Graça e Mistério.

Crítica do espetáculo “Graça”, da Cia de Arte Andanças.

Fonte: http://ciabalebaiao.blogspot.com.br/2011_09_01_archive.html

Lembro de ter lido uma vez que o ato de dançar é capaz de “mostrar aquilo que nos fêz a dança”. Essa frase, muito curiosa, me faz pensar em duas coisas: 1. a dança como linguagem: possibilidade de mostrar para o outro aquilo que nos provoca a própria dança, dança como atualização expressiva de uma provocação qualquer feita ao corpo e 2. a dança como devir: aquele momento em que deixamos de ser quem somos para mostrar o que a dança pode fazer de nós. Graça, espetáculo da Cia de Arte Andanças, parece tratar justamente da pergunta: como mostrar para o outro aquilo que nos faz a dança?

Subimos no palco todos juntos e formamos um semicírculo, voltados para o fundo do palco. À nossa frente, uma cadeira e uma mesa. Objetos reluzem sobre o tampo de madeira. Andréa Bardawil, diretora e coreógrafa de Graça, introduz o espetáculo, falando sobre o inacabamento desta obra como parte daquilo que ela acontece.

No início da obra, Andréa começa dizendo que ela e a intérprete do trabalho, Graça Martins (Gracinha), mesmo se conhecendo há muito tempo, nunca haviam trabalhado juntas. Graça e Andréa tem uma longa trajetória na dança cearense, cada uma com seus respectivos trabalhos, a primeira dentro das danças populares e a segunda no que chamamos de dança contemporânea. Ambas parecem ter elaborado, eu poderia dizer, após mais de 20 anos de atividade, um tipo de saber que lhes acompanha como uma identidade, um estilo. Certa vez ouvi a coreógrafa dizer que na hora de compôr um trabalho geralmente se aproxima das mesmas pessoas, pessoas que já a acompanham em seu percurso, que sabem o modo como ela trabalha, e que não abre mão de estar junto com elas. Do mesmo modo, Gracinha tem um trabalho corporal oriundo das danças populares (como o coco de roda e a dança flamenca) que está inscrito em seu corpo como marcas, formando a dança que ela inventa a cada apresentação em seu repertório usual.

Desse modo, eu acho que tanto Andréa, quanto Graça, buscam nesse trabalho, esse tal estado que acontece e nos dissolve quando dançamos. Esse estado que, ao meu ver, tem muito pouco a ver com aquilo que achamos que somos, estando muito mais atrelado ao trabalho das ações do/no corpo que dança. Dança como o ato de trabalhar sobre os nossos clichês corporais. De mover o que nos impede a mudança. Trabalho sempre inacabado e nunca estanque. Processo não dado de antemão, antes, preocupado tão somente em fugir de todo dado. Trabalho também pouco previsível e muitas vezes aberto ao acaso. É daí que a dança parece surgir.

O ato de de entrar na sala de ensaio sem certeza nenhuma do que pode acontecer é algo que certas teóricos da dança dizem ser oportuno para que aconteça aquilo que se chama “dramaturgia da dança”. O “Não-saber”, por exemplo, segundo o teórico das artes da presença André Lepecki, seria um modo de fazer emergir o trabalho-por-vir que cada processo de composição, singularmente, exigiria.

Assim, em Graça, “mostrar aquilo que a dança nos fêz” parece estar presente como a própria dramaturgia do trabalho, pois o saber autoral enfim sumindo, a dança pôde então lhe acometer. Talvez eu possa afirmar mesmo que a graça de um espetáculo de dança feito a partir de um desejo de “não-saber” esteja em mostrar, tão somente, aquilo que a dança pode fazer.

Atentos a isso, olhamos para a cena: Gracinha entra com uma roupa simples, de ensaio, e enquanto veste uma série de adereços e peças de roupa, passa a falar de coisas da sua vida, de sua infância, da sua relação com a dança e com o trabalho que está encenando. Nisso tudo, tanto no que ela fala como no modo como fala, a dança modifica e é modificada pelas coisas. Podemos ver Gracinha completamente atravessada pela sua dança em duas vias: ao mesmo tempo, pelo que a dança fêz a ela (a dança como ferramenta de autonomia e transformação, pensamento) e pelo que a dança dela fêz (a dança como ferramenta de transformação do mundo).

De forma alternada, depoimentos de Gracinha (que parecem surgir da época de composição do trabalho) são tocados nos alto-falantes do teatro como um aviso de que aquilo que nós estamos vendo tem uma história, que o que estamos a ver não é algo acabado no tempo presente, mas que pra ter certo sentido, evoca toda uma série de camadas temporais da memória e da consciência, não só da bailarina mas do espectador também.

Cantigas populares, brincadeiras de rua, a relação com os pais, a dificuldade em improvisar, vemos Gracinha (com)por suas memórias em cena como quem (com)põe uma dança: a partir daquilo que ela tem, mas sem ignorar o que o outro sabe. Talvez pra nos dizer que por mais incomunicáveis em nossa singularidade que possamos parecer, não há de fato um jeito melhor nem pior de fazer, ou de dançar, ou de entender, apenas diferenças, e o mais importante: esses jeitos de fazer podem se desfazer quando partilhados. Assim na vida e assim na arte.

É dessa maneira que em Graça, improvisação pode virar brincadeira, que o popular pode virar contemporâneo, que a memória de infância pode virar cena. O brilho de Gracinha aos poucos resplandece e quando isso acontece, “tudo é mistério”: não há mais só a brincadeira, nem somente a improvisação. Possivelmente agora não haja nem mesmo a bailarina, tampouco o espectador, em vez disso, uma outra coisa: é que, suponho eu, o que a dança nos faz “desmancha isso tudo” que dançamos (e que somos) em estado de graça e mistério.

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