Brasil, um país sem cone de luz

Todos nós ficamos estarrecidos pelo incêndio do museu Nacional ocorrido ontem a noite. Eu trabalhei não muito longe dali por 6 nãos, e o visitei uma vez há 20. Era um ótimo passatempo para crianças e famílias suburbanas cariocas, pois fica localizado perto da estação de trem e metrô, e próximo ao centro da cidade. Seu acervo era (dói falar isso no passado) formidável, reunindo o fóssil mais antigo já encontrado na América Latina, desde fósseis de dinossauros, documentos históricos importantes, meteoritos etc. Poucos museus no mundo possui tudo acervo, e foi quase tudo embora num piscar de olhos neste último domingo.
Claro, quando ocorre uma tragédia dessas, busca-se logo o culpado. O culpado maior, pelo que vi na minha timeline, foi o neoliberalismo que deixou o museu totalmente abandonado a própria sorte. Muitos culparam também a gestão atual do presidente Temer e sua política de contenção de gastos que, claro, recai especialmente sobre instituições de ensino e pesquisa — nunca nos bolsos da alta casta política, sofrendo com os piores orçamentos em décadas. A reitoria da UFRJ, por sua vez, culpou os bombeiros. E pior: soube-se que teve, sim, dinheiro liberado para reforma do museu em 2014, mas nunca viram a cor dele!
Enfim, todos estes “personagens” tem, de fato, a sua parcela de culpa nessa tragédia. Não ponho isso em cheque. Mas meus dois centavos aqui:
- Dizer que o problema se deve ao Temer e sua PEC de contenção de teto de gastos, pra mim, é reduzir o problema a uma só figura. Sim, ela é uma das principais culpadas, mas o descaso vem de longa data. Talvez desde sempre. Nenhum presidente após o Juscelino visitou o museu (antes dos meus pais nascerem!), e o orçamento já estava minguado em 2014. Em 2004, já havia alerta que o museu iria pegar fogo. Veja bem, que “iria “pegar fogo, não que “poderia “. Era tragédia anunciada, mas esperaram acontecer de fato para tomar atitude. O choro agora é tarde demais. A 2a lei da termodinâmica é cruel.
- O orçamento de 2014 do museu foi de pouco mais de 400 mil reais. Ou seja, muitos juízes receberam mais do que isso ao longo do mesmo ano, e ainda recebem. Em 2014, tivemos copa (lembram do meme “não vai ter copa?” parecem agora um sonho distante já muito enterrado né?), onde alguns estádios como o Mané Garrincha, em DF, custou 1 bilhão aos cofres públicos, e sua manutenção mensal chega perto de 1 milhão. Tudo isso ordens de grandeza superior ao orçamento do museu Nacional. Ou seja, o governo brasileiro sempre teve as suas prioridades definidas muito bem — spoiler: essas priorodades nunca foram a ciência, cultura e preservação de sua memória. Mesmo nos ditos anos dourados do PT, onde de fato o investimento nestes setores foi maior, pouco foi feito pra salvar o museu e investir em um plano de desenvolvimento científico a longo prazo. Não a toa, quando a crise bateu as portas e a crise econômica explodiu, ficamos todos a míngua.
No frigir dos ovos, perdemos 200 anos de nossa cultura e historia. Sem apreço ao passado, nunca teremos futuro, ou estaremos fadados a repetir o mesmo erro sempre. Isso já vem acontecendo, aliás — só ver o candidato que lidera intenções de votos a presidência, e o número de pessoas que apoiam o “fim da democracia como um meio de combater violência e melhorar a sociedade brasileira”. Muitos cientistas e pesquisadores alertaram do risco eminente que o museu Nacional sofria, e nunca of ram ouvidos. Muita gente (porém poucos, ainda) tentou alertar também sobre ideias pseudocientificas e conspirações malucas, como antivaxx, nova ordem mundial etc mas não adianta, nunca foram ouvidos. Eu mesmo ouvi da minha família que não passo de um doutrinado de esquerda que defende “ideologia de gênero”, “comunismo”, e que eu destruí o Brasil com minhas ideias (???), logo, só uma ditadura militar vai salvar o que eu fiz (???). Porém, sofremos da síndrome de Cassandra: só estamos de fato nos manifestando de maneira clara e alta agora, tarde demais.
Infelizmente, só consigo ver o Brasil como um país sem passado, sem rosto, de onde eu saí há 19 meses em busca de um melhor trabalho e melhores condições de vida e, pelo andar da carruagem, não poderei retornar até que um dia eu queira, pois foi tudo sucateado e devastado.
