Mundo de Bowie

Correndo risco brabo de generalizar temporalmente coisas dissociadas, teve um negócio lindo essa semana que foi o tanto de texto e percepção diferente que pipocou por conta do Bowie.

Se ele tivesse ido pras estrelas em, vá lá, 1996, a convergência do que ele significou teria sido empacotada em nichos verticais, o maior sendo o formado por fãs de música pop, o menor poderia ser o da galera de moda, talvez. Enfim, teria morrido um superastro, ponto.

Ou seja, o obituário e as demais impressões viriam basicamente da imprensa musical.

Em 2016, a encruzilhada nas redes sociais é total, dum post do escritor Junot Diaz soltando um “valeu, Bowie, te conheci antes de falar inglês”, à caralhada de titias que atulharam as tl dos sobrinhos e posts de gente que cê não imaginaria ligar pro cara. Isso pra não ficar na imprensa musical, que também se adaptou ao ricochete de info que se despeja/apreende no caos virtual, segurando as pontas de análises mais avançadas pras edições especiais em banca que virão, ou não. Tanto faz.

3 coisas disso: uma, massa ver que o movimento de info na era da super-tecnificação é instável pra porra. Cê espera que as coisas se compartimentizem (e rola), mas, ao mesmo tempo, se abrem todas pra tudo (também rola). O fluxo/contrafluxo é o tal lance de dados do acaso mallarmaico.

Dois, a absurda possibilidade de poder ler as coisas de múltiplos modos de hoje. Bowie morre em 96, seria nicho por conta de tudo, principalmente de acesso à info e, em especial, o que fazer com essa info. Se acontece também um esquema que pode ser descrito como “multiplicação de afetos” e tal (o meu choque experimentado vai rebater em você e acaba que criamos uma cadeia de afetos), isso tem um resultado massa na rede como um todo. Basta pensar no caso das bandeirinhas de arco-íris depois que o Supremo dos EUA liberou o casamento gay.

E três, tinha que ser com o Bowie. Difícil outro aglutinar os 316 orixás como rolou. Pelaqui, provavelmente o Caetano é candidato disparado, mas não rolaria comoção globalizada. Dylan é muito arcaico e MacCartney, como andaram comparando, é outra ideia, bem mais ligada a uma memória afetiva que tende a ser conservadora também.

Bowie deu o rabo diante de todo mundo, cheirou quilos de porcarias, alternava entre a boneca Emília e um primo bacana, transava o que pintasse de ideia musical e performática. Era mestre na arte da metalinguagem pop, seja positiva (“Heroes”), negativa (“DJ”) ou translinear (método de escrita William Burroughs, senso cinematográfico godardiano, atração por decadência romantica em geral).

Esse cara tomando de assalto as redes nesse início de 2016, e jogando luz (cheia de glitter) nas intensidades narrativas atuais, caralho, é muito sensacional.

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