The perks of being a recently-turned postdoc researcher

Ano passado, publiquei dois textos aqui no medium com títulos semelhantes a deste aqui. Um deles data do final de Junho, enquanto o outro data do começo de Dezembro, logo, marcando a época em que comecei a me dedicar à minha tese de Doutorado e a época que estava próximo para defendê-la, respectivamente. Um deles mostrava as dificuldades intrínsecas de seguir carreira no meio acadêmico ainda mais em países de economia frágil, como a brasileira, mas que a beleza revelada a produzir conhecimento sobre o mundo (e o Universo, no meu caso) que vivemos compensava. Por sua vez, o outro texto foi escrito sob a luz da exaustão pós-183 páginas de texto e dificuldades financeiras/logísticas da época, por isso exalava certo desânimo quanto a todo este cenário ainda que a conclusão final fosse a mesma. Aqui, pretendo condensar e remodelar estes dois textos, tendo como objetivo final dar uma ideia sobre o que penso e faço (e por que faço isso), servindo assim como uma introdução para os temas que pretendo discutir (bem-estar no meio acadêmico, minha área de pesquisa e adjacências, dicas pertinentes sobre a carreira no mundo da pesquisa, "rants" diversos etc) neste espaço daqui para frente.

Em todos esses anos nessa indústria vital, poucas vezes me deparei com alguém que não se dissesse maravilhada com a beleza do Universo através dos documentários do Discovery Channel sobre buracos negros, galáxias, Supernovas etc, ou de livros de divulgação como esse, bem como a figura emblemática de alguns cientistas como o Stephen Hawking. A natureza fascina a nós desde épocas remotas e a ciência provê, talvez, o melhor método para compreender, quantificar e desvendar os seus segredos, baseando-se na testabilidade das hipóteses via realização de experimentos. Pode ser que as interpretações destes experimentos leve a conclusões equivocadas, mas pode ser que elas acertem em outras ocasiões. Ainda quando as conclusões estão erradas, aprende-se algo.

A vida de pesquisador, contudo, não é tão bela como se apresenta nos documentários e entrevistas. Muitas horas debruçados em artigos impenetráveis por serem densos (ou simplesmente mal escritos), além de muitas outras horas de tentativa e erro em cálculos que parecem nunca ter fim, em códigos computacionais repletos de bugs, ou repetindo experimentos minuciosos em laboratórios que podem pôr a risca até sua integridade física. Isso quando a pessoa já se encontra num Doutorado, vale notar. Antes disso, pelo menos no Brasil, são pelo menos 5–6 anos “amassando barro” com aulas e provas das mais difíceis durante a graduação, muitas vezes sob a augura de professores “carrascos” e descompromissados com seu trabalho (obviamente não são todos, mas estes são os que mais atrapalham). No total, passa-se aproximadamente 1 década até a pessoa obter seu Doutorado, década essa movida a muito café, insônia, imagens de dor e sofrimento etc.

Pensa que acabou? Nada! Depois disso, vem a luta para conseguir uma bolsa de pós-doutorando (ou post-doc) em alguma instituição, visando assim incrementar seu curriculum e rede de relacionamentos, tendo como objeto final uma posição oficial de pesquisador/professor em alguma universidade ou centro de pesquisa. Muitas vezes, a pessoa leva 5 a 10 anos como pós-doc até conseguir tal vaga. Com isso, pode-se levar até 15 a 20 (!!) anos para a pessoa obter o seu "primeiro emprego" desde o momento que a pessoa ingressa na universidade, enquanto em muitas profissões o tempo médio é até 4 vezes menor. Nesse meio tempo, a pessoa pode ter que se mudar inúmeras vezes de cidade (ou mesmo de país!). Sem dúvidas, excelente para quem é aventureiro, mesmo sob a ansiedade do sentimento "what's next?!". Para quem deseja maior estabilidade ou constituir uma família, por exemplo, isso é bastante problemático.

