Feminismo, educação e o tempo de cada uma de nós

Meninas, não caiam no papo de que, lá no fundo, vocês queriam que “aquilo” tivesse acontecido.

Pais, a sua filha não nasceu para ser uma mocinha, ela nasceu pra não ser intimidada por ninguém.

Eu começo assim porque eu demorei muito para escrever meu primeiro texto feminista. Eu pensava bastante sobre como era positivo que as mulheres brasileiras estivessem escrevendo textos poderosos e que mais um (o meu), não seria necessário. Eu acreditava que seria perdido no meio de tantas pessoas talentosas, colocando a sua voz no mundo e dando esperanças a tantas meninas que se sentiam oprimidas, confusas ou não sabiam o que fazer.

Contudo, pensando na minha própria realidade e experiências e conhecendo outras mulheres, mais novas que eu inclusive (eu estava começando a achar que as meninas mais novas já vinham com uma atitude muito mais agressiva que a minha), que passam pelos mesmos perrengues que nossas mães passaram, eu percebi que situações constrangedoras ou opressivas estão longe demais de acabar. As atitudes pequenas e consideradas inofensivas, inclusive por nós, existem aos montes e o discurso que esse papo é coisa de “mina feia” ou “mulher mal comida” é repercutido inclusive por mulheres desavisadas. Concluí que quanto mais pessoas derem voz à necessidade intrínseca de falar, mais esses casos irão deixar de ser ignorados.

Eu mesma não percebi que algumas situações que eu vivi foram totalmente distorcidas pela minha cabeça educada para ser agradável sempre.

Como da vez em que eu fiquei me desvencilhando de um cara por quase uma hora por não querer transar e ele achar que era tudo uma brincadeira sexual. Meses depois resolvi confrontá-lo sobre isso. Ele me respondeu que não havia me obrigado a fazer nada, mas também havia me impedido de deixar ir pra casa no momento que eu queria. Além de ter dito que me levaria ao ponto de táxi, mas, sem querer, passamos na frente da casa dele. Que coisa, não? “Você liga pro táxi aqui de casa”.

A realidade que temos que enfrentar é a de que uma pessoa se desvencilhando da outra é com certeza uma brincadeira boba e excitante, em que o “não” não cumpre o próprio significado e se transforma em motivo para um desafio a ser vencido. A nossa cultura mantém-se afirmando que mulher se ganha na insistência, então foi isso que ele fez.

Aliás, também se diz que mulher bêbada é um alvo mais fácil, como acontece no filme O Virgem de 40 anos (vocês já reviram as comédias de sucesso dos anos 2000?), mas isso é só um adendo, papo pra outro texto.

Muitas mulheres passaram por histórias semelhantes ou piores e se perguntam até hoje, assim como eu, por que não fizemos isso ou aquilo, por que não tivemos coragem de tomar uma atitude mais agressiva.

Invertendo o questionado: por que a minha relutância não significou um sinal de pare para ele? Por que, quando a mulher mostra-se visivelmente desconfortável, isso não significa nada?

Eu poderia escrever aqui para os pais pararem de ensinar os seus filhos homens a verem mulheres como prêmios, ou escrever diretamente para os meninos que sexo não é um jogo de virilidade que precisa ser vencido ou que meninas não estão aí para rir de toda gracinha que têm que ouvir, seja no trabalho, na rua ou no bar. Mas este texto é para você, mulher.

Se você foi educada a vida inteira para ser uma mocinha agradável a todos, você dificilmente aprendeu a se impor da maneira certa em situações desconfortáveis com o sexo oposto. Assim como, se você aprendeu que homens não podem ser confiáveis (e muitas vezes, eles são ensinados a não serem mesmo), a chance de você crescer paranoica com relações que possa vir a desenvolver com eles aumenta.

Eu não queria que nada na minha história tivesse acontecido, mas eu também não soube me impor e preferi manter um sorriso murcho de “desculpas, mas não estou afim”, que obviamente foi ignorado.

Se você aprendeu a ser comportada, querida e não reagir com grosseria, o seu cérebro vai dar um tilt na hora de saber como sair de uma situação dessas. Isso é uma verdade. As mulheres devem entender, ao seu tempo, como mudar o seu comportamento a seu favor, mas nunca devem ser diminuídas por outros por causa disso. “Lá no fundinho, você estava afim sim”, “você não deixou bem claro” e muitas outras frases dessas podem fazer uma mulher se sentir incapacitada, fraca, ignorante.

Se você não passou por uma vida sendo tratada como uma princesa inocente ou alguém que deve ser agradável e educadinha, você não sabe como é aprender a alterar o seu comportamento do zero, refletir sobre tudo que viveu e como reagiu e precisar entender que as coisas não precisam ser assim.

Mulheres, tenham o seu tempo de amadurecimento e empoderamento, mas tenham.

Homens que querem ajudar suas amigas, namoradas, esposas: nenhuma lição deve partir de vocês. Alguém que nunca passou por isso pode fazer a abordagem da maneira errada. Não seja incisivo, apoie. Acredite, nós já nos torturamos por dentro o suficiente por ter tido que passar por determinada situação em que não soubemos responder à altura. Uma crítica pode ser destrutiva.

As ações destrutivas fazem tão parte do cotidiano que nem notamos. Todo mundo já esteve em uma roda de conversa em que ouviu, ou foi a pessoa a dizer, que “isso é coisa de mulher”.

Meninas, parem de pensar que, assim como “isso é coisa de homem”, então está tudo certo. “Isto”, seja lá o que for, não está associada à natureza sexual do sujeito, mas sim ao mundo em que ele está inserido e, se vocês não questionarem isso, se sentirão sempre diminuídas.

Introduzam na sua rotina, a seu tempo, o hábito de xingar se vocês acharem que for preciso. Abandonem a ideia de serem bem comportadas e sejam grossas mesmo. Percam o medo de serem desaforadas e desbocadas e sejam aquela mulher que as pessoas no trabalho dizem que não sabe brincar. Não sorriam de piadas que vocês não gostam ou que vocês sabem que são totalmente erradas só pra “entrar na onda”. O nosso “deixa pra lá” alimenta abusos pequenos que podem se transformar em problemas maiores.

Não peçam desculpas o tempo todo, querendo evitar que os meninos tenham seus egos feridos. Parem de pensar que vocês estão desagradando, é para estar mesmo.

Valorize muito mais quem vocês realmente querem ser e muito menos a imagem que os outros podem ter.

Vocês são mais importantes.