A modernidade foi o início da organização do tempo por meio do desenvolvimento tecnoeconômico e da mudança nas relações sociais. A Revolução Industrial e a ética burguesa definiram novas posições de trabalho e de produção na sociedade, controladas pela divisão do dia em horas e dos indivíduos por idade. Por um lado, encurtamento de distâncias pelos transportes e pelas comunicações; por outro, definição dos papéis sociais e das possibilidades produtivas.

A pós-modernidade, por sua vez, organiza o espaço físico e suas imagens. A fragmentação da produção em cadeias de comércio globais se reflete na urbanização em escala mundial, tendo por consequência a relativização de hierarquias sociais. Estas últimas, antes rígidas, entram em colapso. A geografia, tanto urbana quanto do campo, é repensada como modo de articulação de mercados que ultrapassa questões nacionais, antes visa e legitima o consumidor sobre o cidadão.

Entre esses polos de transformação perceptiva espaço-temporal, inserem-se debates acerca de estética e de cidadania que se chocam com a lógica uniformizadora do consumismo. A diversidade das culturas locais é ressaltada, mas está, quase sempre, prestes a ser continuamente ressignificada dentro do contexto econômico. O que se entende por original, atualmente, é qualquer manifestação que não esteja sendo consumida, ou debatida, por grupos urbanos. A cidade é o vetor da consagração estética, mas é, ao mesmo tempo, onde esse valor rapidamente se dissipa.

O próprio conceito de cidadania está sujeito a esse movimento. Nas mega-cidades, todo o intrincado processo de se tornar um indivíduo pleno, de acordo com a ética burguesa, é posto em cheque continuamente, devido à superposição da esfera econômica sobre a social. Antes de ser pai, mãe, trabalhador, religioso, punk etc., é-se consumidor. Não há, no espaço habitacional atual, relação que fuja a esse âmbito, com a exceção daqueles verdadeiramente à margem da cidadania moderna, como os indígenas. Não por acaso, estão sendo massacrados. Mais uma vez.

A esquizofrenia social da atualidade pode ser vista como estimulada por duas correntes. Por um lado, o fluxo uniformizador das relações de consumo; por outro, o contrafluxo individualizador das relações urbanas, a terra prometida da modernidade burguesa. Os escapes estéticos são vários e em constante substituição, o que só aumenta a sensação de vazio e de insatisfação.