Preciso falar sobre “13 Reasons Why”

Eu pensei várias vezes se deveria ou não escrever esse relato, com receio de talvez, estar me apropriando de uma história que não é a minha, de uma dor a qual eu não tenho direito. Mas, depois de muito refletir tenho a certeza que essa é a minha história.

Quando a Netflix liberou a temporada de 13 Reasons Why eu sabia apenas o básico: ela era produzida pela Selena Gomez, baseada em um livro e falava sobre ‘uma garota morta’.

Mal sabia que ela dominaria o meu final de semana.

A série conta a história de Hannah, uma garota que ao se suicidar, deixa como “legado” 13 gravações com os motivos que a levaram a essa decisão. Como uma lente de aumento sobre o que acontece nas escolas, 13 Reasons Why mostra como as pequenas coisas minam a vontade que alguém tem de viver.

Poucos sabem mas, eu sofri bullying na escola. Foi no primeiro ano do colegial, o ano que deveria ser o início do auge da minha adolescência. Uma fofoca maldosa, que deu fim a uma amizade de anos (assim como a de Hannah e Jesse) e me fez ser alvo de adolescentes cruéis que me excluíram e humilharam durante um semestre inteiro (até eu trocar de colégio). Apesar de já ter perdoado todos aqueles que me fizeram mal, confesso que, sofro até hoje com as consequências das atitudes maldosas daqueles adolescentes. Mas, essa não é a história que eu quero contar hoje.

Em 2015, eu perdi um colega de classe. Ele, um jovem incrivelmente talentoso, bonito e cheio de vida que se suicidou nos trilhos do metrô. Nos cumprimentávamos todos os dias, as vezes falávamos trivialidades sobre o tempo ou nos ajudávamos em trabalhos de classe, mas não fazíamos parte do grupo de amigos um do outro, pois nós éramos muito diferentes, tínhamos crenças e maneiras diferentes de ver o mundo.

Apesar de não sermos “amigos” a notícia da sua morte me marcou muito, fiquei abalada por vários dias. E confesso que, nos meses seguintes eu fazia os trajetos mais mirabolantes possíveis para evitar a estação do metrô que ele havia se jogado. Muitos podem achar que eu não tinha o direito de me sentir assim. Afinal, ele nem era meu amigo.

Por meses — e vira e mexe — eu me perguntava se eu poderia ter feito algo que talvez fizesse as coisas serem diferentes. Se ao menos eu tivesse perguntado um dia como ele estava, se ao menos eu tivesse tentado me aproximar, muitos “se” rodeiam a minha cabeça até hoje.

Ao assistir “13 Reasons Why” meu coração se despedaçava a cada episódio pois imaginar que, talvez, na percepção do meu colega, em algum momento da sua vida eu tenha sido um dos personagens daquela história, um dos motivos que o levaram aquela decisão ou pior perceber que talvez eu tenha sido um daqueles coadjuvantes que nunca foram os vilões, mas também nunca fizeram nada significativo o suficiente para merecer o destaque ao lado do mocinho é assustador.

Talvez eu poderia ter me importado mais, ter demonstrado mais àquele colega o quanto ele era importante, ter deixado as diferenças de lado e “amado mais ao próximo como a mim mesma”. Talvez essas minhas atitudes fizessem a diferença, ou talvez não. Isso é algo que eu nunca conseguirei responder.

Mas, uma coisa é certa. Eu sei que daquele dia em diante eu comecei a ter mais empatia pelo próximo, principalmente àqueles que são, vivem e pensam diferente de mim.

No Brasil, entre as mortes por fatores externos (o que exclui doenças), o suicídio fica atrás apenas dos homicídios e acidentes de trânsito. Em jovens ele já mata mais que o HIV e segundo a OMS “ as tentativas de suicídio de (em jovens) estão muitas vezes associadas a experiências de vida humilhantes, tais como fracasso na escola ou no trabalho ou conflitos interpessoais.

Precisamos falar sobre o suicídio, melhor, precisamos fazer algo sobre o suicídio! E precisamos fazer isso hoje! Não desejo que ninguém tenha que passar pela perda de um amigo ou colega para começar a pensar sobre isso.

Então eu peço:

Pais, conversem com os seus filhos, ouçam o que eles tem a dizer sem julgamentos, não menospreze os sentimentos deles. E não abram mão dessa tarefa que foi dada a vocês (a criação) por eles não pensarem ou serem como vocês esperavam.

Amigos, vamos nos colocar mais no lugar do outro. Eu sei, que somos jovens e temos o mundo ao nosso alcance e que é muito fácil focarmos nos nosso objetivos e em viver intensamente as nossas conquistas. Mas, muitas vezes enquanto você vive a melhor época da sua vida, um amigo pode estar precisando de você. #NãoSejaUmPorque

Cristãos, saiam de suas bolhas, mas deixem o seu julgamento dentro dela. As pessoas precisam de nós, do nosso amor, independente delas acreditarem ou não no que acreditamos.

Seres humanos, assistam “13 Reasons Why” com o coração e mente aberta, pois ela tem o potencial de mudar a sua vida.

PS: talvez esse não seja um dos meus artigos com mais linearidade e estrutura, mas, com certeza é um dos mais honestos e escritos com o coração.

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