A imagem da concentração de manifestantes, no último domingo, em bandas pró e contra o processo de impeachment da presidente, junta uma porrada de coisas e põe para rodar a questão das velocidades atuais. Primeiro, o ângulo escolhido: dos manifestantes para a cidade, e não o Palácio dos Poderes como horizonte. Com a exceção dos elementos orgânicos da imagem, quase tudo se apresenta em linhas retas, numa composição que termina em uma torre, ao fundo, como que prestes a perfurar uma nuvem.

Por uma reta, a chance de informações circularem mais de uma vez é, em teoria, nula, já que seu infinito traduz uma novidade sem experiência. O círculo é a própria experiência, é o tráfego constante da mesma ideia, que sempre se renova ao passar pelo mesmo início. A foto aponta que a modernidade é o paraíso das retas, e que Brasília, capital pensada como uma cruz — justaposição de infinitos? a não experiência total? -, se dividiu em jardas, como num campo olímpico. As ideias naquele espaço, se trocadas, tenderiam a se dar de forma paralela, e não abrangente. Uma metáfora das vias de informação atuais.

Como circulam as informações, hoje? Em que velocidade são trocadas, escritas, impostas? Um efeito interessante dos ultratempos é como jornais impressos são percebidos nas redes sociais: se a banda do bem (a que quiser ser) ganha umas linhas bondosas em algum diário, a banda do mal (que ninguém quer ser) imediatamente ameaça cortar a assinatura e diz que o jornaleco é vendido. E vice-versa. Mesma situação se dá em qualquer veículo de mídia, com especial carinho às emissoras de televisão. As reações são tão rápidas e flexíveis que variam na velocidade de um post ou de um dia.

Que intensidades discursivas, termo do escritor Silviano Santiago, estão na pauta do dia já se sabe. O problema é identificar que elas convivem com argumentos de outras épocas, nas quais os discursos eram bem menos fluidos e atingiam parcela reduzida da população. O que quer dizer que há um tremendo descompasso entre ideias e a propagação dessas ideias, como se pensar ainda fosse analógico, enquanto as vias de tráfego para conceitos já fossem digitais. O que fazer com a informação, que teima em vir em linha reta de pontos do passado, talvez seja criar um círculo em seu entorno, como pequenos burgos discursivos a digerir bem os dados apresentados.

Nesse sentido, há o problema do espaço. Em um texto recente, (https://medium.com/@moysespintoneto/populismo-versus-localismo-em-defesa-do-municipalismo-e-federalismo-radicais-e125c03511bd#.upfj0lb80), o professor Moysés Pinto Neto propôs a reinvenção do pensamento de esquerda em termos de atuação política menos totalizante, fragmentando os locais como laboratórios experimentais. Pense-se no que ocorre na Espanha e na Grécia, bem como em junho de 2013 no Brasil. Junho não se fechou em copas, não finalizou as possibilidades discursivas diante das intensidades, antes as expandiu. Uma lição, bastante óbvia, a se tirar de 2013 é a de que manifestações civis funcionam, e bem, desde que dispostas em círculos menores de ação, de modo que contaminem outros espaços e que mais círculos sejam criados. Quando partiu para o discurso de país, junho perdeu força e se diluiu. Mas seria bom não esquecer que o Movimento Passe Livre ganhou o que queria por ter tido a informação circulando nas mídias — nestas, a Tv Cultura foi central em São Paulo. Logo foi devidamente “sanitizada” pelo governo de Alckmin. O Estado não perdoa totalizações que não sejam as dele.

Encarar a velocidade uniformizante dos ultratempos talvez só seja possível se fragmentarmos os espaços discursivos, já que os novos tempos não comportam totalizaçoes físicas ou conceituais, fora dos discursos oficiais. Há coisas grandes demais, arcaicas demais, que vão demorar um tempo para morrerem, mas, como o exemplo indígena demonstra, sobrevivência também é resistência e circularização de experiências em uma sociedade sem estado.