A arte do encontro


Perdi minha mãe para o câncer onze dias depois de completar doze anos. Pra mim, mais uma prova de que os presentes que a vida guarda para você nem sempre são dos melhores. Lembro que eu estava na casa de minha madrinha, com uma prima. Desenhávamos e ríamos sobre uma coisa qualquer. Minha madrinha chegou em casa, com um outro primo meu, de segundo grau, a quem, pela diferença de idade, convencionei chamar de tio. Sentaram-se, narizes avermelhados, ombros pesados, como se carregassem o peso do mundo nas costas. Soltaram a bomba o mais delicadamente possível: depois de intermináveis semanas — meses? — na UTI, finalmente havia acontecido.

Chorei quase que instantaneamente, com o delay característicos desses baques violentos. Chorei bastante. A cabeça amparada pelo colo da minha prima, cheia de pena e lágrimas nos olhos. Olhava para eles na esperança ingênua de que voltassem atrás, que me dissessem que era um grande engano. Não voltaram. Pareciam envergonhados de serem eles a me darem a notícia. O peso do mundo que carregavam era o meu, que, naquele momento, desmoronava aos poucos.

Lembro do enterro. Lembro que, novamente, chorei. Lembro que todos choravam. Diante daquela perda, chorei mais do que na minha primeira, a da minha avó, dois anos antes. Depois disso, não lembro de ter chorado pela morte da minha mãe muitas vezes. Não falo isso para parecer forte, mas sim por ser a verdade. Ou pelo menos a parcela dela que a minha memória resolveu guardar. A tristeza, diferente daquelas homéricas que eu via nos filmes, não demorou tanto a passar.

Dez anos depois, nunca sonhei com ela. Não que eu me lembre. Algumas pessoas se espantam, olham estranho. Mas nossa, nem uma única vez? Não. E por muito tempo não me sentia bem a respeito disso. Até entender que eu não era obrigado a sonhar, a ficar triste. Não existe um manual do luto. Não que eu saiba. Cada pessoa guarda a sua dor, ou a ausência dela, de forma diferente.

Cada pessoa lida com as perdas ao seu modo. Não só a perda da morte, mas de um emprego, de uma amizade, de um bom livro, o fim de um relacionamento. E é exatamente aí que reside a beleza da coisa.

Dizem que a vida é a arte do encontro. Verdade. O que deixam de nos contar é que essa arte só é possível graças a uma outra, menos quista: a da despedida. Nenhum encontro é eterno. E, acaso fosse, de que valeria? A morte da minha mãe não foi a minha primeira perda. Sei também que não foi a última. Outras vieram e continuarão a vir, sem parar. Ainda bem.