infografista, pois, segundo Cairo, este profissional que lida com a parte gráfica da informação jornalística também deve zelar pelos compromissos intrínsecos à profissão de jornalista, tais como: rigor, precisão, seriedade e ética.

[6] Alberto Cairo é jornalista e referência mundial na produção de infográficos impressos e digitais. Entre 2000 e 2005 foi chefe do departamento de infografia do jornal El Mundo, na Espanha. Em 2009 lançou o livro Infografia 2.0, onde aborda o uso da infografia nos meios digitais. Para mais detalhes sobre o autor visitar o endereço eletrônico http://www.albertocairo.com.