O Menino de Cá

Aconteceu em 2004, eu tinha dez ou onze anos, não lembro. Estava na 4ª série (5º ano). Curiosamente, enquanto todos meus colegas tinham corrido para passar seus últimos 20 minutos de vida (recreio) fora da sala, eu permaneci ali. Até mesmo os colegas que não suportavam correr, suar, ou socializar, não estavam na sala. Era meu dia.
A professora também permaneceu na sala, ela nunca saía da sala. Lembro o nome dela, Mivla — Alvim de trás para frente, o nome do pai, como ela se gabava. Havia uma contenda entre a turma da manhã e da tarde. A “tia” da manhã era sensivelmente melhor que a “tia” da tarde, falavam. Eu nunca constatei isso. Às vezes, quando as turmas se juntavam, era possível notar que as duas professoras tinham duas maneiras diferentes de lidar com seus alunos. A da manhã era mais meiga, fazia aquele ar de mãe de todos. A da tarde — a Mivla — era mais séria, mas não rancorosa. O trato era diferente, mas tinha algo em Mivla que eu só havia visto em poucas pessoas no alto dos meus quase 11 anos muito bem vividos. Ela carregava um peso, eu não sei qual era, talvez a postura denotasse um arqueamento natural, mas me parecia que levava um peso inconsciente, que a qualquer momento poderia fazê-la cair.
Porém, ela seguia firme. Todos dias estava na aula, ensinando aquelas coisinhas para crianças irrequietas. Além disso, a tia da tarde era muito paciente. Todas as vezes que alguém não entendia algo, ela se prontificava a repetir dez vezes. Uma paciência que outras professoras não tinham. Levei isso para a vida.
Retomemos ao dia em que não saí da sala. Não me lembro o porquê, talvez eu estivesse sem merenda, talvez fosse hora de aplacar minhas dúvidas, eu não sei. Fiquei na sala, olhei para a cara séria de Mivla encarando uns papéis aleatórios, tomei fôlego e fui até sua mesa.
– Posso fazer uma pergunta? — perguntei com a voz fina.
– Oi, pode sim. — respondeu na mesma hora, acho que os papéis estavam enfadonhos.
– Como posso ter certeza de o que você está vendo é a realidade? — perguntei tirando a dúvida da minha alma.
Ela me olhou com uma cara de espanto, coitada. Que diabo aquele menino de 11 anos estava fazendo dentro da sala de aula, numa tarde ensolarada, enquanto todos os colegas estavam do lado de fora brincando de “polícia e ladrão”?
– Como assim? — ela perguntou para tomar tempo.
– Como posso ter certeza de o que você está vendo é a realidade se não vejo as mesmas coisas que você? — repeti para que ela não se esquivasse novamente.
– Assim… é… — gaguejou. Quase viro as costas, era melhor deixar para lá — a gente… é… cada um é diferente um do outro. Cada um vê as coisas de uma forma diferente, mas eu vejo e você também, não é? Não vemos as mesmas coisas?
Ela estava quase lá. Mas eu só fui entender isso depois de muito velho.
– Sim, mas como posso ter certeza de que o que você está vendo é a realidade? Eu não sei o que você está vendo. Eu não sei como você está vendo — eu estava irredutível.
– Mas é isso: como todos nós somos diferentes, cada um vê as coisas separadamente. Ninguém pode ver tudo igual. Estamos vendo as mesmas coisas, não estamos?
Bingo.
– Não sei.
– Não sabe? Diz o que você está vendo! — ela largou a caneta. Ia dar um xeque-mate.
– Vejo você, uma sala, as coisas todas… — respondi confuso.
– Então! — ela disse ofegante — eu vejo as mesmas coisas.
– Mas eu não vejo o centro da cidade. — dei a volta. Ela parou e olhou para mim sem entender.
– Como assim?
– Eu não vejo o centro da cidade. Como pode ser real se eu não o vejo? Eu não estou lá. Como o centro da cidade pode existir se eu não compartilho isso? Mas ainda assim eu sei que ele existe. Mas eu não sei o que está acontecendo lá. Minha mãe pode estar no centro, ela pode estar em casa. Mas mesmo assim ela está em algum lugar, longe dos meus olhos, mas ainda vive, e eu não sei onde ela está e se é real.
Ela arregalou os olhos. Eu dei um passo para trás. O sinal tocou. Meus colegas voltaram fazendo barulho.
– Mas assim, Iuri. Ela vê, ela pode ver, você também pode. Tudo isso existe. — ela levantou e colocou a mão no meu ombro — agora vá sentar — me conduziu até meu lugar e deu início a aula.
Ninguém sabe o que essa conversa me causou. Eu passei por anos com aquelas dúvidas em minha mente. A pergunta daquela criança era: como um mundo pode existir sem a minha experiência? Como posso ter certeza de o que você está vendo é realidade se não compartilho dessa experiência? Mais: como posso ter certeza que você é real se duvido do que você vivencia?
Esse era meu demônio. Depois desse dia eu comecei a duvidar da realidade. Nada era real, as pessoas ao meu redor não eram reais, minha família não era real, o chão que eu pisava não era real.
Faltou um tanto para eu não ficar louco. Mas a dúvida permanecia. Eu achava que tudo, exatamente tudo, havia sido colocado nos lugares para a minha experiência. Meus pais, minhas tias, minhas avós, meus amigos, tudo estava posto para a minha satisfação. Havia uma verdade maior que estava além da minha compreensão, era uma verdade que arquitetava aquilo para minha própria experiência.
Eu não suportava o peso da individualidade. O mundo não compartilhado comigo não existia, pronto. Ademais, tudo o que eu via e sentia só existia na medida em que era para me satisfazer. Ora, se eu não vivenciava o mundo do centro agitado da cidade, era porque ele não deveria existir para mim. Eu me sentia, grosso modo, como Truman Burbank em O Show de Truman. Tudo não passava de uma vaidade, tudo era irreal, era um faz de conta montado.
Talvez outros indivíduos compartilhassem as mesmas dúvidas. Talvez outros micro espaços fossem feitos para outras pessoas, inúmeras possibilidades, inúmeros cenários, somente essas pessoas eram reais, como eu era; o resto era descartável.
Muito tempo depois voltei a esse diálogo para, enfim, explaná-lo aqui. Eu era, no fundo, um maldito. Não compreendia que a individualidade acarretava, também, um peso, e eu tomava um susto todas as vezes que percebia que meus pais tiverem juntos uma história antes da minha existência, nada daquilo poderia ser milimetricamente programado. Ou poderia ser? Era uma paranoia.
Com o tempo, fui me acostumando com a realidade ao meu redor. “Se não vejo, não quer dizer que não exista”, eu me confortava.
Passei muito tempo assim, me confortando, respirando um ar cheio de lembrança.
“A gente não vê quando o tempo se acaba”, disse Maria antes de morrer, a menina de lá de Guimarães Rosa.
Essa foi a minha primeira metanoia de muitas.
