[Boeing 737–800]

Senta aqui, menino, que eu tenho muito a te contar. E eu sei que eu falo muito, mas tem coisa que eu não digo, que eu escondo, que eu nem sei pra onde vai.

Mas senta aqui. Só mais um pouquinho, senta aqui.

Não, não é fácil ficar. É mais fácil partir, não vou mentir. Porque construir o eterno da trabalho. Presta atenção, menino de concreto. Que o que é pedra, é duro, é estável, mas não é eterno. Eterno mesmo, existindo desde que o planeta foi criado, só o mar. E de estável ele não tem nada, ele é confuso, é maleável, vai e vem, fica calmo, fica nervoso. A gente nunca sabe do amanhã.

Mas é eterno, o mar. É difícil, mas dura muito mais.

Sabe, menino, eu tenho dentro de mim o mar. Nasci nele e passei a vida tentando aprender a nadar. Mas tem dia que o mar é revolto, que as ondas são grandes demais, que até eu enjoo. Porque eu aprendi a nadar em maré mansa, não em maremoto.

E eu sei que você não vive aqui. Eu sei que você não entende do mar. Mas eu te peço pra ser praia. Pra ser terra, pra ser firme. Pra aguentar mais um pouquinho que toda maré braba tem fim e uma hora volta a ser branda.

Senta aqui, senta. Só mais um pouquinho.

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