Tem dias que a vida é um ato de coragem

Ithalo Furtado
Aug 25, 2017 · 3 min read

Talvez você se assuste se eu disser que estou vivendo o ano mais difícil da minha vida. Mas não se assuste tanto. Todos temos esse tempo estocado. Não vivo um privilégio. Engraçado é pensar que existem 365 possibilidades para não ser tão difícil mas, ainda sim, é. E não interessa o quanto eu seja forte. Não tem nada a ver com força. Um navio jamais navegaria numa poça no meio do asfalto. Tem horas que o ninja perde a astúcia e o canhão fica sem balas.

Mas evapora. Na xícara com riscas vermelhas repousa o saquinho da cidreira pronta. Descanso. Cai um pequeno riacho de águas quentes e a essência se estabelece. Me desce o chá como devia descer a vida. Eis o que estava estocado desde que nasci e agora se mostra. Meu ano mais difícil. Que rosto teria se fosse um Belga? Aceitaria um vinho numa noite estranha de um mendigo qualquer?

Talvez você se assuste se disser que penso na morte. Mas não se assuste tanto porque é cedo pra partir. Vou ficar. Não é esta a morte que me invade. Acontece que elaboro meus lutos. Elaboro na intenção de estar pronto para esgotá-los. O fim de uma amizade ou do meu suco favorito. O último acorde, o segundo que antecede o silêncio do granizo ao beijar o teto de uma fábrica. Qualquer dia que se preze comporta vinte e quatro horas de pequenos funerais. Em algum canto da sala, uma formiga é velada por suas companheiras que ainda pensam nas migalhas de pão que precisam colher mais a frente. A necessidade é uma desonra.

Se vejo a vida pulsando na água do chá, o que veria — com seus olhos difíceis— o náufrago? Ele, que tem na água sua única fuga, seu único encontro. Do alto do escombro ruído ou na margem da ilha sem nome. Todo ser humano que nunca serviu a outro ser humano como seu igual devia sofrer na elegia de um naufrágio. A sobrevivência é uma desonra.

O tempo passa em conta-gotas. Olhos sujos no led de atendimento do banco. Minha senha é V e alguns números. Há vinte minutos que passa do D pro I e volta pro D de novo. Previsível. Nunca me enganei com a sofrível missão de esperar ser atendido naquelas confortáveis cadeiras azuis. É um erro de soldado raso ir para qualquer guerra sem munição, coisa de ocidental extremo. Mas meu pobre belicismo latino me alertou sobre as armas do inimigo. Enquanto o mundo adoecia na sede do banco do brasil, eu lia Mapas do Acaso, meu predileto da série de livros do Humberto Gessinger.

É interessante esse jogo de objeto e observador. Às vezes, presto mais atenção em quem me observa enquanto leio porque criou afinidade pela capa que na própria leitura. Pelo menos umas duas pessoas riram e ameaçaram falar comigo por conta disso. Esses risos são partos. Desejo repeti-los. São partos que dão sentido ao que não reconheço como busca. Longe dos lutos e dos naufrágios, onde eu deveria estar atento a todos eles. Impressionante nossa sutil capacidade de renascer em qualquer inferno.

Fotografia — @gelsoncatatau

O título é retirado de uma música da banda Vanguart chamada ‘Se tiver que ser na bala, vai’

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Conteúdo quase diário porque tem dias que olha...

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