Herzog e Zé do Caixão Repaginados

No último domingo, 26 de outubro, lembraram-se na Catedral da Sé em São Paulo dos 40 anos da morte do jornalista Wladimir Herzog. Ele foi morto nas dependências do doi-codi, aparato repressivo da ditadura militar brasileira. Posteriormente, tentaram passar o assassinato como suicídio.

A cerimônia na Sé, entretanto, fez a sinistra ligação do fato passado aos do presente. Ivo Herzog, filho de Wladimir, citou a crescente taxa de homicídios praticada pela polícia militar do estado nos últimos anos, questões geralmente tratadas pelas autoridades estatais como substratos da proteção contra “o crime”. As aspas justificam-se pela abstração da palavra, não há a menor concretude nesse substantivo quando sai nos jornais ou em declarações post mortem.

A continuidade do genocídio patrocinado pelo estado lembra o arco que José Mojica Marins desenhou em seus filmes. Com o personagem Zé do Caixão, Mojica produziu filmes continuamente entre 1963 à 1970, voltando ao nietzscheano protagonista em 2008. Como bom propagador da “potência de vontade”, violência do mais forte sobre os de baixo não falta nos roteiros. Em se tratando de país pautado pela desigualdade social sancionada por potência análoga vinda de certos nichos, os filmes de Mojica discutem basicamente o esmagamento do social pelo governo.

Em seu primeiro filme como o dono de funerária que procura “a fêmea ideal para gerar a criança suprema”, o diretor nos coloca em uma pequena cidade rural ultra-católica e conservadora. À Meia-Noite Levarei a sua Alma (1963) tem Zé do Caixão exortando os habitantes a se rebelarem contra o meio que os oprime, especialmente religião e pobreza.

O seguinte, à Meia-Noite Encarnarei em teu Cadáver (1967), foi lançado já debaixo de ditadura braba. Mojica não se furta à ocasião e abre o filme com um monólogo clássico: “o povo continua o mesmo. Ignorante, pobre, inferior”. Pode-se ver essa fala como acompanhando outra de filme brasileiro do mesmo ano. Em “Terra em Transe”, Glauber Rocha coloca o poeta/ativista Paulo Martins em uma passeata camponesa na qual, em determinado momento, ele olha para a câmera e berra, segurando o rosto de um caboclo: “é esse povo que vai fazer a revolução?!”

A violência social em Mojica até 1970 é mais ambiência que manifestação. A volta do personagem em 2008, Encarnação do Demônio, reequaliza os termos. Ao sair da prisão em que ficou confinado até àquele ano, Zé do Caixão toma um susto ao andar nas ruas e ouvir pipocos e sirenes de polícia; “mas o que é isso?!”, se assusta. Talvez seu primeiro susto desde a vilazinha de 1963.

O filme carrega no grotesco propositadamente, o que pode ser visto como um mea culpa de Zé/Mojica por uma verdade: nada do que o agente funerário fizer vai superar a guerra civil promovida pelo aparelho de repressão estatal.

Ou seja, Mojica atualiza o terror brasilis pelo avesso. Não mais as crendices e inferioridades inatas (complexos de vira-lata?) chegam para esmagar a sociedade. O estado policial, desde os anos de chumbo, já estava livre para promover o que antes, ao menos, tentava dissimuladamente esconder. Não há como filme algum competir com o terror de crianças levando bala em seus crânios simplesmente por correrem.

A atualização do que se queria dizer na cerimônia da Sé pela morte de Herzog, bem como os filmes de Mojica Marins, apontam para o óbvio. Os anos de chumbo nunca acabaram. O passe livre policial de hoje é tanto mais covarde por se apossar de uma suposta ideia de igualdade social ao proteger, enquanto, na verdade, extermina com precisão cirúrgica os bolsões de excluídos.