Minha batalha contra a ‘Polícia do Pensamento’ Transgênero

James Caspian quanto à censura de sua pesquisa sobre pessoas que destransicionam.

Em 2017, James Caspian, um psicoterapeuta experiente, tentou empreender um projeto de pesquisa sobre o fenômeno da “destransição”, isto é, quando homens e mulheres que mudaram para outro gênero se arrependem de sua decisão e tomam medidas para reverter o processo. Mas a Universidade de Bath Spa rejeitou sua proposta de pesquisa alegando que ela era “politicamente incorreta” e “poderia ser ofensiva”. O comitê de ética da universidade disse que a pesquisa poderia resultar em críticas à instituição nas redes sociais.

Desde então, Caspian tem lutado contra a universidade nos tribunais. Esta semana, a Suprema Corte rejeitou a sua proposta de revisão judicial por motivos processuais. Ele planeja apelar da decisão. A revista Spiked perguntou-lhe sobre sua pesquisa e o clima político que levou à censura da mesma.

Spiked: O que fez você querer pesquisar sobre a “destransição”?

James Caspian: Em 2014, eu me encontrei com um cirurgião de Belgrado chamado Dr. Miroslav Djordjevic, que é muito experiente em fazer cirurgias de redesignação de gênero. Ele me contou que havia realizado recentemente cerca de sete cirurgias de reversão de redesignação de gênero. Homens que haviam se submetido à cirurgia genital em outro lugar, mas que se arrependeram, buscaram o Dr. Djordjevic para revertê-la. Mas uma vez que você removeu seus órgãos genitais, não é possível reverter isso. Tudo o que ele podia fazer era uma cirurgia estética para criar a aparência de um pênis e testículos. Desde a nossa conversa inicial, ele fez várias outras cirurgias de reversão e tem pedido publicamente mais pesquisas sobre isso.

Eu vinha trabalhando como psicoterapeuta há 10 anos num ambiente clínico com pacientes que estavam considerando a mudança de gênero ou que estavam passando por ela. Eu estava tratando pessoas encaminhadas a mim por médicos e avaliando se elas eram indicadas para o tratamento. Eu fiquei muito preocupado ao ouvir sobre o fenômeno da destransição.

Fui à Universidade Bath Spa e me matriculei num curso de mestrado em aconselhamento e psicoterapia. A maior parte desse curso envolveria uma pesquisa de minha própria escolha e minha intenção era pesquisar a destransição. Depois de dois anos de aprendizado sobre metodologia de pesquisa, fiz uma proposta para fazer um estudo qualitativo sobre pessoas que haviam revertido a cirurgia de redesignação de gênero. E a universidade aprovou, dizendo que a proposta era boa.

Mas então tive problemas em fazer com que as pessoas falassem comigo sobre suas experiências. Um homem que havia destransicionado me contatou para dizer que eles estavam muito traumatizados para falar sobre isso.

Então fui contatado pela porta-voz de um grupo de jovens mulheres nos EUA. Essas mulheres fizeram a transição para o sexo masculino, tomaram testosterona e muitas delas removeram seus seios. Elas se arrependeram da decisão e reverteram suas transições, mas não reverteram a cirurgia. “Nós apenas vivemos com as cicatrizes”, disseram elas.

Então voltei para a universidade para pedir para ampliar o estudo para pessoas que haviam revertido sua transição, mas sem necessariamente reverter a cirurgia. Mas quando apresentei isso ao comitê de ética da universidade, eles rejeitaram. Eles disseram que realizar pesquisas sobre um assunto potencialmente “politicamente incorreto” (palavras deles) poderia resultar em críticas à pesquisa e à universidade nas mídias sociais. Eu fiquei absolutamente espantado.

Spiked: Por que a pesquisa é tão importante?

Caspian: Há algumas pesquisas antigas sobre pessoas que se arrependeram da transição, mas os estudos são muito pequenos. Alguns deles só analisam 10 pacientes e não são estudos a longo prazo.

