Siamesas
Joana e Joaquina eram gêmeas. Gêmeas siamesas, aquelas que nascem grudadas por uma parte do corpo. Nesse caso, era a pontinha da orelha que as unia. Os pais, como se não bastasse o desatino de batizá-las com estes nomes, resolveram que não, não fariam a cirurgia para separá-las, muito obrigado. Afinal, aquela era uma decisão importante demais para que a tomassem pelas filhas. Também pensaram em deixá-las sem nome para que só os escolhessem depois da maioridade, quando realmente saberiam o que queriam da vida, e enquanto isso as chamariam de filhinha e filhoca, mas infelizmente não rolou.
Assim, com estes nomes e bem juntinhas, Joana e Joaquina cresceram. E como a sua condição sugeria, sim, eram umas gatas. Isso fez com que o bullying, que naquela época ainda não tinha esse nome, fosse quase zero, pois todo mundo queria dar umazinha com as irmãs. Pensavam que levariam duas pelo preço de uma, o que nunca aconteceu, já que elas tinham gostos um tanto quanto distintos: uma curtia moças, a outra não sabia viver sem rapazes.
As questões amorosas, inclusive o sexo, foram as partes mais simples de resolver. Com um lençol no meio da cama, enquanto uma dava vazão a sua libido, a outra lia um livro; e enquanto a outra entrava em êxtase cavalgando, a uma relaxa praticando yoga. O que pegou mesmo foi o horário da faculdade. Como faziam cursos diferentes, em faculdades diferentes, a solução encontrada foi estudar em horários opostos. Era mesmo muito cansativo. Sempre tiveram que assistir às aulas uma da outra, mas ao final de alguns anos, dava pra ver que tinha valido a pena o esforço: Joana se tornou uma médica que projetava apartamentos como ninguém e Joaquina uma arquiteta que fazia uma cirurgia cardíaca que era uma beleza.
Na hora de arranjar emprego, a coisa complicou. Joana pensou em montar um escritório de arquitetura móvel, assim poderia trabalhar junto com Joaquina na sala de cirurgia, mas a ideia não foi bem recebida pelos diretores do hospital. Foi nesse ponto da vida, depois de tanto tempo vivendo juntas, que pela primeira vez as irmãs consideraram se separar. Como era difícil! Mesmo tendo completando a maioridade, decidiram manter-se unidas. E agora isso. Como seria a vida? Vida? Será mesmo que existiria alguma vida após a separação? As dúvidas eram muitas, os medos eram enormes, mas não dava mais, estava decidido. Joana não poderia atrapalhar a vida de Joaquina e vice-versa. Com o coração na mão, marcaram a cirurgia.
Separaram-se.
O baque foi menor do que imaginaram. A cirurgia ocorreu sem maiores complicações e deixou uma cicatriz mínima nas orelhas. A vida continuou a mesma. Quer dizer, quase a mesma. Pela primeira vez dormiriam em camas diferentes, talvez até morassem em casas diferentes. Teriam que lidar com a solidão. Mas não houve solidão. Não houve dor. Não houve tristeza. Estavam separadas depois de tantos anos e estavam felizes. Não melhores. Diferentes. Joana. Joaquina. Separadas, porém mais unidas do que nunca.