“Smoking is good for you” — Ilustração do canadense Scott Martin (aka Burnt Toast Creative). Confira o trabalho dele aqui.

Vícios

Escrever é um vício que vira e mexe largo, como o cigarro. Não sou fumante, assim como também não sou escritor. Às vezes fumo, às vezes escrevo. Bater uma bolinha no final de semana não faz de ninguém um Garrincha. Muitas vezes deixo ambos de lado, a literatura e o cigarro, por não querer fazer mal. Menos a mim do que a quem está em volta, que fique claro. Quem fuma impregna a si mesmo e ao ambiente com nicotina e outras quatro mil e não sei quantas substâncias tóxicas. Quem fuma incomoda. Quem escreve também.

Olham torto pra o fumante, assim como olham torto pra o escritor. Olha que horrível, ele fuma, não sabe que isso faz mal à saúde? Sinceramente, com tanta informação hoje em dia. E esse aí, ele escreve. Logo não tá vendo que é um vagabundo? Devia era tratar de arranjar um emprego.

Escrever e fumar, ao que parece, só preservam um pouco do seu antigo prestígio na cabeça dos jovens. Uns acham legal dar suas baforadas enquanto tomam um pileque no bar com os amigos, outros criam blogs ou até se aventuram a lançar livros. É da juventude fazer besteira. Quando cresce, passa. Pelo menos na maioria dos casos.

Meu médico dia desses disse que a minha técnica não estava funcionando. Que eu era fumante sim, que não me iludisse. Não era porque eu fumava e parava, fumava e parava, que o estrago seria menor. Disse que estava preocupado, que viu na tomografia algo que parecia um tumor no meu pulmão, mas que teria que fazer mais alguns exames pra ter certeza. Podia ser benigno afinal de contas. Nunca se sabe.

Ele falou muita coisa ainda, o meu médico. Mas a parte que não me sai da cabeça foi dita mais como amigo do que como médico de fato, sem papas na língua, como em nossos tempos de escola em que nem sonhava em ser doutor e já cuidava de mim. Lembro que ele olhou bem nos meus olhos e disse você tem que parar de fumar, esse cigarro ainda vai acabar com você. A literatura também, me diverti pensando. Com sorte, se não morrer de um, morro de outro.

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