Além disso, o campo de gênero mudou bastante nos últimos 10 ou 15 anos. Tornou-se evidente para mim que havia um número crescente de jovens, particularmente mulheres jovens, que estavam fazendo cirurgias e depois se arrependendo — em números que nunca vimos antes. Houve grandes mudanças à medida que o uso da internet, das mídias sociais e dos smartphones se disseminou.

As mulheres jovens com quem eu estava em contato, disseram que foram atraídas para o trans como uma espécie de movimento. Muitas delas descobriram sobre trans na internet. Elas passaram horas online com uma comunidade de pessoas que as acolheu. Parecia excitante, oferecia a promessa de algo que poderia resolver suas grandes dificuldades. Mas é claro que não resolveu. Então, quando elas destransicionaram, essa comunidade as rejeitou.

Chegamos a um ponto hoje em que o trans se tornou uma entidade política e uma declaração política, alinhada com as políticas de identidade e com o movimento de justiça social. Eu converso com muitas pessoas que têm pontos de vista incrivelmente fortes sobre questões trans, a ponto de se tornarem emocionalmente instáveis ​​quando discutem sobre elas. Na verdade, estas tendem a ser pessoas que têm muito pouco conhecimento sobre o que é trans, particularmente o conhecimento clínico. E isso não é bom para a prática clínica segura, porque a conduta é afetada por essa atmosfera política altamente carregada em torno da questão trans.

Spiked: De que maneiras a política trans afeta a prática clínica?

Caspian: Um exemplo nítido é o Memorandum of Understanding on Conversion Therapy [Memorando de Entendimento sobre Terapia de Conversão]. Isto foi concebido para proibir a terapia de conversão para gays e foi ampliado para incluir pessoas trans.

Eu estava no conselho da regulação de psicoterapia quando estava ocorrendo essa ampliação e me pediram para aconselhar sobre o assunto. Quando li, percebi imediatamente que era perigoso. Isso foi influenciado por transativistas que queriam evitar qualquer questionamento sobre a identidade trans autodeclarada.

Eu persistentemente aconselhei que o texto deveria deixar explícito que algumas pessoas destransicionam e que se arrependem da transição. Eu queria que fosse seguro para terapeutas, médicos e assistentes sociais trabalharem com pessoas que queriam reverter a transição. Sob os termos do Memorando, como está, eles podem perder seus registros profissionais. Impediria que os profissionais trabalhassem com ética e segurança com qualquer pessoa que desejasse destransicionar.

A natureza política do Memorando ficou evidente quando alguém escreveu uma carta na revista British Association for Counselling and Psychotherapy (BACP) [Associação Britânica de Aconselhamento e Psicoterapia], emitindo notas de cautela sobre a transição de crianças. Um grupo ligou para a editora da revista dizendo que ela nunca deveria ter permitido que essa carta fosse publicada. A editora se desculpou e outra carta apareceu, dizendo que “o Memorando de Entendimento deixa claro que a afirmação é inegociável”. A abordagem de afirmação para a transição significa que um médico deve afirmar a identidade trans do paciente. Então, aconteceu exatamente como eu havia dito logo no início: que isso poderia levar os médicos a pensarem que precisam afirmar [as identidades trans] sem realmente se aprofundarem no histórico de seus pacientes a longo prazo.

Muitas clínicas nos EUA adotam a abordagem de afirmação. As mulheres com quem conversei que destransicionaram tinham adquirido prescrições de hormônios depois de apenas uma ou duas visitas à clínica [de gênero] e sem qualquer aconselhamento aprofundado ou consideração de sua saúde mental. Algumas delas foram abusadas sexualmente ou tinham histórico de autoflagelo, mas isso não foi explorado no seu aconselhamento.

O que aconteceu foi que os redatores do Memorando trabalharam inteiramente sob o aconselhamento de pequenos grupos ativistas. E o aconselhamento deles é usado no NHS [Sistema de Saúde Britânico], no Departamento de Saúde e no Departamento de Educação, entre outras partes do governo.

