Sentimental


“Você não tem sentimentos”, ele disse, o meu amigo. Aquilo me doeu. Fiquei com o coração apertado, como se um gordinho tivesse se sentado ao lado dele no ônibus. Levantei da minha cadeira, mandei ele se foder, virei as costas e fui embora cheio de sentimentalismo.

Estávamos num bar e não me lembro ao certo de como a conversa chegou a tal ponto, mas talvez tenha começado logo após eu expressar minha opinião sobre como o feminismo é importante, mas como algumas feministas são um pé no saco. Não podemos também excluir das possibilidades a breve discussão a respeito da Teoria da Relatividade e de como Einstein não a teria completado se entre um cálculo e outro resolvesse tirar alguma dúvida no Yahoo Respostas.

Costumávamos nos encontrar aos sábados, não todos, mas somente naqueles que, curiosamente, precediam os domingos. Conversávamos sobre todos os assuntos imagináveis, e até alguns inimagináveis também, mas nunca sobre sentimentos, não me pergunte o porquê. No dia em questão, ele chegou feliz ao bar, me abraçou um pouco mais apertado que o normal, acariciou-me os cabelos demoradamente e eu esperei tenso pelo anúncio de que ele havia terminado o casamento de 15 anos, pois se encontrava perdidamente apaixonado por mim. Felizmente não aconteceu, já que sou heterossexual. Além do mais, ele era branco, forte e de olhos verdes. Bonito até, mas prefiro os morenos esbeltos e de olhos cor de jabuticaba (um arraso).

Lá pela sétima ou oitava cerveja, e ligeiramente bêbados, ele me contou o motivo de sua alegria: eu havia demonstrado afeto por ele publicamente num site de relacionamentos que, na época, fazia muito sucesso. O que me preocupou seriamente, pois comecei a questionar em segredo se, sendo uma rede social um espaço considerado público, eu poderia se preso por atentado ao pudor ao acessar a internet pelado. Não pude dar continuidade às minhas indagações jurídicas, já que tive minha linha de pensamento desmembrada pela afirmação caluniosa de que “você não tem sentimentos”.

Ora, só porque nunca demonstro afeto em público não quer dizer que eu não tenha sentimentos. Me lembro bem de quando todos os garotos da rua ganharam patinetes dos pais, enquanto eu ganhei um kit higiene com sabonete, escova, pasta, fio dental e flúor. Fiquei realmente triste, mas estampei um sorriso no rosto, engoli o choro (logo depois de engolir o choro escovei os dentes para evitar cáries, claro) e, aos dez anos de idade, forjei um dos aforismos mais brilhantes de toda a história da quarta série: “por um hálito refrescante, o homem de caráter abdica até mesmo dos patinetes”. Mais velho tentei vender a ideia para uma marca de pastas de dentes, porém eles ainda não estavam prontos para entender a grandiosidade da minha ideia, como não é raro acontecer com os homens à frente do seu tempo.

Todas estas lembranças vieram à tona em questão de segundos, passando pelos meus olhos como um filminho de baixo orçamento. Evitei expor os acontecimentos da minha infância e minhas fraquezas, por isso desisti da ideia de tentar virar a mesa cheia de copos e garrafas vazias; não teria forças sequer para arrastá-la. Preferi levantar da mesa e ir embora sem maiores explicações. Daria muito trabalho explicar que sentimentos são como pinto pequeno. Você nasceu com ele, pode até se orgulhar de tê-lo, mas é preferível não sair por aí mostrando a todos e gritando aos quatro ventos para não correr o risco de decepcionar alguém.