Corda bamba.

Algumas pessoas, como você, falham em fazer escolhas autônomas envolvendo a própria vida. A vida alheia? A um pedido carinhoso, você é capaz de escrever uma monografia. Deixando-se levar pelas influências do mundo ao seu redor, você fingiu que não. Você agiu como quem quer tudo, mas na verdade não tem ideia do que está fazendo. Você escolheu seu curso na faculdade baseado nas reações dos seus colegas de escola (os quais você sequer vê), você escolheu estudar finanças, mas queria era escrever poesia. Dois anos de faculdade e você já não aguenta mais, sua vida passando pelos seus olhos como se estivesse, de fato, entrado em um tobogã de parque aquático com um só destino: o “mar” aberto de perdição interna infinita.

Você pode trabalhar, seus pais têm contatos dentro de empresas importantes; você nem precisou circular os classificados do jornal. Você quer ganhar dinheiro, mas não quer trabalhar. Não nessa tal empresa, não nesse tal lugar. A cada dia que passa você odeia mais as pessoas com quem divide a sala de aula. Os comentários na rede social das setas azuis te enojam. Você não gosta deles.

Dois anos e você descobre que odeia estar ali, odeia estudar isso de mercado financeiro. Mesmo assim, você continua sendo aprovado em todas as matérias. Você sai com seus amigos e enxerga em seus sorrisos uma satisfação que você não sente. Ou seria só uma ilusão? Será que, por fingir, você também está passando uma sensação de falsa felicidade em cada amostra de dentes? Você não sabe, não tem como adivinhar. E você não vai perguntar, com medo da descoberta. Você ignora o pensamento, ignora a sensação de angústia crescente.

Ás vezes você se pergunta se tem coragem de deixar tudo para trás. A vida é tão cruel com quem faz o que quer sem titubear. Não vale pensar naquelas exceções, você duvida que faça parte do grupo. Disso você não tem certeza, mas te contaram desde que você entrou no primário. Você cresceu com esse medo de não ser ninguém na vida, de perder o prazo de validade para certas realizações. De ser o único a fracassar.

Você aprendeu que está correndo contra o tempo.

A vida não deve ser vivida, ela deve ser planejada. Ninguém te diz isso nessas palavras, e o contrário você sempre lê nas páginas da rede social ao lado. “Ora, mas por que se preocupar tanto? A vida é pra ser vivida.” Você respira, aliviado, mas então percebe que a mesma pessoa que compartilha disso também está correndo contra o tempo. É tudo uma ilusão de ótica. Uma piada de mal gosto. Todos vivem no mesmo mundo com você. Todos eles. Nenhum a menos.

E então você segue vivendo um impasse, em cima de um muro que ás vezes oscila sob seus pés. O relógio faz o tictac incessante, o suor desce pela testa, numa literal corda bamba.

Você pode escolher pular para um dos lados, mas você não pula.

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