“Só” isso? Calma, tem muito mais. Como muitos assuntos pesquisados na ciência não possuem aplicação direta na indústria, cabe apenas ao estado financiá-los, usando do argumento de que desenvolvimento científico garante um retorno não-lucrativo a sociedade na medida que se produz conhecimento através desses investimentos. Como se fosse um bem comum a ela, vamos dizer assim. Mas todos sabemos que esses recursos são limitados, ainda mais em países mais pobres e com instituições frágeis, a exemplo do Brasil. Logo, tais investimentos são muito sensíveis às mudanças de humor das pessoas no poder, cujos interesses se concentram recursivamente na manutenção desse poder independente da bandeira política que levantem (sim, isso mesmo, pensar o contrário disso no Brasil é um equívoco, ao meu ver). Sendo assim, em épocas de crise econômica, como a que assolou o hemisfério norte em 2008–2009 e o Brasil de 2014 para cá, tais investimentos são os primeiros a serem cortados justo por serem “invisíveis” a população, ainda que o produto advindo deles fascine tanto as pessoas e seja importante para o crescimento da economia e sociedade. Porém, como quantificar e mostrar o impacto direto da ciência básica nisso? Ele existe, inegavelmente, mas difícil determiná-lo e mais difícil ainda garantir que o investimento injetado nesse setor de pesquisa & desenvolvimento dê retorno imediato e consistente. Ainda mais sob a lógica perniciosa do "publish or perish" que garante este financiamento (o que será tema de outra postagem, em breve…)

Sendo assim, pode-se concluir que fazer ciência no Brasil exige não só dedicação extrema e capacidade analítica fora do comum, como de praxe do ofício, mas “cojones” dos mais fortes a fim de enfrentar instabilidades quanto ao seu modo de fomento que, mesmo quando vem, é muito limitado, logo levando pessoas a trabalhar em condições bem precárias: internet instável, laboratórios defasados (ou simplesmente disfuncionais porque não possuem o básico de infra-estrutura), salas de aula com instalações precárias, computadores antigos “refurbished” ou nem isso (alguns ex-colegas meus utilizam máquinas com quase 10 anos de fabricação, logo, com configuração de hardware inferior a muitos smartphones e tablets modernos!), dinheiro limitadíssimo (quando há!) para viajar a congressos a fim de traçar rede de relacionamentos. Em cenários assim, muitos desistem dessa vida e partem para outras profissões, enquanto alguns saem do país em busca de melhores condições de trabalho lá fora, fenômeno este chamado de "brain drain".

Do meu lado pessoal, os últimos 6 meses do meu Doutorado foram extremamente difíceis. Todos os fatores que discuti acima se somaram ao desgaste emocional e físico destes 3–4 meses de pesquisa incessante a fim de escrever minha tese de Doutorado, ou seja, o produto final de quase 4 anos de financiamento. Tudo isso agravado pelas dificuldades financeiras que assolaram o Brasil no último par de anos, além da famigerada síndrome do impostor, a qual ficou particularmente intensa pela ânsia de entregar um produto não menos do que excelente haja visto que tinha conseguido uma bolsa de pós-doc no exterior (agora me encontro na Cidade do Cabo, África do Sul). Ainda sofro de insônia, ocasionalmente, em decorrência desses tempos. Certeza que não sou o único a ter enfrentado situações assim ou até piores, como bem mostra esse artigo. E certeza, também, que os cuidados com a saúde mental dos estudantes e pesquisadores é pouco discutida, isso quando não é totalmente relativizada e reduzida a simples "frescura" por pessoas do meio e fora dele. Afinal, como diz aquela famosa frase, "você é só estudante! Não trabalha ainda! Então, como pode alegar stress e tantos problemas assim?!"

No frigir dos ovos: vale a pena fazer ciência (ainda mais em países em desenvolvimento)? Para mim, ainda que não esteja com uma saúde 100% devido a todo esse esforço aplicado ao longo desses 11 anos desde o meu ingresso a Universidade, onde 6 deles tem sido dedicados a fazer alguma pesquisa, e mesmo com retorno financeiro muito limitado, eu digo: sim, muito. Faria tudo de novo, se fosse possível. Tem dias que eu responderia "não!" a essa pergunta (tipo anteontem), mas no fundo eu sei que a resposta final é sim. Paixão? Masoquismo? Teimosia? Bom, eu acho que é uma combinação não-linear desses três elementos e, talvez, de outros mais…