Sob cinzas

Ela costumava dizer que eu parecia uma flor. Nunca perguntei em que sentido, não me interessava saber. Não queria ser parecido com uma droga de flor. Imagino que fosse algo bom, pela ternura com que falava, mas o conceito de bom varia de pessoa pra pessoa. O conceito de qualquer coisa. Eu podia, por exemplo, ser flor que não se cheira. Vai saber.

Naquela noite, Rita estava demasiadamente falante. Eu, particularmente pensativo. Ela não parava de falar e eu sabia que ela falava apenas porque via, de relance, sua boca se movimentar. Não absorvia uma palavra sequer.

A cada minuto, o quarto parecia diminuir e ficar pequeno demais para nós: eu, elas e as palavras. Fossem quais fossem, as palavras que saiam da boca de Rita ocupavam todo o espaço, me encurralavam desconfortavelmente contra a cabeceira da cama.

Com o travesseiro, espantei algumas das palavras que vinham em minha direção, famintas de ouvidos. Na tentativa de desviar de outras, me levantei num pulo. Me ajoelhei na cama, com Rita entre minhas pernas. Ela ficou muda. Rita só calava a boca quando ficava excitada. Talvez a posição em que estava, ou a minha atitude repentina, tenha acionado o botãozinho do tesão que há tempos eu não encontrava.

Aproximei meu rosto do dela. Olhei longamente aqueles olhos verdes do tamanho do mundo. Olhei bem, porque eram realmente lindos e porque aquela seria a última vez que os veria.

Rita nem esboçou reação quando tapei seu rosto com o travesseiro. Ela sempre disse que eu era muito previsível, mas por essa com certeza ela não esperava. Acho que só passou a entender o que estava acontecendo quando o ar começou a faltar, que deve ter sido quase no mesmo momento em que começou a se debater. E voltou a falar. Tentar falar, porque dessa vez todas as palavras que saiam da sua boca eram suavemente sufocadas.

Talvez chamasse, em vão, por socorro. Talvez suplicasse não, por favor, não faz isso. Talvez gritasse, cheia de raiva, me larga, para com isso, seu filho da put…Amor! Ei, amor, tá me ouvindo?

Oi, Ritinha, meu amorzinho. Eu sempre falava assim com ela quando queria que me deixasse em paz. Onde é que você tá com a cabeça? Não ouviu uma palavra do que eu falei, né?, perguntou. Ouvi, ouvi sim, Ritinha, meu amorzinho. Só tava pensando na fatura do cartão. Acho que vamos ter que tentar um empréstimo de novo. A resposta pareceu acalmá-la. Ela se aninhou ao meu lado, beijou meu pescoço com os lábios molhados, como só ela sabia fazer. E aí voltou a falar.

Nem nos meus devaneios eu conseguia mais fazer calar as palavras de Rita. Nem na minha cabeça eu as sufocava por tempo suficiente para conseguir pensar em algo que não fosse a infelicidade da nossa relação. Vamos tomar um banho? Juntinhos?, disse levantando da cama e me puxando pelo braço. Vai na frente, vai. Deixa a água esquentar que eu vou.

Ela entrou no banheiro, encostou a porta, deixando só uma frestinha. Rita sabe que eu gosto do vapor da água quente tomando conta do banheiro, como uma sauna improvisada. Vem, amor!. Já tô indo, disse me levantando da cama.

Olhei o quarto minúsculo, em que se espremiam a cama,um frigobar e uma pequena mesa com duas cadeiras. As nossas roupas espalhadas pelo chão, o vapor começando a escapar pela porta do banheiro entreaberta. A água tá uma delícia, amor. Vem. E aí, de repente, aconteceu. A epifania que custou 12 anos pra me ocorrer: eu não precisava daquilo.

Antes que Rita tivesse tempo de abrir a boca novamente, coloquei minhas calças, calcei os sapatos e vesti a camisa, deixando passar um ou dois botões na pressa, dei uma última olhada no quarto e saí. Sem falar nada. Sem dizer que ia comprar cigarros nem deixar um bilhete.

A única coisa que deixei pra Rita naquela noite foi a conta do motel. Em casa, deixei também tudo que me pertencia: as roupas, os livros, os discos, a vida com aquela mulher por quem eu já não sentia nada a não ser antipatia. Por mim, ela podia tacar fogo em tudo. Por mim, ela podia se esgoelar de gritar enquanto assistia aos pedaços da nossa história se desfazendo em cinzas. Eu não estaria lá pra ouvir.