Estes grupos trans foram montados inicialmente para garantir que as pessoas que fizeram a transição tivessem direitos civis e legais — e estavam certos sobre isso. No entanto, eles passaram a adotar uma narrativa em torno do transgenerismo, que aparentemente ninguém pode questionar.

Spiked: Que narrativa é essa?

Caspian: Por um lado, há uma narrativa de que a identidade de gênero é neurobiológica — que você pode ter um cérebro feminino no corpo de um bebê do sexo masculino e vice-versa. Para esse fim, há um pequeno número de estudos que tentam mostrar que os cérebros têm gênero, mas há muitos outros que mostram que eles não têm.

A outra narrativa principal, estranhamente, é o oposto dessa e ainda assim está sendo contada ao mesmo tempo. Ela vem da teoria queer. Essa narrativa basicamente diz que o seu corpo é irrelevante — é como você se sente e como acha que é, que é a verdade. Então, se você pensa que é uma mulher, você é. É daqui que vem o mantra “mulheres trans são mulheres”. Essa ideia é evidentemente muito diferente de dizer que o gênero é neurobiologicamente programado no cérebro.

Mas nenhuma dessas teorias tem qualquer apoio científico sólido ou qualquer evidência que seja aceita como consenso. Elas são uma série de opiniões. Todo o assunto se tornou inteiramente político.

Um médico que conheço fez uma lista enorme de razões pelas quais as pessoas foram até ele e se apresentaram como trans. A questão toda é muito complexa e multifacetada. Mas a ideia de que pode haver qualquer razão psicológica para se identificar como do outro sexo, que parece ser a explicação mais óbvia, é a mais rejeitada pelos transativistas. E então não devemos falar sobre isso.

Spiked: O que você diz para aqueles que te acusam de transfobia?

Caspian: Eu fui curador do Beaumont Trust* por 17 anos, que existe para educar as pessoas sobre os trans e para apoiar pessoas trans. Eu trabalhei clinicamente por 10 anos com pacientes submetidos a transições. Eu dei treinamento de conscientização transgênero para os setores público e privado por muitos anos. Eu tenho vivido perto de pessoas trans desde que eu tinha 16 ou 17 anos. Minhas únicas preocupações são a ética, a segurança e a verdade — eu não quero ver tudo ser direcionado pelos desejos políticos das pessoas, porque isso não é uma boa prática clínica.

Quando dou treinamento de conscientização transgênero, conto às pessoas sobre minha experiência clínica, o que são as pessoas trans, o que são as teorias, sobre a política, sobre minha pesquisa, tudo. Depois, as pessoas vêm até mim para agradecer — elas sabem que há um quadro complexo sobre o motivo pelo qual as pessoas fazem a transição, mas não acreditam que possam dizer isso. Algumas pessoas me disseram: “Achamos que não poderíamos pensar nisso”.

Esse é o efeito da “Polícia do Pensamento”.* Sabemos que a polícia verdadeira está entrevistando pessoas que questionam se mulheres trans são mulheres da mesma maneira que as mulheres biológicas. É extraordinário. E é esse medo que impulsionou o veto da Bath Spa à minha pesquisa tão necessária. Eles acham que vão ser acusados ​​de ódio ou transfobia.

Tradução: Bianca

Matéria original (in english): Spiked

*Beaumont Trust é um centro de caridade educacional para médicos, voluntários e leigos que procuram aprender mais sobre Disforia de Gênero e assuntos relacionados com transgêneros.

*Polícia do Pensamento (Thought Police): No livro 1984 (1949), de George Orwell, a Polícia do Pensamento é a polícia secreta do Estado, que descobre e pune pensamentos pessoais e políticos não aprovados pelo governo. A polícia realiza uma vigilância onipresente através de telescópios, microfones e informantes para procurar, localizar, monitorar e prender todos os cidadãos que cometeriam crimes de pensamento.

Mulher preocupada com direitos de mulheres e crianças. PS: if you are an english speaker, you’ll find the original articles in english at the end of the posts.

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