A crueldade de não poder sumir das redes sociais

Na contramão do que se espera, não escrevo este texto à espera de likes. Escrevo pra não ser o próximo. Queria muito dar um tempo disso tudo. Fechar as portas de todas as redes. Mas até o Facebook quer saber os meus motivos. Nem eu, a fundo, os conheço. Optei por não tentar entender. Já é difícil acordar e ter que torcer para aquela postagem profissional não passar despercebida. Quanto mais dormir sabendo que me tornei escravo de um algoritmo de silêncios que, em vão, tentam se buscar num cemitério de fanpages sem alcance.

Meu tempo extremamente exacerbado nas redes sociais me trouxe uma demanda de problemas que eu nunca procurei. Um deles é a tristeza de ver alguém me excluindo. ‘Adicionar amigo’, diz o peito do ex-amigo que nunca me viu. Eu não devia me importar, mas aquilo fica, como um espinho que entra sola adentro do sapato que parecia intransponível — e dói por dias. Você pensa em quais seriam os motivos. Quais seriam os motivos? Cara, estou aqui a trabalho. Apenas. Daqui a pouco o expediente acaba e logout. Um happy hour em algum lugar sujo da cidade com amigos tão ou mais infelizes que eu. Mas vamos sorrir aos berros. Não nos restam forças suficientes para uma rebelião armada.

Enquanto a xícara dança, desajeitada, na minha esquerda trêmula, o café quase bica o bolo de post-its sobre o mogno ruído com as tarefas que preciso concluir. São tantas. Eu tenho tanto a produzir. E como gosto de ter essa informação. Mas acredito que muita gente entende minha dor. Ela é exata, precisa. Age sobre o imaginário, sobre o panóptico do tempo. Falando em panóptico, a prisão perfeita de Bentham, há outro que pareça tão fiel? O mais cruel é ter que admitir, todos os dias, que preciso do que me adoece. Preciso para não ter que voltar pro cerne de um sistema que é o centro dos sintomas.

A internet inventou uma nova solidão. Nunca se fez tanto check-in para, no final das contas, não se ter passado por lugar nenhum. Nunca nos relacionamos tanto sem realmente ter conhecido absolutamente alguém. É como um emaranhado infinito de caminhos para todos os desertos possíveis. Trabalhar com as redes sociais me trouxe à tona um delírio absoluto da qual sempre estive, inconscientemente, alheio: o delírio da autonomia. Não existe autonomia quando você sente nos pulsos o abraço desesperado das algemas.

No texto passado, quando falei do aplicativo Saharah, citei George Orwell e preciso citá-lo novamente. Ele nos traz o conceito de ‘duplipensamento’ em 1984, um dos livros que mudaram minha forma de perceber o mundo. Seria a capacidade de uma sociedade amar e odiar algo ou alguém ao mesmo tempo e de afirmar e negar o mesmo fato ao mesmo tempo. Sinto o mesmo quando penso onde irei compartilhar este texto depois.

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