ode ao estranho

É difícil ser um racional e um romântico ao mesmo tempo. É difícil brincar sobre como toda comédia romântica tem o mesmo mocinho e a mesma mocinha e se pegar se projetando neles. É difícil calcular o amor ou o simples ato de exagerar em amar, de ter oxitocina demais, de transformar hormônio na vontade de amar ou consequência do mesmo. E, assim, brigando com meu outro lado, me pego pensando em você. Ou penso em você e acabo brigando comigo.
Sua figura é esquisita, eu sei disso porque meus amigos insistem nisso toda vez que digo que a maneira que seus olhos comprimem enquanto você me dá a honra de ver todos seus dentes bonitos me traz energia como se eu fosse a Islândia — um pedaço de terra de crosta fina em cima do encontro de duas das placas tectônicas mais ativas do mundo.
Seus ombros são caídos e sempre encolhidos, curvados como se esquivassem da mesquinhez abundante que construíra as paredes de todas as conversas superficiais de corredor, daquelas conversas sobre como a frente fria está chegando e quem pegou quem na última festa. Uma vez você me disse que essas conversas da boca para fora de corredor da escola não são seu forte, que sempre que pergunta alguma coisa e fala alguma coisa é porque você quer perguntar alguma coisa e falar alguma coisa; e devo admitir que deste então tenho isso em mente toda vez que conversamos e você me pergunta como eu estou.
A cada conversa que monopolizamos apenas para nós mesmos sinto como se ficávamos mais perto do fim de algo que nunca aconteceu. Você é tímido demais, estranho demais, desajeitado demais, dentro da sua cabeça demais.
Eu, por outro lado, sou formada de frações nunca preenchidas de emoção racionalizada, sou pura timidez e pura vontade de falar tudo que penso, sou pura estranheza mas capaz de reger todas aquelas conversas protocoladas de ponto de ônibus e salas de espera, cada coceira na minha mão era uma parte de mim que existia apenas em minha cabeça e parte de mim que existia apenas fora de mim (não coexisto comigo, descobri que sou uma péssima companhia para quem eu não conheço — eu mesmo).
Seus olhos se escondem atrás das lentes dos óculos, envergonhados por dividir espaço com tantas bilhões de pessoas que nunca te entenderão. E quando não se camuflam atrás dos óculos de haste cor de carvão se protegem com seu DS, tu ergues o console diante de seu rosto como se fosse capaz de bloquear qualquer olhar curioso ou distraído, capaz de bloquear qualquer raio solar que tomasse como missão tocar no órgão cor de bronze que envolve todos os seus ossos.
Gostaria de dizer, só pelo simples motivo de soar mais poético e mais apaixonado, que gosto de seus fios solitariamente aleatórios (ou aleatoriamente solitários) de barba por fazer em suas bochechas e queixo. Entretanto eles me lembram que você não é todo mundo.
Se bem que não há melhor lembrete para isso se não escutá-lo contar suas piadas cheias de potencial, mas nenhum carisma do locutor. Nunca irei contar à você mas só rio porque te achei uma gracinha desde o início, desde a primeira palavra de sua série de gaguejos e “ahmm…” propagados com um sotaque italiano de uma cidadezinha da Sicília com palavras que só escuto saindo de sua boca (sempre misturando idiomas).
Como o racional pessimista que sou, eu diria que isso é oxitocina em excesso, que todo relacionamento acaba — em morte, término ou divórcio — e que relacionamentos em sua definição mais pura são apenas investimentos sociais ou para pura satisfação primordial selvagem.
Um ano depois, reedito este texto com um tom nostálgico da certeza da solução final. Me sinto como uma criança lendo um livro de trás para a frente, sei o desenrolar e sei o fim. E o fim é o fim! Existiu um fim.
Toda essa baboseira foi passageira, da mesma maneira que nossos elétrons se repeliram todas as vezes que seu joelho encostou no meu.
