Carta de Amor

  1. Segundo o heteronômio Álvaro de Campos (Fernando Pessoa), “Toda carta de amor é ridícula.”
  2. “Todo relatório é ridículo.”, segundo eu mesmo.
  3. Sendo assim, isso não é um relatório, é uma carta de amor.

Olá,

teve uma coisa muito séria que foi eu confundir o que eu sentia por você com a minha vontade de viver. Eu lembro que eu ia pro estágio feliz porque eu ia ter histórias pra contar pra você. Eu ia poder dizer o quanto eu estava feliz em aprender coisas com aquelas pessoas, com aqueles meninos e meninas. Eu fiz um desenho no primeiro dia. Eu vi nos olhos de um dos alunos a beleza do encantamento com a novidade. Eram olhos apaixonados. Eu lembro que eu tinha medo, eu lembro que nunca foi fácil. Eu lembro que durante todo o tempo eu tentava relacionar as coisas que eu aprendia em sala de aula com as coisas que eu sentia por você. E teve o dia que eu briguei na reunião de moradores do prédio porque defendi o nosso direito a festa, refutando a morte que seria resumir a nossa vida a um sarau ridículo. Não me entenda mal, mas sarau é coisa de burguês-família-tradicional-brasileira. É coisa de público e artista, é coisa de “olha o que eu fiz”. Eu não acredito em arte nesses termos. Eu precisava urgente dissipar essas linhas, eu precisava de uma metodologia de trabalho que desse conta das questões éticas que se empunham pra mim. Um modo de desvencilhar-se dos padrões identitários que reduzem o aluno, o professor e a escola a um jogo de cartas marcadas. Eu lembro que era assim que eu tentava tratar o meu desejo. Enquanto coisa viva. Mas eu tinha medo. Eu também tive medo da escola. É verdade que eu tive ajuda e talvez só por isso foi possível continuar. Teve a Lili me dando força nas minhas angustias, me apresentando à Isabel Marques, a projetos educacionais divergentes do modelo de educação clássica. Teve o fato da gente ir dançar no recreio da escola antes de ir dar aula lá. Foi um dia feliz. Eu tava tão feliz porque além de tudo eu tava apaixonado por aquilo e por você. Eu tinha amigos, eu tinha possibilidades imensas. Foi nessa época que eu comecei a me focar na experiência docente enquanto prática artística. Foi nessa época que eu comecei a traçar sentidos dramaturgicos pra minhas aulas, remetendo a uma dramaturgia da festa como lugar privilegiado para a afecção. Foi nessa época que eu comecei a ler sobre Spinoza e seu projeto filosófico. Foi daí que eu passei a entender a sala de aula como um lugar propicio à variação de intensidades de um corpo. Foi daí que eu me toquei: é preciso vincular nossas práticas com nossos discursos de forma indissociável. É preciso inventar procedimentos que forjem o aprendizado por meio da experiência corporal. A partir daí foi mais fácil traçar o caminho.

Entre Setembro e Outubro, 4 planos de aula. No entremeio, um coração partido. O coração que você partiu. Eu ia no CERE buscando refúgio pra esquecer. Eu me punha naquelas aulas como quem se apega á uma tábua de salvação. Eu lembro de colocar Sprawl II do Arcade Fire pra tocar em um dos exercícios da aula. A sua banda preferida tornou-se a minha banda preferida também. Eu precisava transformar aquela sensação terrível em algo de bom. Foi nesse sentido que surgiu a cena da minha última aula, onde danço junto dos meninos ao som de Beatles até a gente cansar, até o suor derreter as palavras escritas no nossso corpo, uma metáfora da dança como solvente de toda identidade, de todo afeto triste, inclusive. Eu me vi obrigado a dividir ali o meu coração com eles, assim como Leonilson fêz durante toda sua trajetória artística, assim como Elielson Pacheco com seus TTA’s. Já não havia simplesmente a relação professor-aluno, mas se estabelecia ali um modo de parceria, de amizade, de co-dependência criativa. Não tão somente uma aula, mas também uma performance, uma obra feita de forma colaborativa.

Acredito que, sem sombra de dúvida, as parcerias que se constituiram nesse interim, me ajudaram a passar por esse momento: as professoras orientadoras do estágio Liliane Costa e Rosa Ana Druot, os colegas de estágio que foram fundamentais para um aprendizado problematizador e inventivo, João Paulo Barros, Islânia Lopes e Tamires Sales, a professora coordenadora do projeto de extensão InventAções, Emyle Daltro e a professora supervisora do estágio Vanessa Pinto pela colaboração e incentivo. E é claro, mais uma vez ressaltar a parceria que se forma em sala com os alunos. Perceber que é possível criar uma relação de cumplicidade com eles e que esse é o motor do trabalho que desenvolvemos, evitando relações de hierarquia, mas sobretudo prezando por modos de aprendizado em conjunto: professor e alunos aprendendo simultaneamente. É muito gratificante entender isso: a metodologia que nos propomos é a da aproximação, da relação horizontal, da experiência coletiva como modo de aprendizado. É nesse sentido que considero a disciplina Estágio: proposições extremamente positiva, pois pudemos transformar nossas inquietações e desejos em práticas de ensino e aprendizagem, em modos de invenção do mundo. Nesse ponto você torna-se um detalhe, ainda que eu goste muito de você. O que importa é como eu consigo me lembrar das coisas, inclusive de você. É por isso que escrevo. É por isso que incentivei meus alunos a escrever, a fim de produzir modos de lembrar. De resistir ao tempo. Essa carta de amor é um modo de eu lembrar das coisas que eu vivi. Mas também de esquecer. Porque através dela refaço o caminho, por meio dessa escrita destruo as coisas e as reconstruo como posso nesse momento. Aquilo que falta agora também constitui a minha experiência. Você existe mas como uma outra coisa. Assim como o estágio e tudo aquilo que vivi em sala de aula. E só agora me dou conta que tudo está bem. Eu consegui viver isso. Está tudo bem.

Ítalo Campos,

Fortaleza, 17 de Fevereiro de 2016

Referências:

Like what you read? Give palavra dançada a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.