Davi, o rei
Davi parado em frente à torre. Longe de ser a de um antigo castelo, na verdade a construção está mais para uma as sobras de uma Fortaleza quase morta, engolida por arranha-céus, avenidas largas e desejos muitos, todos desencontrados. A torre atrás de Davi era pequena, três andares, muito antiga, cheia de histórias, algumas nas bocas dos que um dia entraram ali, outras estampadas nas paredes pelos pixos e rabiscos.
Outra história estava prestes a ser contada, ali, diante de Davi, em frente à torre.
Deságuo em angústia. Conto a ele cada dor, cada anseio que puxa meu pé no meio do sono, que não para de repetir que meu destino é perder, ficar só, sem nada a não ser um punhado de histórias que eu já cansei de contar.
Conto a ele que tem alguém. Um homem, que carrega de mim um punhado grande de afeto, mas que me deixa aqui num cerco de angústia. Revelo que quero vê-lo feliz, mesmo longe do que eu acredito ou da minha lógica. Mas a companhia, que deveria ser uma forma de esquentar as noites, na verdade me tira o sono. Sinto-me obrigado a remoer aquele sentimento maldito, provavelmente fruto de uma maldição que nem lembro quando caiu sobre mim.
“Eu quero ele livre e também me quero livre”, explico.
Mas pode alguém usufruir da leveza de uma jangada, que flutua pelo mar, sem correr o risco de afundar?
“Não sei se sou capaz”, assumo. “Sei que quero”.
Quero porque meu desejo é vê-lo em toda a expressão possível. Tudo que gosto e tudo que detesto nele fazem, no fundo, parte do que o compõe. E é isso que eu quero, ele por inteiro, todo perfume e todo fedor. Meu tesão é pelo complexo caminho da descoberta do outro e, de alguma forma, encontrar a mim.
Davi parado em frente à torre. Escuta como o rei que atenta às necessidades do seu povo. Mas diferente dos monarcas, ele não dá ordem. Abre a boca apenas uma vez e, com poucas palavras, silencia as minhas questões:
“Isso que você me diz é muito bonito. Isso de querer entender o outro, mesmo discordando. Daqui, parece amor”.
